Orlita morreu de desgosto. Morreu mesmo, depois de ser abandonada pelo noivo no dia do casamento. Ao receber a notícia sussurrada em seu ouvido por um padrinho, a notícia de que o amado não viria, que não viria logo, nem mais tarde, que não viria nunca, ela teve uma firmeza inesperada. Calmamente puxou o véu, liberou o buquê dos dedos nervosos, virou-se para observar a nave da igreja cheia de familiares. Então girou outra vez sobre os calcanhares metidos num par de saltos altos, encarou o padre, empalideceu e, já inconsciente, rolou pelas escadarias do altar. Não estava mais viva quando chegou lá embaixo. Os antigos dizem que, nas noites de lua grande, ela vaga pelo Cemitério Geral de Santiago à procura de seu homem. Os jovens enchem seu mausoléu de cartas, flores e oferendas, pedindo para si a sorte que ela não teve.
Guillermo morreu sentindo saudades do passado. Para ele o Chile era o país mais lindo do mundo. Tinha certeza de que, dali, não desejava sair para lugar algum. Mas seus gols eram frequentes demais para ficarem escondidos entre os Andes e o Pacífico. Foi convocado pela seleção. Percorreu os mares à sombra das chaminés de um grande navio a vapor. Enfrentou Zamora, um lendário goleiro espanhol com apelido de “Divino” e de quem se garantia que era capaz de defender dois chutes em cantos diferentes – ao mesmo tempo. Guillermo marcou três vezes no “Divino”. Quiseram Guillermo na seleção para o primeiro Mundial de futebol. Ele se negou a ir. Estava apaixonado por uma moça bem ali, no Chile. Nada tinha a fazer no Uruguai. Mas foi convencido, e fez quatro gols em três jogos montevideanos. Voltou para casa, consumou o matrimônio com a namorada e perdeu o medo das distâncias. Agora viajaria sem problemas. Da excursão seguinte, retornou viúvo. A esposa falecera no parto do primogênito. E ele não estava lá.
Violeta morreu por obra própria. Surpreendentemente. Num dia de verão, desses verões secos que fazem o rio Mapocho minguar pela falta de chuvas e virar um ralo córrego sem forças para dividir Santiago em duas, ela se suicidou. Violeta cantava o lindo. Mas sofreu desilusões com os projetos que traçara. Conviveu com a indiferença do público. Mais tarde, também acrescentariam a mentira de uma tristeza amorosa à torrente de frustrações. Violeta desistiu aos quarenta e nove anos de idade, sem ver as chuvas voltarem ao céu do Chile, ou as neves ao topo da Cordilheira, ou ter a certeza, só confirmada depois, de que havia revolucionado a música de seu país. Surpreendeu porque se matou. Ninguém compreendera que, quando lançou a canção “Gracias a la vida”, no ano anterior, ela não fazia uma ode à felicidade. Estava se despedindo.
Salvador morreu acossado. E poderia ter morrido de tantas formas naquele dia que por muito tempo seus seguidores recusaram a versão – real – do suicídio. Salvador foi Presidente da República, o primeiro marxista do mundo a subir ao poder através de uma eleição democrática. Sua revolução, escreveram os jornais, tinha “empanadas y vino tinto” no lugar de armas e guerrilhas. No quinto dia de governo já havia reatado relações com os países socialistas. Prometeu abrir grandes alamedas pelas quais passariam os trabalhadores livres. Deparou-se com a maior crise econômica da história do Chile. Boicotado por investidores estrangeiros, viu o país entrar em colapso, a inflação atingir três dígitos e a produção nacional se retrair. Perdeu a popularidade. Os militares fizeram o golpe andar. Ordenaram a renúncia. Ele respondeu, na única rádio ainda operante na capital: “Yo no voy a renunciar. Pagaré con mi vida la lealtad del pueblo”. Bombardearam o palácio e finalmente o invadiram. Encontraram Salvador morto. Nas mãos, a arma que ganhara algum tempo antes, com a inscrição: “De su amigo y compañero de armas, Salvador. Comandante Fidel Castro”.
