A Invasão Corinthiana

Carlos não via maneira de sair da situação desesperadora em que se encontrava. Ele, a mulher prestes a dar à luz e o Fusca verde eram uma ilha rodeada de corinthianos por todos os lados. O sol daquele domingo, 5 de dezembro de 1976, mal havia saído, mas os milhares de fanáticos que já estavam nos arredores do Maracanã celebravam um carnaval fora de época.

Cada minuto presos no meio da multidão pareciam uma eternidade para Maria de Lourdes, mãe de primeira viagem.

– Carlos, o que a gente vai fazer? O que nós dois vamos fazer se o bebê nascer dentro do carro?

– Calma, Lourdes, vai dar tudo certo. A gente vai conseguir, vai dar tempo, não é rápido assim – repetia o marido sem parar, como se tentasse convencer mais a si próprio do que a esposa.

A essa altura, ele tinha certeza que não, não daria tempo. Seu filho nasceria dentro do veículo. De tanta gente, não conseguia enxergar nada ao redor. Já não sabia onde estava, qual era a próxima travessa, a quantos metros estavam dela. Não podia ver nem mesmo uma plaquinha indicativa de rua.

Carlos tentava avançar pouco a pouco. Bem devagar, pisava no acelerador, movendo o Fusca, empurrando de leve as pessoas com a lataria do veículo. Para alguns, conseguia explicar a situação:

– Me libera aí, por favor. Preciso chegar ao hospital.

Um avisava o outro, a passagem ia se abrindo, mas o telefone sem fio não durava muito. O vazio era logo preenchido. Os que sofriam o leve toque se enfezavam. Olhavam feio, xingavam.

– Para, Carlos! Eles vão bater em você!

À angústia com a possibilidade de ter o filho no banco de um Fusca juntava-se o pavor de ver o marido apanhar feio.

– Vai dar certo – respondeu ele.

Mas não deu. Chegou um momento em que o número de corinthianos por metro quadrado era tão alto que os empurrõezinhos nos torcedores à frente não eram mais eficazes. Tampouco adiantava buzinar ou tentar argumentar. O barulho era tamanho que ninguém conseguia ouvi-lo direito.

“Putz! Como vou sair daqui?”, pensava. De vez em quando, descia do carro e ficava na ponta dos pés para tentar enxergar algo, algum ponto de referência, o que quer que fosse. Mas de nada valia.

Após várias tentativas, Carlos decidiu sair do veículo novamente, mas dessa vez para explicar exatamente para aquele povo o que estava acontecendo. Sua mulher estava grávida, dando à luz, e precisavam urgentemente chegar ao hospital. Quem sabe não o ouviriam e, solidários, abririam caminho pouco a pouco?

Uma vez mais, ninguém o escutou. Qualquer comunicação era tarefa das mais ingratas. Entre copos de cerveja e cachaça, estouros de rojões, batuques, tremular de bandeiras, gritos de incentivo e cantos de loas ao Timão, os torcedores abordados por Carlos viram o Fusca com placa de São Paulo, notaram Maria de Lourdes e sua barriga proeminente em seu interior e logo concluíram: Carlos era um corinthiano tão fanático que trouxera até a mulher com nove meses de gestação para ver o jogo!

Virou herói. Não demorou, puseram um copo de cerveja em sua mão, pegaram-no no colo e o foram levando para longe do carro. Era preciso festejar tamanha proeza: Carlos representava o verdadeiro espírito da Fiel.

– Não, não! Preciso voltar! – dizia o torcedor… do Guarani.

***

Será lançado na próxima segunda-feira (5), em São Paulo, o livro-reportagem  ”A Invasão Corinthiana”, que resgata um acontecimento singular da história do clube paulista. Os autores, torcedores do Corinthians, são os jornalistas Igor Ojeda, editor do jornal Brasil de Fato, e Tatiana Merlino, editora-adjunta da revista Caros Amigos.

A obra, cujo trecho foi publicado acima, remonta a um episódio único do futebol brasileiro e mundial: há exatos 35 anos, em 5 de dezembro de 1976, pelo menos 70 mil corintianos invadiram o Rio de Janeiro para apoiar o time na partida única da semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano contra o favoritíssimo Fluminense de Roberto Rivellino, equipe conhecida na época como “Máquina Tricolor”.

Das mais de 150 mil pessoas presentes no Maracanã, estima-se que aproximadamente a metade eram torcedores alvinegros, que se deslocaram de ônibus, trem, carro, avião, barco, bicicleta e até mesmo a pé para apoiar um Corinthians que amargava duas décadas de fila, mas cuja legião de seguidores não parava de crescer.

