Em setembro de 2007 empreendi com as sobras de uma troca de automóvel minha primeira viagem internacional. Trinta e seis anos na lata e sem jamais ter tocado os pés fora do Brasil. Obviamente a viagem era pra conhecer Buenos Aires, a nova meca do turismo pobretão. Fomos eu e a mulher, nos instalamos em uma suíte, nós conseguimos uma, em um albergue (hostel pra classe média) em Palermo. Não preciso dizer que na verdade visitamos Palermo e não Buenos Aires. Quem conhece o bairro não quer sair de lá.
Antes de minha viagem simpatizava, mais pela cor da camisa do que qualquer outra coisa, com o Independiente. Saindo do aeroporto, bagagem, uma única mala na verdade, a Betine, minha mulher, necessitava urgentemente fumar. Eu não fumo mas já estou acostumado com o desespero tabagístico alheio. Cigarro na mão, um taxista a interpela e ela aponta o cigarro. Nessa hora aparece um sujeito de uns 50 anos, cabelo comprido e crespo, típico, e nos diz que no táxi dele pode fumar. Era um remisero, claro. Nos acomodamos no banco traseiro de seu Renault amassado e no caminho ele falava sem parar, e quase sem entender o que dizíamos, mais típico ainda de argentino.
La AFA, diz ele. Aqui entrena la nacional. Sim, eu sei. Ele fala do Independiente. Safadamente, e para provocar a Betine, gremista, lembro de Burruchaga. Aí é um abraço. O remisero tira de um local incerto e obscuro um jornal esportivo qualquer com uma foto enorme e colorida na capa. Era Messi chegando na cidade e logo atrás, ele, Carlito, o próprio. Messi, amigo de Carlito (ironia total), completa ele. Nos conta, e cegamente acreditamos, que quando Messi chega a Buenos Aires quem o busca no aeroporto é só ele, Carlito. Que além de tudo é amigo de Maradona. Sorrimos. Betine abre a janela para jogar as cinzas de seu Marlboro vermelho. A essa altura, meia hora na Argentina, a viagem já estava paga.
Carlito nos perguntou se gostávamos de tango. Nos entreolhamos. Não respondemos. Na primeira noite na cidade bebemos na Plaza Cortázar e volatmso já altos para o hostel. Lá, todos já bêbados, inclusive os donos do lugar, se preparam para ir a um “bota fora” em um apê do bairro. Cada um leva sua bebida. Os outros pegaram a tradicional ceva litrão argentina, Qilmes, Schneider ou Brahma. Eu e a Betine levamos uma garrafa de gim e outra de tônica. Fomos lá, um dinamarquês, um guri com cara de tarado de Massachussets, um carioca, uma potiguar, duas colombianas de Barranquilla e um torcedor do San Lorenzo que estava dando em cima de uma das conterrâneas de Shakira. Fiz parceria com o argentino, que não lembro nome, e, entre um gim e uma cerveja, voltamos quase amanhecendo para o hostel cantando hinos de guerra dos cuervos, os quais gloriosamente não lembro nenhum. Nada melhor para se apaixonar por uma causa que a amizade boêmia. A garrafa de gim estava vazia. A de tônica, pela metade.
Foi então que me tornei um simpatizante do San Lorenzo, e do Rugby, que não parava de passar nas tevês dos bares por conta da copa do Mundo da França (quando Los Pumas chegaram nas semfinais pela primeira vez na história). Comprei camisas e lembrancinhas do San Lorenzo. Inclusive pro meu filho, Lorenzo, nome com a mesma grafia do clube. O San Lorenzo tinha recém ganho o clausura de 2007 e se classificado para disputar a Libertadores de 2008 no ano de seu centenário. Gastariam o que tinham e o que não tinham para montar um bom time. Entre os contratados estava D’Alessandro, que ajudaria a eliminar nos penaltis o seu time do coração, River Plate, nas oitavas, mas que depois seria eliminado, também nos penaltis, pela futura campeã, a LDU. O sonho de finalmente ganhar a Libertadores, e ainda no ano do centenário, se afundava tanto quanto se eterniza o deboche dos outros quatro grandes da Argentina sobre a sigla do clube: CASLA – Club Atletico Sin Libertadores de America.