Víctor morreu humilhado. Amigo de Violeta, fez parte do mesmo movimento que modificou a música chilena. Encantavam-no as canções de protesto. Sua voz e seu guitarreio podam ser mais perigosos para uma ditadura do que metralhadoras de radicais de esquerda. Por isso, prenderam-no no primeiro dia do novo regime e o mataram no quinto. Entre uma data e outra, foi levado a um ginásio em que no passado cantara por festivais de música, mas onde agora não queriam lhe ouvir. Torturado e feito de exemplo para os demais presos, ainda conseguiu escrever um último poema, escondido por companheiros de cárcere e mais tarde difundido: “Somos cinco mil en esta pequeña parte de la ciudad. ¿Cuántos somos en total en las ciudades y en todo el país?”, começava. Eram muitos outros numa parte maior da cidade, o Estádio Nacional das finais de Libertadores e da Copa do Mundo. Quando seria transferido para lá, Víctor foi puxado da fila, levado para um calabouço e fuzilado. Encontraram seu corpo de madrugada, próximo ao Cemitério Geral, ao lado de outros cinco. Questionado pela comunidade internacional, o governo militar relatou oficialmente sua morte dessa forma: “morreu por ação de franco-atiradores que, reitero, disparavam indiscriminadamente contra as Forças Armadas e a população civil”.
Todos eles estão no Cemitério Geral de Santiago. Todos recebem homenagens por motivos distintos. Apenas uma das histórias não é verdadeira, embora a cultura popular assuma que sim.
Orlita Romero Gómez não era uma noiva abandonada no dia do casório, e sim uma moça subitamente falecida no dia do décimo sétimo aniversário. A mãe, inconsolável, mandou embalsamar a filha e colocou o corpo dentro de uma caixa de cristal, trajando um vestido branco que simbolizava a pureza da morta e originou a lenda. Aos finais de semana, a mãe se dirigia ao cemitério para pentear os cabelos da menina. Orlita faleceu em 1943. Depois da morte da mãe, o mausoléu foi fechado, mas em sua pesada porta de ferro ainda se acumulam pedidos de jovens enamorados.
As demais histórias são reais.
Guillermo Subiabre morreu em 1964, aos sessenta e um anos, e foi sepultado no Mausoleo de los Viejos Cracks de Colo-Colo, para onde, a cada ano, nos dias de aniversário do clube, parte uma romaria de torcedores.
Violeta Parra suicidou-se em 1967, aos quarenta e nove anos, alguns meses após tornar públicos os versos depois popularizados por Mercedes Sosa: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto / Me dio dos luceros, que cuando los abro / Perfecto distingo lo negro del blanco / Y en el alto cielo su fondo estrellado / Y en las multitudes el hombre que yo amo”.
Salvador Allende suicidou-se em 11 de setembro de 1973, dia do golpe militar chileno, pagando por tentar mudanças profundas na vida nacional sem ter sustentação para isso – havia sido eleito sem maioria, com pouco mais de um terço dos votos totais. Sua queda abriu um período paradoxal de crescimento econômico e perseguições sangrentas que motivaram os memoriais de assassinados e desaparecidos na ditadura erguidos na entrada do Cemitério Geral, uma interminável lista de nomes em que o seu ocupa posição central, por ter sido o primeiro.
Víctor Jara foi morto entre 15 e 16 de setembro de 1973, aos quarenta anos, por mãos desconhecidas, no antigo Estadio Chile. Hoje o local tem o nome do cantor. A placa em sua homenagem, na entrada do ginásio, fica na mesma parede em que os corpos dos prisioneiros eram empilhados pelos militares.
De Santiago,
Maurício Brum




“Teresina era uma cidade pequena, onde havia um déficit muito grande de água canalizada, de energia elétrica e em que a maioria das ruas não tinha sequer calçamento”, relembra, aos 99 anos, o ex-prefeito e ex-deputado Agenor Barbosa de Almeida, precursor, juntamente com o intelectual alagoano Graciliano Ramos de um modelo até então inédito no país, a prestação de contas feita regularmente através de relatório ou veículo de comunicação.
im-pres-si-o-nan-te!
tu está na cidade mais bela q já visitei, brum. aproveite e nos conte tudo. gracias.
brilhante relato
monstro
Un pisco capel o una Austral Calafate en su honor
Muito bom o texto, e bem tristes as histórias… Pena que o Chile, esse país de um povo tão valoroso e apaixonado, tenha a mancha trágica dessa ditadura sangrenta em sua história…
de chorar esse texto, brum.
parabéns.
Como sempre, excelente.
“Herminda de la Victoria
nació en el medio del barro
creció como mariposa
en un terreno tomado.
Hicimos la población
y han llovido tres inviernos,
Herminda en el corazón
guardaremos tu recuerdo.”
Herminda de La Victoria – Victor Jara
http://www.lamuralla.cl/?a=1896
Belo texto. Impedimento cada dia melhor
PQP!! sugiro modernizar esse espaço para classificar os textos, com botões do tipo:
“la recontra puta madre que te parió”, “S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L”, “ducaraio” e afins…
elogiar textos de vocês tá ficando chato e repetitivo.
#dimóiss
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