Botar a cabeça pra funcionar

Punheta é que nem taça de vinho, duas por dia fazem bem à saúde. E falo isso com experiência de causa. Bem, nem tanto. Afinal, não tomo tanto vinho assim. A verdade é que, ao bater uma, não são só os punhos que se exercitam. Quando o moleque fica meia hora homenageando a professora de geografia e seu vestidinho indiano que insiste em esvoaçar no meio da explicação sobre o clima seco do semi-árido nordestino, há muito mais em jogo do que supõe a nossa vã putaria. Trata-se de pôr em prática aquilo que, para além do polegar opositor, define nossa condição de seres humanos: a capacidade de imaginar. Porque o punheteiro é, antes de tudo, um criador.

O jovem mancebo que se propõe a fazer justiça com as próprias mãos descobre logo que não bastam apenas movimentos contínuos de ir e vir, vir e ir. O buraco é mais embaixo, apesar de ele ainda não saber bem onde. É preciso criar todo um enredo, todo um contexto. Diálogos, cenários, vestimentas, som ambiente, personagens coadjuvantes – e até animais, por que não? – devem ser construídos e entrelaçados. Os mínimos detalhes importam. Quanto mais verossímil melhor. Tudo para garantir o maior clímax possível. E isso só se consegue usando a imaginação, mesclando lembranças e invenções. Criando. Dante Alighieri bateu muitas pra Beatriz antes de escrever a Divina Comédia.

E falo isso porque falta punheta no futebol brasileiro.

Jogador não pensa mais, executa. Isso da especialização, cada um no seu quadrado, ferra tudo. Falta visão de jogo. Chutar, tocar, marcar e cruzar, convenhamos, é coisa de adestramento de macacos – apesar de ter muito jogador que nem disso é capaz. O pulo do gato é saber o que fazer com a técnica na hora que o bicho pega. Estádio lotado, segundo tempo, time perdendo de um a zero, torcida nervosa, bola no meio de campo, dois marcadores chegando. Nesse momento é preciso imaginar, inventar, criar. É quando o safo do punheteiro, acostumado a criar histórias mirabolantes com aquela priminha mais velha lá de São Paulo, tira o seu da cartola e improvisa uma jogada com a mesma criatividade que inventa uma trepada.

E digo mais. Não basta visão de jogo, é preciso ter visão de mundo. Jogador inteligente é inteligente dentro e fora de campo. Quem não sabe pensar o mundo não sabe pensar o jogo. Jogar é analisar, decidir, escolher. E se o cara não faz isso nos outros momentos da vida, não vai fazer durante a partida. Botar jogador numa redoma onde só se fala de futebol, pagode, mulher, churrasco e contrato com time do exterior fode a parada. Tem que estar inserido na sociedade, porra! Viver a vida que nós vivemos e lidar com os problemas que nós lidamos. Se não vira marionete e quando a hora da verdade chega nas quatro linhas não aguenta o tranco, não decide, amarela.

É por essas e outras que, passadas três décadas, a diferença da seleção brasileira atual daquela de 82 é proporcional à que existe entre comemorar gol imitando João Sorrisão e erguer o punho esquerdo fechado à la Panteras Negras.

É preciso botar a cabeça pra funcionar. As duas.

Thalles Gomes

Publicado em Colunas, Literatura. ligação permanente.

48 Respostas a Botar a cabeça pra funcionar

  1. Caue Fonseca diz:

    “Tem que estar inserido na sociedade, porra!” <—- clímax do texto

  2. TMarcon diz:

    clássico total. Textasso! Sexo e futebl têm muito a ver.

  3. Chico Luz diz:

    maior texto que eu já li na minha vida, hahahah. Genial.

  4. Vizzotto (Goleiro) diz:

    EXPLODI!!!!
    HUAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!

    Agora sabemos o que andavas fazendo no final de semana da ImpedCopa!

