Onde a dor não tem razão

Em sua primeira viagem à África e à Europa, no final da década de 50 do século passado, o geógrafo Milton Santos escreveu uma série de artigos para o jornal A Tarde. Nestes escritos, reunidos posteriormente no livro Marianne em Preto e Branco, jaziam as impressões do jovem intelectual sobre os lugares visitados com pérolas como esta aqui, ó. “O viajante deve apenas sentir a cidade a palpitar em seus aspectos humanos e geográficos. Nada pode falar. Apenas tem que saber ouvir os sons dos nativos para que possa absorver melhor sua cultura.”

Que beleza, certo? Errado, pois Milton Santos jamais diria tais bobagens. Coloquei o geográfo na ciranda apenas porque fazia-se mister manter-me coerente à falsa erudição e também porque, passados exatos oito dias, tornou-se impossível dizer qualquer coisa sobre a ImpedCopa depois dos textos de Ceconello e Kadj Oman. Aliás, se Pindorama fosse um país com um mínimo pudor, hombridade e apreço à justiça, haveria uma lei proibindo expressamente que alguém falasse sobre futebol após as referidas prosopopeias destes fariseus.

E como sou um homem cumpridor das legislações (mentira!), abondono o Ludopédio e continuo na (mal) dita seara cultural. Seguinte. Está em cartaz, nas melhores casas do ramo, Um Conto Chinês – mais um bom filme argentino protagonizado por Ricardo Darin.

Resumindo, para não alongar esta prosa ruim, destaco que na referida película há o encontro (na ampla acepção da palavra) entre um cinquentão argentino, bruto, sistemático e rabugento e um jovem chinês que num habla porra de nada em espanhol.

A partir de uma sequência de desacertos, eles passam a conviver durante uns longos dias debaixo do mesmo zinco. Como conseguem isto diante de tantos obstáculos e divergências? Direi depois.

Agora, jogo a claquete para o lado, e ressalto apenas que o gaúcho é um povo, como direi?, muito mais esquisito do que o argentino e o chinês juntos.

Para que vocês tenham uma idéia, eis dois rápidos exemplos. Eles picham viadutos dando vivas à “heroica resistência iraquina”, seja lá que diabos isto signifique. Ou ainda pior. Nos banheiros feminos dos bares, há avisos: “Só para mulheres”. Eu, hein, santa.

Então, o impaciente leitor, há de perguntar: Por que zorra, então, vossência percorreu mais de três mil quilômetros para ir lá jogar bola? Eu poderia furtar Kadj Oman e dizer que vivo “a mendigar uns tragos do futebol autêntico” ou algo do tipo.

Mas a verdade é que não é somente isso. Assim como os amigos do filme argentino, que, sem saber, estão unidos pela tragédia e por um inexplicável sentido de solidariedade, desde sempre senti-me acolhido (sem viadagem, por favor) por esta inebriante família que escolhi depois de velho.

E se o leitor continua a perguntar os porquês, saco do coldre a sábia sentença de Louis Armstrong quando questionado sobre a graça do Jazz: ”Man, if you gotta ask, you’ll never know” – o que numa tradução lambuzada de dendê seria algo assim. “Ô, herege, se você tem que perguntar sobre a ImpedCopa e futebol como sinônimo de amizades é porque nunca vai saber.”

Lá, no memorável torneio, assim como no filme argentino e na música de Paulinho da Viola, a dor nunca tem razão.

P.S Para entender um pouco mais sobre o tema, veja isto aqui, ó.

Franciel Cruz

Publicado em ImpedCopa. ligação permanente.

10 Respostas a Onde a dor não tem razão

  1. Volkart diz:

    Grande sujeito esse baiano. 200 pessoas em uma impedcopa e, reforçando o texto, NINGUÉM PRECISOU PERGUNTAR NADA.

  2. beretta diz:

    :~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

  3. Vinícius Hilbert diz:

    DIMOIS

    gracías díos por el fútbol!

  4. douglasceconello diz:

    Que massa, Seu Franciel. Como disse bem o Volkart, na ImpedCopa ninguém precisa perguntar, isso está tatuado na ALMA.

  5. Vitor VEC diz:

    Pos eu, só de sacanagem, tive que fazer uma pergunta pro Frãssuel, qual seja:
    “Vem cá, e o BITÓRIA, hein?”
    Merda, ERREI O CONTEXTO.

  6. Cassol diz:

    Franciel é galo cinza.

  7. thalles diz:

    mas, afinal, de quem é porra da pérola?

  8. thalles diz:

    porque esse negócio de “sentir a cidade a palpitar” é, no mínimo, meio ambiguo…

  9. arbo diz:

    achei que era tua, thalles [gratuita] fakjsdgkjg

    volte sempre, frança. um dia irei à bahia, tua casa. hein?

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