Os jornalistas realizaram uma profunda pesquisa e 30 entrevistas, com jogadores, jornalistas e torcedores que participaram daquele momento. “Os autores remontam os altos e baixos da trajetória corintiana para que tudo faça sentido ou para que nada faça sentido – seja apenas sentido”, escreve o jornalista Juca Kfouri na abertura do livro.

Ficha técnica:
Título: A Invasão Corinthiana
Autores: Igor Ojeda e Tatiana Merlino
Preço: R$ 49,00
Editora: LF Editorial

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45 Respostas a A Invasão Corinthiana

  1. gilson diz:

    Vai Corínthians!!!

  2. Frank diz:

    O Corinthians daquela época parecia ser um clube que dava gosto de torcer…
    O de hoje, depois que virou lavanderia da MSI, só dá vontade de torcer contra…

  3. Roger diz:

    #2
    Pois é Frank, parece que as diretorias dos ultimos tempos, se especializaram em angariar antipatizantes. Eu tbem seco o curintia e essa máfia que tem as redeas do clube na mão.
    Mas, sejamos justos, que fodástica uma torcida que coloca 70 mil como visitante.
    Sempre achei essa, uma das mais fascinantes passagens do futebol brasileiro. Merece essa homenagem.

  4. Ze Carlos diz:

    Ninguém comentou sobre a suspensão do Bolívar ? Merecida diga-se de passagem… uma pergunta: O Inter vai fazer DVD do lance ?

  5. Anônimo diz:

    que fim da picada! até agora, nenhuma palavra aqui no blog sobre este absurdo que foi a punição pro Bolivar, mas pra fazer post sobre o time da QUADRILHA vcs têm tempo, né?

  6. gilson diz:

    #3, sei não, acho que o pessoal jogou todas as fichas na “maldição”. Em todo caso, vale torcer até pra Católica (pior nome EVER) pra não ver rival campeão.

  7. Gralha diz:

    muito legal, mas continuo sendo VASSSHHHHCÔÔÔ nessa reta final

  8. Carlos diz:

    Bolivar. Um sem vergonha q uma vez disse no radio que era q nem o papai….todo orgulhoso, declarou (eu ouvi, ninguém me contou): “eu sou q nem o pai…opero sem anestesia”.

    Bem feito pra esse pau no cu q só dá pau. Um dia iam pegar esse cara.

  9. Guto diz:

    Absurdo a punição do Bolívar? Esse carniceiro! FOI POUCA A PUNIÇÃO!

    Zagueiro cagalhão que vive batendo em jogador jovem pra “intimidar”. Só pra ficar nesse ano, esqueceram do chute no Leandro seguido de tapa na cara quando o guri estava no chão?

    Queria ver se fosse o Adilson que quebrasse o Damião do jeito que o Bolívar fez com o piá do Bahia, o que a RBS e os colorados estariam falando.

  10. Guto diz:

    BTW, bela história. É um negócio épico mesmo botar 70 mil visitantes.

    Mas, passou, né? De time do povo, virou um time da máfia.

  11. Frank diz:

    Estilo código de Hamurábi essa punição ao Bolívar… mas acho que foi um baita reforço do Inter para o Grenal e para o 1º semestre de 2012…

  12. Volkart diz:

    Não curti o post. Menos pelo contexto histórico e mais pelo já relatado nos comments. Hoje em dia o Corinthians é reflexo do PIOR que a sociedade brasileira possui, em suas diversas instâncias. Pensei em dizer um “tomara que caia em 2012″, mas a verdade é que a espanholização do futebol brasileiro parece não ter mais volta…

  13. Ladislau diz:

    Punição do Bolívar foi justa, agora é ver se vão manter a jurisprudência pros times de Rio e SP…ver navios, provavelmente…

    E o que tem de jogador gremista que já passou incólume por punições assim…todo time já teve seus “bandidões”

  14. Cassol diz:

    #12

    Assim parece que a história da invasão corintiana não aconteceu.

  15. Volkart diz:

    Punição do Bolívar foi boa pro Inter, honestamente. Mas em termos de jurisprudência, é um absurdo sem limites. Quando o que vale pra um não vale pra outros, o conceito de justiça é jogado no lixo.

  16. Volkart diz:

    #14 Bah, então me expressei muito mal. Falei que não curti pelo que o Corinthians representa hoje no futebol. Sobre a invasão, ela é notória e tem um contexto histórico muito interessante… assim como é verdade que nesses movimentos (também aconteceu uma invasão no RS) a torcida corintiana barbarizava pelos locais onde iam passando.