Justiça seja feita aos cuervos, apelido que nasceu em função de o fundador ser um padre, de nome Lorenzo Massa, no bairro de Almagro, hoje Boedo, bairro criado por uma lei de 1968. Na história do futebol argentino são os donos da maior série de vitórias consecutivas, 13 jogos em 2001. O San Lorenzo é dono do maior público em um jogo entre clubes na Argentina, perdendo somente para a final da Copa de 1978 entre Argentina e Holanda, quando, após ser rebaixado em 1982, 74 mil torcedores lotaram o Monumental do River para assistir um jogo contra o Tigre. Em todos os campeonatos o San Lorenzo só teve menos público que Boca e River e é considerada a quarta maior torcida, perdendo por pouco para o Independiente. É a única equipe argentina a ser duas vezes campeã invicta e detentora da maior pontuação em torneios curtos e maior percentual, 89%, de aproveitamento em um campeonato nacional (1972). Hector Scotta em 1975 anotou 60 gols em uma única temporada, sendo o maior goleador na história do futbol moderno (desde 1947) em um único ano.
Mas o que move a história do San Lorenzo, e a de seus torcedores, entre os quais se encontra o mais famoso deles, o ator de Hollywood, Viggo Mortensen, que possui a partir de julho de 2011 uma coluna no site do clube, assim como a da maioria dos clubes argentinos, é a ligação com suas origens e seu bairro. Na época da ditadura, pressionado por dívidas, o clube não conseguiu contornar disputas políticas que levaram à venda do Gasometro, primeiro estádio com iluminação, capacidade para mais de 70 mil torcedores e casa da seleção argentina, para que a prefeitura abrisse novas ruas na cidade. Pouco tempo depois, contrariando suas próprias leis, a prefeitura vendeu o terreno para o funcionamento de um supermercado Carrefour.
Desde 2007, sócios vêm se mobilizando para comprar terrenos e áreas no entorno do antigo estádio e organizando passeatas pelas ruas portenhas até a frente da embaixada francesa para forçar a mesma a tomar alguma posição quanto à situação. No último dia 16 de dezembro, cerca de 7 mil torcedores marcharam sobre Buenos Aires. Prometem reunir 100 mil pessoas em uma caminhada em 8 de março, véspera do aniversário do clube, para enfim fazer com que o clube retorne aos seus anos de glória, entre eles os últimos no antigo estádio, quando venceu 4 campeonatos entre 1968 e 1974, reerguendo o orgulho de uma torcida que hoje se vê às vésperas de ser rebaixada novamente, depois de duas péssimas temporadas e a campanha medíocre que o time fez no Apertura recém encerrado. Como canta o próprio hino cuervo, “el cielo de Boedo surgió, el coraje indomable del gaucho, fiel signo de raza y de valor”.
Enquanto isso, resta o tango, De Carlito, o remisero, dos argentinos e, em especial, da sofrida e fiel hinchada de Boedo:
vientos de tristeza soplan por almagro,
el progreso a veces nos hace llorar
hoy es San Lorenzo que entrega la historia,
su estadio y las glorias que supo ganar
el viejo gasometro se llamo a silencio,
vacio por dentro, sin grito de gol
domingos soleados, te acordas hermano?
ravioles temprano que hoy juega el ciclon
mareas humanas que por todos lados con paso apurado
buscaba el tablon despues la alegria de toda esa hinchada,
fiel y seguidora, como la de hoy
flamear de banderas y el tenso silencio
cuando se anunciaba nuestra alineacion
lo veo al tano grecco, saliendo del tunel ,
con la azulgrana metida en la piel
la numero cinco de color naranja
detras la “garrogancia” de todo el plantel
noches de boxeo , deportes variados
y esos carnavales que nunca olvide
se abriran las calles, se haran muchas casas ,
el viejo gasometro les dio su lugar
pero de esa tierra de su misma entraña
LOS GAUCHOS DE BOEDO, NO SE IRAN JAMAS!
LOS GAUCHOS DE BOEDO, NO SE IRAN JAMAS!
Marcelo Benvenutti


Sensacional!!! Recentemente passei quatro meses em Buenos Aires, e vi por todo o bairro de Boedo outdoors e cartazes dessa campanha. Quando vi esse vídeo da marcha no OléTV, exigi do Douglas um texto sobre o assunto. Agora o San Lorenzo tá em ante-penúltimo no promedio, com dívidas e mais dívidas, crises irreparáveis e sem um futuro muito brilhante.
Parabéns pelo texto, e mal posso esperar pra ver o que vai acontecer dia 8 de março!]
Bom saber que mais um brasileiro foi a Buenos Aires – na onda do turismo pobretão – simpatizante de uma equipe argentina – no meu caso era o Boca – e saiu encantado com o San Lorenzo de Almagro, sua hinchada, seus cantitos contagiantes e a bela história de busca de retorno de identidade de uma das mais belas histórias do futebol mundial.
♪ Y te juro que no voy a parar hasta volver a Boedo ♫
dale impedimento!
pq não leio isso na grande mídia?