  5. Hahahaha!!! Que texto genial e ESCLARECEDOR!

  6. Gralha diz:

    meio doentio, mas totalmente verdadeiro. uhsauhshauhsasa

    “É por essas e outras que, passadas três décadas, a diferença da seleção brasileira atual daquela de 82 é proporcional à que existe entre comemorar gol imitando João Sorrisão e erguer o punho esquerdo fechado à la Panteras Negras.” e viva a banalização e idiotização do futebol brasileiro. valeu, tadeu schmidt. valeu, tiago leifert

  7. Roger diz:

    Li o primeiro parágrafo e já afirmo que esse texto é um clássico! Digno da nata literaria do Impedimento.
    Agora vou ler o resto, sem medo de me decepcionar….

  8. Matheus Kern diz:

    Que baita texto. Parabéns! “Afinal, não tomo tanto vinho assim.” foi a melhor parte.. hausiahsuia

  9. Cyro diz:

    excelente analogia. Parabéns!

  10. Paulo Seben diz:

    AINDA falam daquela porcaria de 1982?

  11. Godo diz:

    Detalhe que o anel do R10 combina com a pulseira e certamente alguns dos 35 colares.

    Chora, Beckham. (ns)

  12. matheus furtado diz:

    eu nao quero ler mais nada nesse mundo. ADEUS, MUNDO.

  13. Paulo Seben diz:

    AINDA falam daquele amontoado de 1982?

  14. Alex Rosa diz:

    A mão aberta do R10 apontando os CINCO meliantes que descabelaram UM solitário palhaço, num covarde 5 contra 1, ilustra com maestria o texto. Parabéns a todos os envolvidos.

  15. jeancarlocf diz:

    Excelente texto! Parabéns!
    Infelizmente a imbecilização não acontece só no futebol, mas na cultura em geral…
    é BBB, restart, luan santana, pagodinho, carnaval… tudo pra manter o zé povinho distraído, enquanto os “espertos” se aproveitam…
    Mas viva a punheta!!!

  16. Diogo Terra diz:

    Chamem alguém da Academia Brasileira de Letras pra próxima ImpedCopa. Comecem o LOBBY. De uma vez por todas. Chega de continhos de escravidão e amor não-correspondido. Este aí em cima diz muito mais sobre a juventude brasileira do que Macunaímas e Policarpos da vida.

  17. Anônimo diz:

    Grave caso de Xico Sá.

  18. FERN diz:

    porra este teXtículo éh quase uma ejaculada na cara da sociedade midiaglobalfuteboleira

  19. Frank diz:

    Putz, na hora que comecei a ler, pensei que era um texto do CUNEGUNDES, que finalmente tinha reaparecido… mas pelo que eu soube pela ImpedCopa, muitas RUIVAS povoam os sonhos molhados e a imaginação delirante de Thallesgoto… heheheheheh…

    Muito foda (literalmente…) essa metáfora. O que mais me deixa chateado com o grau de autismo do futebol atual é que não se trata só do jogador de futebol que não se interessa pelo que se passa ao seu redor na sociedade… qualquer adolescente que tenha a mesma idade desses ídolos também não se interessa por mais nada que não seja o próprio UMBIGO…

  20. dadá maravilha declarou certa vez que antes da partida pra matar a ansiedade batia uma bronha e entrava em campo alegre e solto pra fazer gols.

  21. col diz:

    Duas?

  22. Leco diz:

    É por aí. Tenho comentando muito esse tema aqui em Sampa, como hoje os jogadores são mimados, secundários. O time ganha título e quem dá entrevista é técnico, o cartola. Esses rendem o que a mídia quer. O jogador é um fantoche secundário a repetir o que o discurso mercadológico lhe permite para que tudo seja rentável e vantajoso para o circo do futebol. O tempo é de reflexão. Por isso, reconheçamos. A vitória do Barça nos devolveu o orgulho daquele futebol que prima pelo talento, coletivo, individual, todos em harmonia. E mais, pelo valor ao jogador-cidadão. Sem endeusar o time catalão, mas ao ler “A bola não entra por acaso”, de Ferran Soriano, ex-dirigente que transformou o clube no que é hoje, fica claro que a chave do processo foi devolver ao Barcelona a alma catalã, da resistência, do orgulho, da identidade própria, do respeito à cidadania. Até que ponto há canalhice no processo, não sei, mas o que sustenta esse projeto do Barça é algo que une todos que lá orbitam. Pelo visto, Seleção Brasileira, Bahia, Vitória, todos têm muito trabalho pela frente.
    Sds
    Leco – torcedor do Esporte Clube Bahia

  23. fabio diz:

    volta CUNEGUNDES.

