“Mamita querida, ganaré dinero
seré un Baldonedo, un Martino
un Boyé”
(Não sei por onde andaria Mario Boyé em um fim de tarde qualquer do início dos anos 1980, mas se o encontrasse em um café de Buenos Aires – a mesa em frente à janela, a companhia que o convidava a falar, o copo nunca vazio – creio que a situação seria mais ou menos assim.) Não era afeito ao encadeamento natural dos acontecimentos dentro de um campo de futebol; tampouco seria assim longe das canchas, tantos anos depois, ao recordar a carreira. Tanto que a anedota sobre Amadeo Carrizo – que preencheria o final de tudo, o desfecho do ocaso – logo foi a escolhida para saltar à mesa. Em dezembro de 1955, Mario Boyé já havia praticamente desistido do futebol. Deixava para trás uma larga carreira de triunfos em dois grandes clubes argentinos, uma passagem exitosa pela Europa e boas apresentações com a sagrada jaqueta da seleção nacional. De modo que aquele torneio amistoso marcado para o Estádio Centenário carecia de maiores significados para um centroavante de tantos gols, ainda que o adversário da vez fosse o River Plate. O plano era simples, óbvio – guardar ao menos um tento na meta do tradicional rival naquela que poderia ser uma jornada de despedida.
Longe da forma física que o credenciou como um atacante rompedor, daqueles que se tornam imediatamente um pesadelo para o goleiro e os dois beques quando adentram a grande área, para Boyé bastariam alguns poucos instantes com a bola no pé naquela tarde de 1955. Afinal, quem dedica uma vida ao futebol sabe como os amistosos por vezes são como os rituais improdutivos, eventos incapazes de determinar qualquer grande mudança, independentemente do resultado; um protocolo, a bem da verdade. Se vencerem, o lateral-esquerdo do outro time dirá que os onze jogadores se pouparam para torneios de reconhecida importância; se perderem, será o meia-direita da tua equipe o responsável por diminuir a seriedade daquilo tudo. E assim iniciara aquele Boca e River em território oriental, algo burocrático para os jogadores, mas curioso para os espectadores das tribunas Amsterdan, Colombes, América e Olímpica do “Estádio”, como chamam os uruguaios, como querendo dizer que o Centenário é o único palco verdadeiro da capital.
Até que um uruguaio modificou as coisas aos seis minutos. O montevideano Walter Gómez, então atacante do River, que pisava toda semana naquele mesmo gramado anos atrás, na época em que defendia as cores do Nacional, fez 1-0 para os que vestiam vermelho e branco. Alberto Etcheverry empatou para o Boca logo depois, e Menéndez faria o segundo do River ainda antes dos quinze minutos. Lá pelos trinta e três minutos, segundo os cálculos do artilheiro, Boyé empatou a partida – e provavelmente seria assim, com um golzinho no primeiro tempo, os acenos para a torcida e o descanso no vestiário a partir do intervalo que se encerraria a carreira de um dos maiores centroavantes que o futebol argentino pôde assistir. Mas Amadeo Carrizo, o lendário goleiro do River Plate, resolveu lembrar a Boyé – no momento em que o atacante buscava a pelota no emaranhado dos cordões da rede – que aquele era o primeiro gol que sofria do goleador xeneize em superclássicos:
- ¿Sabés que es el primero que hacés en tu vida, Mario?
- En la vida todo llega y cuidate que en una de esas, si entro en el segundo tiempo, sigo con la fiesta.
- Si me metés otro, te pago un whisky.
Boyé voltou e, com o fim da tarde daquela quinta-feira de dezembro, chegariam mais três gols seus. Os narradores uruguaios não cansaram de repetir o nome do responsável pelo impactante 5-2 do Boca Juniors sobre o rival de todos os dias: ¡Mario Emilio Heriberto Boyé! O amistoso que pouco ou nada poderia dizer sobre a trajetória futebolística de Boyé tornou-se uma das recordações mais alegres para o artilheiro. Afortunados os uruguaios que rumaram ao Estádio para acompanhar o duelo entre os dois maiores quadros da outra margem do Rio da Prata. (Este é o instante em que Boyé, após gargalhar com o causo de Carrizo – “e Amadeo havia escolhido um belo whisky, é preciso dizer” –, lembra que a sua obra não foi feita de uma história só. Ainda que para o ouvinte sejam todas histórias repetidas, mesmo os detalhes de algumas delas, ele jamais se atreveria a interromper a cena em que Mario Boyé rememora os seus maiores gols.)