Tchê .. Que belo texto!! Essas são as verdeiras raízes e histórias que fazem nós os apaixonados por este esporte ficarmos a cada dia que passa mais loucos.
Na Argentina torço e admiro o Racing Club de Avellaneda, La acdemia. Mas tenho que admitir que essa batalha do San Lorenzo para voltar para seu bairro de origem(coisa que contam de mais para os clubes e hischas na Argentina) é muito bonita!
#5 o Racing tem na sua história algo muito semelhante. Depois que a justiça determinou a quebra do clube e colocou o estádio em leilão, os torcedores invadiram “El Cilindro” e conseguiram manter o estádio, assim como a sede social “Villa del Parque”.
Talvez vejamos uma repetição dessa história aqui no Brasil, em 10, 15 anos, se alguns clubes que estão mudarão radicalmente de bairro como o Corinthians, Grêmio e Naútico não conseguirem grandes conquistas nas suas novas arenas. Então, certamente virá uma onda de nostalgia dos estádios antigos.
Essa palavra, “arena”, agora comumente usada para designar os novos estádios é curiosa. Possui origem latina (quem não lembra das arenas romanas) mas é usada aqui no Brasil porque os americanos a adotaram para suas novas praças esportivas, como a Pepsi Arena, ginásio do Denver Nuggets. E isso se espalhou pelo mundo, basta recordar que o estádio de Munique, construído para a Copa de 2006, chama-se Allianz Arena. É um caso raro de palavra de origem latina, mas que é na verdade, adotada por um anglicismo.
Belo texto e bela história.. os argentinos nos dão uma aula de paixão e de respeito por sua história
clap clap
É isso que faz um clube ser grande ou não: hinchada.
Talvez seja por isso que o Carlos Bianchi tenha dito certa vez que os títulos mais importantes que ele conquistou na carreira (como treinador) foram os de 1994 no Vélez, e olha que ele ganhou muitos outros no Boca. Tudo bem que ele foi um dos maiores que passaram por Liniers e possa ter a maior consideração pelo Vélez, mas daí pode-se induzir que mesmo conquistando títulos (e eles tem sido frequentes ultimamente) El Fortín será sempre o exemplar que melhor caracteriza ”os clubes de barrio” e que ”no tienen gente” e por isso não é considerado um dos grandes na Argentina.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=eyZQi28EXL0]
Racing, San Lorenzo…
Esse pessoal aí tem que ver urgente uma mão de santo afastar o encosto.
Trocar Independiente pelo San Lorenzo é foda
Me lembro de todo o hype em torno da ISL em 2001, os jornais daqui se devaneando em torno da parceria com o Grêmio, etc., etc.
Em Boedo, a mobilização dessa torcida impediu que os ARRIVISTAS chancelados pela máfia franco-suíça tomassem o clube.
O San Lorenzo pode ser caçoado pelos rivais por nunca ter ganho a Libertadores – é algo pior do que ocorre com os gambás, acreditem -, mas em termos de torcida não fica nada a dever a ninguém.
O Boca pode ter ganho tudo e mais um pouco, mas é um clube dominado por uma elite corrupta e asquerosa como só a Argentina sabe produzir. O River… Bem, sua torcida acredita nas impudicícias do editor do Olé, que sempre apoiou Aguilar até que a barca deste começou a afundar.
Valeu aí.
Troquei sim INDECENTEMENTE o Independiente pelo San Lorenzo.
Sou uma puta da noite.
Quem beija melhor, me leva.
Morri de rir com esta parte:
“… duas colombianas de Barranquilla e um torcedor do San Lorenzo que estava dando em cima de uma das conterrâneas de Shakira. Fiz parceria com o argentino…”
Pô, o cidadão viaja com a MULHER e parece que chegou nas colombianas de mano com o cuervo…
Boedo fica ao sul de Almagro. Dissidência?!
Re 7
O Grêmio já mudou de endereço uma vez. Saiu do Moinhos de Vento -onde esteve por 50 anos- para a Azenha (ou seria Medianeira?!). Passados outros cinqüenta, muda-se outra vez. É praticamente uma tradição!
Re 7 (2)
Outra bem famosa é o “deletar”. Vem do latim, “delere”, apagar.
Em português, existe o verbo “delir”, nesse sentido, que caiu em desuso. Voltou na forma anglicanizada.
P.S.: Claro que, com essa (que tirei do prof. Pasquale) encerro minha participação!
#16
Ao que tudo indica, sim. Boedo era parte de Almagro. Depois emancipou.
Quem me poe uma foto dessas na wikipedia?
http://pt.wikipedia.org/wiki/Taison_Barcellos_Freda
Do caralho, Benvenutti. Simpatizo muito com o SANLO (ns) também. Certamente mais do que com qualquer outro grande.
