Mamita querida,
ganaré dinero
seré un Baldonedo
un Martino, un Boyé.
Dicen los muchachos
del Oeste Argentino
que tengo más tiro
que el gran Bernabé
Jantando tranquilo numa pizzaria da calle Corrientes, em Buenos Aires, Bernabé sentiu a aproximação de um tipo algo solene. Sem ter sido notado por estar nas sombras, o sujeito já espreitava sua mesa havia algum tempo, aguardando o goleador mais famoso do país terminar sua refeição. Mas não esperou até o último pedaço. Colocou seu chapéu na cabeça, ajeitou o lenço na lapela do terno bem recortado e se acercou. Tocou o ombro de Bernabé e o saudou. “Así que usted es la Fiera”. Em uma fração de segundo, o artilheiro largou os talheres, ergueu os olhos e, tendo reconhecido o interlocutor, tomou cuidado para não estragar o momento se engasgando com um pedaço de mozzarella. “No, la Fiera es usted, Maestro”, respondeu ele para Carlos Gardel. Era o encontro do homem mais ouvido com aquele de quem mais se falava em todo o território da República Argentina.
Isso se deu em 1933, e nem antes, nem depois, houve quem conseguisse explicar de onde vinha a força do seu chute. Sabe-se que na infância os irmãos pediam para que jogasse descalço, a fim de que os tiros saíssem menos violentos, evitando machucar alguém. A experiência teria reflexos na carreira profissional de Bernabé. Sem poder jogar com os pés desnudos, ele detestava usar meiões. Preferia um par de soquetes, mais ajustadas à pele, para ter uma sensação semelhante à da infância. Com o tempo essa peculiaridade originou lendas – alguns diziam que ele possuía um osso superdesenvolvido no peito do pé, e essa seria a verdadeira causa dos chutes que, sem tecnologia para serem medidos com exatidão, certamente superavam a marca dos cem quilômetros por hora. Bernabé Ferreyra era todo um fenômeno. Em 1932, o River Plate arrombou seus cofres e tirou lá de dentro 35 mil pesos da época para comprar o atacante que pertencia ao Tigre. Foi o maior valor pago por um jogador de futebol em todo o mundo até então – um recorde que duraria outros vinte anos, e a causa da alcunha de “Millonarios” que o clube passou a ostentar.
A fama foi construída com um império de gols. Bernabé, cujo pai era ferroviário, começou a atuar em uma série de equipes ligadas aos trens, primeiro na sua cidade natal, Rufino, e depois em Junín, para onde foram transferidos. Os elogios que recebia pelas atuações fizeram com que criasse coragem para tentar a sorte em Buenos Aires. Ganhou uma vaga no pequeno Tigre, uma equipe pouco cotada para qualquer coisa, mas em pouco tempo ele se tornou maior que o próprio clube. No fim de 1930, último ano de amadorismo na Argentina, o Vélez Sarsfield saiu para uma excursão de cinco meses pelas Américas e conseguiu o apoio das outras equipes para representar o país. Por empréstimo, juntou alguns dos principais nomes do futebol nacional e partiu de viagem com um ataque que incluía o próprio Bernabé, futuro ídolo do River, e Francisco Varallo, à época no Gimnasia de La Plata, que depois se tornaria o goleador histórico do Boca Juniors até ser superado por Martín Palermo, em 2008.
O time de aluguel do Vélez fez um sucesso estrondoso por onde passou. Fosse no Chile, no México, nos Estados Unidos ou mesmo em Cuba, os resultados eram espetaculares. Em vinte e cinco jogos, contou vinte vitórias e apenas uma derrota. Bernabé marcou trinta e oito gols. No Peru, ainda no início da gira pan-americana, chegou a derrubar o goleiro do Universitario com um pelotaço na cabeça. Sentindo-se culpado, comprou um regalito e fez uma visita ao hospital. Já sabendo que o Vélez passaria novamente pelo país no caminho de volta e o confronto deveria se repetir, o goleiro peruano fez um apelo: “si nos volvemos a enfrentar, avíseme antes de patear”. Meses depois, no regresso, o confronto de fato se repetiu e os argentinos ganharam por três a zero. Mas Bernabé gritou avisando antes de cada chute. Mesmo quando marcou o gol e correu para celebrar, ouviu o arqueiro berrar, ao longe: “muchas gracias”.