Da primeira vez que pisou em La Boca para jogar futebol ao dia em que festejou os quatro gols empilhados em Amadeo Carrizo, Boyé se fez centroavante. Nunca escondera as limitações futebolísticas ou a sua preferência dentro das quatro linhas – escolhera desde o primeiro dia a grande área como o palco para as suas atuações. Deixava para Carlos Adolfo Sosa os passes certeiros e o domínio de bola, e que o uruguaio Severino Varela ficasse com o folclore e a bendita boina. O cabeceio e a força no arremate, entretanto, eram as qualidades que cabiam a Boyé – características que causaram certa incompreensão nas primeiras partidas em que pôde ser visto na Bombonera. Após cinco anos de preparação nas categorias de base no Boca, Mario Boyé só contabilizava ofensas nas aparições que fazia na equipe profissional: patadura, bronco, ropero. Não poderia ser aquele grandalhão nascido no bairro de Colegiales a solução para os títulos que a equipe de La Ribera necessitava nos anos 1940 que batiam à porta.
Ainda mais o grandalhão que, certa feita, cansado dos xingamentos que partiam das populares do estádio, recebeu a bola, sentiu o sangue ferver e mandou – com toda a força e a raiva possíveis – o esférico para fora do estádio. Na saída de campo, ainda possuído, despiu-se da camiseta e jogou-a no alambrado; em entrevista, tentou justificar a fúria: “hacía calor”. Conquistou a parcialidade azul y oro no mesmo ritmo em que aquela equipe se ajustava em campo para buscar os campeonatos de 1943 e 44, nos quais Boyé foi protagonista. O primeiro dos torneios conquistados por Boyé é um dos mais recordados pelos antigos; após sete rodadas, o Boca Juniors era um dos últimos colocados e não dava sinal algum de que remontaria a situação. Boyé, Sarlaga e Varela, entretanto, deixaram os seus gols em cada cancha de Buenos Aires e o Boca partiu rumo ao título – na ocasião em que o patadura virou ídolo e as ofensas se transformaram em música. A cada domingo em que Boyé entrava em campo, um par de versos voava das tribunas: “yo te daré, yo te daré niña hermosa / te daré una cosa / una cosa que empieza con B: ¡Boyé!”
Foram cento e doze gols pelo Boca, o suficiente para se fazer presente na lista dos dez maiores goleadores da história do clube. Deixou o clube em 1949 para atuar fora da Argentina; primeiro no Genoa italiano, depois no Millonários de Bogotá. Voltaria para ser campeão no Racing – e, segundo o site oficial do clube de Avellaneda, Boyé foi ídolo “antes mesmo da sua chegada”. Em 1955, retorna ao Boca e se despede do futebol com os quatro gols que lhe valeram um whisky de Amadeo Carrizo. Dedicou a aposentadoria à pizzaria “La Guitarrita”, que fundou no bairro de Belgrano com o ex-jogador do San Lorenzo René Pontoni. O restaurante ainda existe, agora com lojas em Núñez e Las Cañitas. No local, uma homenagem a Boyé consta no cardápio: uma das pizzas se chama “Atómica”, apelido que o centroavante recebeu pela potência do seu chute. (Já passava das dez quando Boyé afastou o copo e aproximou os olhos da janela para constatar que chovia na noite porteña. Apertou a mão do homem de chapéu, saludou um ou outro conhecido, deixou os pesos correspondentes no balcão e se perdeu na rua vazia.)
Iuri Müller




Bons tempos desses jogadores citados no tango. A bola não era branca, mas era de uma cor só. Sem frescuras:
http://globoesporte.globo.com/rs/futebol/campeonato-gaucho/noticia/2012/01/na-moda-duvidosa-ou-ousada-bola-rosa-acende-debate-pre-gauchao.html#equipe-internacional
belo post, é o primeiro q leio da série.
deve dar um trabalhinho recolher essas histórias, hein. massa!
Outros tempos…
Hoje em dia goleador do Boca vira alcaguete de jornalistas jabazeiros por sua briga com o craque do time. Isso sem falar nas vezes em que ajudou os meliantes da tribuna Natalio Pescia, ou ainda ao usar propaganda política na braçadeira (amarela, com o logotipo da coligação do M*cri). Diante disso, perder três pênaltis num jogo só até que não é tão grave…
Fora que essa camisa antiga é do carvalho. Hoje, tem até logo vermelho. E outros arreganhos como esse aqui:
http://www.marcadegol.com/wp-content/uploads/2012/01/camiseta_boca_verano_juventus.jpg
Na saída de campo, ainda possuído, despiu-se da camiseta e jogou-a no alambrado; em entrevista, tentou justificar a fúria: “hacía calor”.
Sensacional, cara. Que baita texto. Que bela série.
Quando voltar a Buenos Aires, vou chegar em LA GUITARRITA, pedir uma pizza ATÓMICA e dar uma BICICLETA na azeitona preta. Espero que compreendam minha poesia GESTUAL.
dushfsh