  17. Ferreira diz:

    #13 Duvido muito que isso se repita com os times do eixo.

    O Emersom Xeique-Xeique-Xeique pisou no pescoço do Daniel, lateral do Avaí, e nada aconteceu. Levou amarelo no jogo e um adiamento do seu julgamento.

    Ronaldinho, o R5, troca alguns sopapos com Heleno, do Ceará. Ambos são expulsos e no julgamento, o Mão Santa leva um jogo de suspensão, enquanto o jogador cearense leva dois.

    Não quero estar vendo coisas…

  18. Roger diz:

    A punição ao Bolivar terá sido justa se passar a valer o mesmo para todos. O que eu duvido muito que aconteça.

  19. Ernesto diz:

    O engraçado é ver os arautos da honestidade e do fair play condenar o bolívar aqui, mas elogiar e aplaudir o “afudê” futebol uruguaio e argentino. Os mesmos que tem até hoje o Dinho como ídolo eterno.

    No mais, graças a deus foi punido. Um reforço importante pro clássico.

    Pena que, juntamente com a incoerência tricolor exista a incongruência na decisão. O arbitro, a 4 metros do lance, só dá amarelo, não marca dois penaltis claros, e continua apitando impunemente.

  20. Roger diz:

    #19
    Algum jogador teve que ficar 4 meses sem poder jogar por causa de uma entrada violenta do Dinho?
    È sério, não sei mesmo…

  21. Luiz H. diz:

    “O dia 19 de julho de 1987, marcou a carreira do zagueiro com um grande drama, talvez o maior de toda a sua história como atleta. Num Grenal, final do Campeonato Gaúcho daquele ano,[2] o atacante Fernando do Grêmio, numa dividida, entrou com o pé no joelho de Pinga rompendo todos os seus ligamentos. Aos 22 anos de idade, Pinga se viu a ponto de ser obrigado a encerrar a carreira assim como todos os médicos sinalizavam-o.”

  22. Flávio diz:

    #20
    Negrete, meia-esquerda do Bragantino, que Dinho quase aleijou no Brasileirão de 1995. O curioso é que no ano seguinte ele foi contratado pelo Grêmio.

  23. TMarcon diz:

    Figueroa costumava usar muito o cotovelo também, para intimidar..Mas ficaram as lembranças dos títulos e atuações memoráveis. Não estou comparando os dois, mas o general, no auge em 2006, tb sabia bater com discrição..Agora parece que desaprendeu a jogar e a bater.

  24. Jabba diz:

    Sou gremista, mas acho absurda esta decisão sobre o Bolívar, não é possível condicionar a punição a lesão, pois as vezes um lance simples pode gerar uma lesão grave (ou o jogador já tem um problema e agrava) e outras vezes em um lance de muita violência por sorte não acontece nada.
    A punição tem que ser determinada pela agressão cometida, pela intenção ou não de agredir ou fazer uma falta violenta (as vezes é difícil de determinar) e pelo histórico do jogador.
    Isso sem falar na falta de critérios destes tribunais, vide o exemplo do beiçudo e do cara do Ceará.

  25. LF diz:

    concordo especialmente quando fala da intenção.

    intenção de agredir vale uma punição conforme o tempo de lesão – mas lesões como essa podem acontecer em divididas comuns, sem qualquer intenção. O caso do Bolívar, por exemplo, foi um caso terrível de imprudência, mas não uma agressão deliberada. Logo, acho a punição injusta.

  26. arbo diz:

    antes de ler o post, devo confessar q me surpreendi com o pessoal achando exagero a punição pro bolívar. jogador profissional sabe q não se vai daquele jeito na bola, sabe exatamente o q pode acontecer. não tão jogando de pé no chão. se acham q falta ISONOMIA, reclamem do lado da impunidade não da punição correta.

  27. francisco diz:

    Tentaram fazer isso, também, em Porto Alegre. Não levaram, é claro, e ainda tomaram dois a zero. Inter, bi campeão brasileiro, 1976.

  28. arbo diz:

    acontece que a “imprudência” não pode ser levado como “azar o dele”. é claro q acho q deve ser relativizado: “qto tempo o cara vai ficar parado?” 6 meses? acho cabível pra uma entrada daquelas, tendo provocado o q provocou.

  29. arbo diz:

    “levadA”

  30. arbo diz:

    qto ao post, é realmente uma história q deve ser contada. milhares de ângulos, deve ser legal o livro.