Em janeiro, minha pesquisa comprovou que a grande maioria dos taxistas torcem para o CICLÓN. Boca, River e Independiente vinham bem atrás.
Fala galera,
voltando ao fuso…
com o fim do Mundial de Clubes, período de seca
quem quiser conferir os posts do Japão é só acessar http://futeboldecampo.net
A torcida do San Lorenzo ganhou minha eterna gratidão quando se manifestou na pessoa de um POLICIAL de BAs que não deixou de tirar sarro da minha camisa do Flamengo quando eu o interpelei numa calçada sobre como chegar na Livraria Ateneo.
Explicação do sarro: http://www.futebolnews.com/home/especiais_2001_copa_mercosul.asp
#22
em novembro a minha pesquisa de taxistas deu Racing, disparado! todos velhos… saudosistas.
#22 e #25 – Na minha deu River…
grande texto. Benvenutti na sua maior forma.
Como hincha de San Lorenzo (o Cuervo) me alegra mucho leerlos… Fuerte abrazo a todas y todos…. Volveremos al lugar que nos quitaron…. Nos os esperamos de volta…
que baita texto Benvenutti. muito show
prá quem gosta da NFL (não é meu caso),,, mas lance bem impressionante…
Pô, eu vi esse lance… foda!
Os maiores estrangeiros que jogaram no Botafogo foram ídolos no ciclón: Basso, El Lobo e El Loco. Teve o Pipa Estevez também, que fez o gol de empate desse jogo que o Godo postou ali.
[chato mode on] O Casla eliminou o River pelo gol qualificado em 2008. 0a0 na ida e 2a2 na volta, perdiam por 2a0 e arrancaram o empate. Saquem só que foda o vídeo desse jogo:
ah não, cassete… foi 2a1 na ida pros cuervos. E tavam com 2 a menos.
bah demais isso!!!
faltou dizer quanto saiu a corrida com o Remis. mas esse certamente foi um detalhe para olvidar eternamente
#31
Não é atoa que são chamados de “Gallinas”
Pô, Sancho, as colombianas viraram nossa parcerias.
Tinha que ver elas se irritando com a pronúncia portenha de Barranquilla.
Elas passavam o tempo todo corrigindo: Não é “barranquitcha”, é “barranquilha”.
Mas vai explicar isso pra um portenho.
E, Walter, em 2007 a corrida do aeroporto até Palelrmo foi 65 pesos.
Nós pesquisamos antes pra não sermos enrolados e negociamnos com o Carlito.
Faltou a explicação do porquê de “gauchos de boedo”, mas consta
que em décadas antigas muitos jogadores que faziam sucesso no
San Lorenzo eram de Santa Fé, daí nascendo a fama do time que jogava
com muitos gauchos, nossos QUASE vizinhos santafesinos.
Estive recentemente em Buenos Aires – pobre que é pobre finalmente viaja só quando o câmbio deixa de ser favorável.
Passeando por San Telmo, entrei numa espécie de mercado público do bairro. Boa comida e lojinhas interessantes, inclusive uma com uma arara cheia de camisas de futebol usadas bem baratas.
Bom, eu dei boas risadas com uma loja só de coisas do San Lorenzo. Entre ampla corneta a todos os rivais em cartazes espalhados na parede – é preciso ter talento para isso quando tu nunca ganhou uma Libertadores em Buenos Aires, imagino – estava um cartaz da direção:
“Prohibido hablar de futbol con Gustavo”.
Pena que a loja estava fechada. Esse deve ser um torcedor do cuevo interessante para se bater um papo ,hahaha.
“Fui a comprar dos botellas de vino tinto y después una caja de alfajores de un kioskito argentino cerca de la Puerta del Sol. No recuerdo si había partido del Real Madrid ese día — creo que no — pero unos hinchas merengues tipo “skin-head” me empezaron a gritar insultos cuando yo iba por la calle buscando un taxi para ir a la casa de Tano. “Culé de mierda, vuelve a tu puto país, catalán asqueroso” y cosas por el estilo. Obviamente pensaban que yo iba con remera del Barça. Paré un segundo y dije “Esto es San Lorenzo, pelotudo. No es Barcelona. A mí me gusta el Madrid”. Ni caso. “Sudaca de mierda” (por mi acento) y no sé que más, y empezaron a patearme. Yo me defendí con la bolsa de botellas de vino. Le rompí una botella en la cabeza a uno, y los otros se quedaron mudos un segundito. Me fui corriendo y por suerte agarré un taxi antes de que me pudieran alcanzar los nazis esos. Por suerte la otra botella estaba intacta.”
Oscar DA VIDA prá esse Viggo Mortensen.