Ao voltar da excursão, em 1931, Bernabé foi o homem forte do fraco Tigre. Marcou dezenove gols nos primeiros treze jogos do campeonato, passou a ganhar uma manchete atrás da outra, e o River Plate decidiu que não poderia ficar sem ele depois de um domingo no fim de setembro daquele ano. No mesmo dia, o clássico de Avellaneda acabou com um delirante sete a quatro do Racing sobre o Independiente, mas em retrospectiva outro jogo se tornaria tão memorável quanto. Jogando de local no campo do Boca, o San Lorenzo derrotava o Tigre por dois a zero até os dez minutos finais, com uma atuação fraca de Bernabé. Seus chutes saíam tortos, longe do gol, na direção das arquibancadas, e alguém poderia dizer que ele estava tentando acertar um torcedor para se vingar das vaias e das gargalhadas que se repetiram enquanto durou a partida. Até os dez minutos finais. Bernabé então acertou seus três únicos chutes a gol no jogo e todos encontraram as redes. O Tigre venceu. Tratava-se da confirmação de que uma camisa mais pesada esperava pelo goleador.
Quando o River cometeu sua ousadia financeira e apostou o futuro no Mortero de Rufino, Bernabé Ferreyra se tornou um dos homens mais conhecidos daquela margem do Rio da Prata. Nos anos seguintes, seria parado em cada esquina da capital, por anônimos, por Gardel ou pelo próprio presidente da república, um militar pouco popular chamado Agustín Pedro Justo, cujo governo foi o mais longo (1932-38) de um período ditatorial e corrupto recordado como a Década Infame. “Vine a saludarlo porque los diarios hablan más de sus goles que de mí”, disse o mandatário, cumprimentando o atacante responsável por curar a vergonha que seu governo provocava nos argentinos. Bernabé seria uma das primeiras grandes figuras midiáticas do futebol sul-americano. Além de aparecer em mais de uma letra de tango, chegou a fazer pontas em filmes como “El cañonero de Giles”, de 1937. O título parodia o apelido de Bernabé, mas o personagem principal é um jogador caricato interpretado pelo ator Luis Sandrini, cuja característica era ganhar uma força descomunal ao ouvir o latido de um cachorro.
Sua carreira só não foi mais longa devido a um infortúnio. Em 1937, pouco depois de vencer a Copa América pela Argentina, rompeu os meniscos ao sofrer uma entrada no clássico contra o Boca. Lesão fatal para a época. Nos dois anos seguintes, Bernabé só conseguiria entrar em campo mais onze vezes, e encerrou a carreira com apenas trinta anos, depois de ajudar o River a erguer seus primeiros três títulos nacionais do profissionalismo. Havia somado 206 gols em 197 partidas pela primeira divisão argentina. Ele faleceria em maio de 1972, aos sessenta e três anos de idade, sempre ligado ao clube de Núñez – que no seu tempo ainda era do bairro de Palermo. Desde o início nos recém-alcunhados Millonarios, ninguém parecera ter qualquer dúvida de seu triunfo. Em 1932, a temporada de estreia por lá, o jornal Crítica confiou no seu potencial e estabeleceu como prêmio uma valiosa medalha de ouro puro ao primeiro goleiro que não sofresse gols de Bernabé Ferreyra na temporada.
Naquele ano o River seria campeão e o goleador marcaria 43 vezes em 34 jogos. Esteve praticamente imparável, e a medalha só foi concedida no décimo sexto jogo, para Sangiovanni, do Independiente. No entanto, havia uma pendência: um duelo contra o Huracán na rodada treze, interrompido por falta de luz a dez minutos do fim, quando Bernabé ainda não havia marcado gols. O restante do tempo só foi disputado depois daquela partida contra o Independiente e, na nova data, o Globo entrou em campo deliberadamente sem Cándido De Nicola, o goleiro dos oitenta minutos iniciais. Ele não quis arriscar. No dia seguinte, De Nicola bateu à porta do diário Crítica cobrando sua medalha.
Maurício Brum




Melhor texto entre os ótimos textos desta série.
Bons tempos esses até na questão da escolha da ALCUNHA: LA FIERA..
E não deixo de me assombrar com quantia que o alviverde de Sevilha pagou pelo DENILSON: 31 milhões de rúculas. Comprasse as ações do CIRQUE DU SOLEIL e teria toda a equipe e não só um malabarista com esse dinheiro
AGUANTE PEIXE URBANO
agora vou ler
ns
Parabéns pela pesquisa e pelo texto.
Desculpem-me o ofitópique, mas é necessário.
http://uolesporte.blogosfera.uol.com.br/2012/01/18/com-direito-a-uma-vasta-cabeleira-dourada-valderrama-vira-estatua-na-colombia-veja-foto/
e o dalefarsa?
#5 are you my fake
que baita texto