  24. Cícero diz:

    #21
    fatão

  25. Cícero diz:

    que texto meus amigos. Façam logo um livro, antes que tudo se perca no limbo da internet.

  26. JUAN diz:

    Putanissimo texto…um misto de Gabriel Garcia Marquez e Dostoiévski… fosse traduzido num curta, a direção caberia ao Stanley Kubrick em dueto com Glauber Rocha..
    Só me resta queimar “História e consciência de classe” na churrasqueira e torcer para que o juizo final ocorra logo, antes do inicio do gauchão, preferencialmente.

  27. Marimon diz:

    Grande.

  28. JUAN diz:

    VOLTA cunegundes

  29. douglasceconello diz:

    Texto INSPIRADOR.

    Thallesgoto é o MARQUÊS DE SADE de Alagoas.

    Ou um ÉMILE ZOLA brasino, suado y TOCADOR.

    Escolham.

    fhudhuhs

  30. Álisson diz:

    Bah, texto do caralho!

  31. oPaivas diz:

    Mas até da punheta fizeram mídia. Vide dentuço pilantra! Esse provavelmente fez isso pq o Mano dele mandou. “é pra dizerem que tu é parecido com o Dáda…”
    Chora palhaço! Tu nunca vai amarrar a chuteira de jogadores como Zico, Falcão, Sócrates, Renato Gaúcho, Eder, Dadá…

  32. Thúlio diz:

    Melhor primeiro parágrafo da história.

  33. paulo diz:

    punheta da porra !!!

  34. jo diz:

    UM TIME DEVERIA SER DE 1 DRIBLADORES . ISTO , PRA MIM É O QUE IMPORTA NO FUTEBOL ! TEM QUE IR PRA DENTRO DELISX… UM DOS MAIORES TIMES QUE VI JOGAR FOI O FLAMENGO DO ZICO QUE DE 10 JOGADORES DA LINHA , 9 SABIAM DRIBLAR E POR ISTO NÃO PERDIAM TEMPO PENSANDO EM MIL TÁTICAS – O TREINADOR FOPI O CARPEGIANNI QUE DEPOIS NÃO GANHOU MAIS NADA PROVANDO QUE ERA O TIME E NÃO ELE O CAUSADOR DAQUELE GRANDE TIME. PODE HAVER MARCAÇÃO , CRUZAMENTOS , PASSES MAS O FUNDAMENTAL E ELIMINAR A IGUALDADE NÚMÉRICA ATRAVÉS DO DRIBLE.

  35. jo diz:

    O PAULO SEBEN NUNCA CHUTOU UMA BOLA ( GURI DE APARTAMENTO) pra falar mal de 1982 …

  36. Vitor VEC diz:

    rá, do q eu sei, o paulo seben é um grande professor. e isso já é favoravel o suficiente pra ele.
    ademais, PIÇA PRO FERRAN SORIANO. é como se o CONSTANTINO JUNIOR fosse o vice de futebol do Corinthians.
    mas se isso ocoresse aqui, todo mundo meteria pau no cara….. como foi no barcelona, escreve livro e ganha elogios….. enfim….
    no mais, boa a nua la no sulsete horas atras; e agradeço todos os cumprimentos pelos 32 anos deste 29/12.
    gracinhas.
    saúdos.