  31. arbo diz:

    MAS bom mesmo será o livro q um dia douglas fará sobre a OCUPAÇÃO DO EUCALIPTOS.

  32. rafael corinthiano diz:

    Bonito é ver o Maracanã lotado, como esse estádio era bonito!

  33. rafael corinthiano diz:

    a punição do Bolivar é descabida porque foi tomada pelo motivo errado, pelo resultado e não pela ação.

  34. Eduardo diz:

    quem reclama da punição do Bolivar não leu/ouviu ainda sobre a dos recrutas de 18 anos em Dom Pedrito, que fizeram uma brincadeira de mau gosto, mas sem machucar ninguém, e agora poder virar mulherzinha na prisão….

    ps. injustiça falar do Dinho… ele não era DESLEAL, apenas batia firme. não acho que o Bolivar o seja, mas foi imprudente… porém também considero exagero… vão recorrer e tudo ficará bem…

  35. FC diz:

    70 mil como visitantes… ESSA É A MAIOR VERGONHA DA HISTÓRIA DO FLUMINENSE. Esqueçam os 2 rebaixamentos e o retorno no tapetão… time grande NUNCA PASSARIA POR ISSO !!! Humilhante…

    SCCP: time do povo e do sofrimento é a maior balela.
    O time do povo vendeu a alma !!!
    Agora o time do povo, suga dinheiro do povo. É o time que com a complacência da mídia esportiva vendida ao usurpar o dinheiro do povo e super-hiper-faturar um estádio no meio do nada !!
    Time do sofrimento? É time aquele que tem os juízes como aliados. É o time do sofrimento seletivo.

    O SCCP hoje é o time do populismo barato.

    Agora com Andres e Ronaldo na CBF… depois de um estádio e melhores patrocínios e próxima conquista é a Libertadores…. podem escrever.

    Abraço,
    FC

  36. matheus diz:

    NEM LI NEM LI

    INTER CAMPEÃO, não quero nem saber

    askdjakdjaksdjka (aqui não tem refresco!!!!!!!!!!)

  37. Gabriel R. diz:

    Hehe, é bonito ver a gremistagi cheia da dor de cotovelo por causa do bolivar, deve ser as duas libertadores que ele levou.

    Sobre o lance, acho meio palhaço esse cara do STJD!! O juizao que fez merda o jogo todo não tomou gancho nenhum!! Sobre a punição achei meio injusta, nunca vi essa punição ser dada a nenhum jogador, mas… que bom pro inter, vai ter meio ano pra formar uma zaga e liberar o bolivar!

  38. arbo diz:

    “é bonito ver a gremistagi cheia da dor de cotovelo por causa do bolivar, deve ser as duas libertadores que ele levou.”
    pro grêmio foi ruim essa punição (imagina, bolívar pelo ÍNDIO). o q eu tenho contra o bolívar é aquela entrada criminosa. sem essa de grenalzinho.

  39. Eu só vim aqui comentar que a maior invasão de uma torcida adversária foi a do Celtic em 2003 em Sevilla para a final da Copa da UEFA quando 114 mil escoceses invadiram a cidade para ver seu time perder por 3×2.
    Nem essa o Corinthians vence,
    Danem-se.

  40. Cícero diz:

    não gosto do Corinthians. Não gosto da entidade e não gosto de quem torce pró Corinthians.

  41. Cícero diz:

    #36

    é a prova que o Fluminense é o time mais simpático do RJ.

  42. Lucas diz:

    #41 Azar o seu

  43. Fernando diz:

    Lembrando que a Invasão começou com uma provocação/desafio de Francisco Horta, presidente do Flu na época, à torcida do Corinthians e Vicente Matheus, presidente do Corinthians.

    O resultado foi esse.

    Ou seja, foi uma TROLLADA EPIC FAIL…

  44. João Paulo diz:

    Só para esclarecer para a galera que comentou: não houve invasão.

    O Horta era próximo do Vicente Matheus desde a época da montagem da “Máquina Tricolor” (ele fez seguidas viagens a São Paulo para conseguir contratar o Rivellino). Também era marqueteiro e decidiu estimular a vinda da torcida do Corinthians (o acesso a uma carga grande de ingressos foi facilitado, era feriado nacional).

    Não houve nada de espetacular neste episódio. Em campo, apenas a chuva torrencial que transformou o jogo numa partida de pólo aquático e favoreceu o limitadíssimo time do Corinthians, depois devidamente derrotado pelo Inter na final – este sim o grande time da época, única equipe de fato superior ao Flu.

    Abraços.

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