  37. Paulo Seben diz:

    Obrigado, Vitor!
    E, “jo”, eu fui goleiro, lateral direito e esquerdo, beque central e quarto-zagueiro.
    Tive a glória de transformar um ponteiro-esquerdo carioca em meia-esquerda, em meus tempos de lateral direito (ele cansou de sair deslizando pela linha de fundo enquanto a bola ia para a linha de lado).
    E, mesmo que fosse guri de apartamento, teria toda a autoridade pra te contradizer, já que tu sequer sabes por que aquele Flamengo (fora a ladroagem usual pró-Flamengo) ganhava partidas: um esquema tático então inovador, muito bem montado pelo Cláudio Coutinho (e seguido
    à risca pelos disciplinados jogadores, escolhidos a dedo para as funções que deveriam exercer), jogadas ensaiadas, treino, treino, treino. E PASSE.
    O passe no pé sempre foi, desde que eu me conheço por gente, a única qualidade que eu admiro no Flamengo.

  38. Paulo Seben diz:

    E o Carpegiani APENAS levou o PARAGUAI a uma semifinal de Copa do Mundo.

  39. Paulo Seben diz:

    E acabo de ler o seguinte no blog do Juca Kfouri (que, equivocadamente, adora a seleção de 82 e o Flamengo de Zico):

    O Flamengo de Zico, em 1981, fruto da concepção modernizadora de Cláudio Coutinho, era mais parecido com a seleção de Telê Santana, no ano seguinte, mas nada que se parecesse com o que os holandeses de Rinus Michels ensinaram em 1974, na luta incessante pela posse de bola aliada a uma porção de jogadores não só talentosos como inteligentes, comandados pelo brilhante Johan Cruijjf, que jogavam e não deixavam jogar, sem posições fixas, e na qual todos faziam de tudo.

  40. Anônimo diz:

    dae, to com o pau roxo de duro, abraço

  41. Neves diz:

    Quando eu vi que a primeira palavra do texto era punheta, sabia que o texto era do Thalles.

  42. Ike Ramirez diz:

    punhetemos, punhetemos e punhetemos nossas vidas!!!!!

  43. Daniel Chaves diz:

    Texto delírio. Só concordo em 100% no mais eras isso.

  44. beretta diz:

    Adels!

  45. arbo diz:

    Duas coisas:
    Paulo, o Paraguay jamais chegou a uma semi de Copa; o máximo a que chegou foi a quartas e em 2010, sem o Carpeggiani.
    Vec, saludos!!!

  46. Jorge da Capadócia diz:

    O texto é realmente muito bem escrito, mas ouso discordar. Para mim a punheta é, na real, o maior mal do futebol atual. Vou tentar explicar. Punheta é que nem treino, serve para conhecer e desenvolver a técnica e pronto. O que adianta ser craque de treino? Quantos já não arrebentaram no treino, voltaram para casa, colocaram a cabeça no travesseiro, imaginaram o estádio lotado, ee arrebentando, gol de placa, fotos, sucesso e e na hora do vamove, o cara some, não consegue nem dar um passe de 1 metro. Sei lá, acho que criar muitas fantasias na cabeça tem o lado perverso de na hora do vamove o rapaz se atrapalhar, não saber nem onde colocar a mão, onde colocar o resto. Ficar preso na imaginação pode deixar passar oportunidades que a vida eventualmente te dá. Afinal, na imaginação nos concentramos, por óbvio, somente nas gostosinhas. Se você ficar preso nisso pode deixar escapar aquela nem tão bela, mas que no campo atua com graça e desenvoltura. No futebol de Tiago Leifert e região vejo da mesma forma, é tanta ladinha, é tanto videogame (desculpem, ps3 e xbox), é tanto “futebol bonito”, cabelinho, que neguinho quando chega na hora do vamove com sua chuteira laranja radiante e não sabe se pedala, se toca de lado, se vai pra frente ou para trás. A imaginação é importante e fundamental, concordo, mas o que me parece é que o futebol hoje está preso nessa imaginação que há muito não se concretiza. E viver na punheta é foda.

  47. Júnior diz:

    GENIAL! hahahhaha

    Um dos melhores textos (de todos os tipos) que li na vida.

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