Eu vi a Portuguesa gritar “é campeã”

Ao vivo, com 12 mil no Canindé, ainda sem a taça. Ainda sem a confirmação matemática, também: a Lusa teria que perder todos os jogos, a Ponte Preta vencer todos, meteoros caírem do céu, o núcleo da terra esfriar e o Rio Tietê ficar limpo. Porém, estava lá o que mais importava: a vibração dos atletas, a torcida ensandecida, a vitória no placar.

No Brasil, não temos muitos clubes de bairro jogando ‘ao grande’, como na Argentina, onde a maior expressão desse caso é o Vélez Sarsfield. Aqui temos clubes de massa, ou de nichos culturais, e mesmo assim não há uma iniciativa para preservar essa identidade tão fundamental ao futebol. Também por isso é importantíssimo saudar e comemorar o acesso da Portuguesa à Série A do Campeonato Brasileiro, não só jogando um futebol de primeira qualidade, como preservando sua identidade, vencendo com jogadores que respeitam a sua história, sem vender seu nome e seu brasão a grandes grupos econômicos.

Na última sexta-feira, houve a coroação não só de uma campanha irrepreensível, como de uma escolha certa. A Portuguesa é uma aposta ousada em uma comunidade, em uma tradição e em uma longa história de resistência. É essa resistência, a despeito dos Americanas, Boas, Duques e outras agremiações de prefeituras, que chega melhor à primeira divisão do ano que vem.

Speak to me

Saí rumo ao Canindé passada a hora do rush. Não esperava que fosse de qualquer sorte semelhante a um grande jogo no Morumbi, mas confiava no instinto, na estação “Portuguesa-Tietê” do mapa e na sabedoria da minha mãe: na dúvida, vai atrás de todo mundo.

Quando desci da estação, porém, o mundo convergia para a rodoviária, e uns poucos de branco e vermelho e verde se embrenhavam na escuridão de uma passarela que eu jamais vira. Com um pouco de atenção, vi os refletores e a negra estrutura se impondo sobre o tráfego intenso da Marginal Tietê: era para lá que deveria ir, de alguma forma. Segui os poucos, que se tornaram muitos ao lado do shopping que servia de estacionamento, mas nem tantos quanto os que, descobriria eu depois, partiam do outro lado, o lado do bairro.

Em 1985, meu pai visitou São Paulo pela primeira vez ,e foi numa partida Corinthians x Ponte Preta na qual a torcida da Ponte provocou uma grande quebradeira, que o impressionou. Sabia eu que o jogo era contra a Ponte, e minha preocupação era nula até perceber que todos os torcedores adversários passavam pelo portão que costeava a Marginal – justo por onde eu e os  que saíram do Metrô passariam. O medo inicial, porém, se dissipou em algumas dezenas de passos: a convivência era muito harmoniosa, e os poucos torcedores da Ponte que se perdiam estavam tão ressabiados como nós, do fluxo lusitano.

Quando entrei na estação Berrini coloquei para ouvir o Dark Side of the Moon, e tocavam as primeiras batidas do coração de Speak to Me; na travessia da Marginal, Waters já entoava o “all that you touch, all that you see” da última música do disco. É como o Eclipse da música a entrada do Canindé; as luzes da Marginal se dissipam em uma leve penumbra, logo iluminada pelos refletores, pelo simpático restaurante caldo verde e pelas luzes que partem de dentro da arquibancada.

Para ver a banda passar

Bonita e prosaica a festa que a Leões da Fabulosa fez na entrada do campo, mas não consegui prestar atenção: o único acesso possível naquele momento ficava exatamente ao lado da torcida, e centenas de pessoas se amontoavam tentando encontrar alguma forma de tentar encontrar lugar. O Canindé tem vários portões, não precisava deixar um só aberto, ainda mais no dia de um jogo tão importante. Porém, aparentemente a lotação era uma surpresa até para os funcionários do clube: “tá lotado hoje, hein? E olha ali, quanta gente tá chegando”, disse um auxiliar fiscalizando as catracas.

A moda lusitana, refletida nas camisetas “Barcelusa”, nos terceiros uniformes desenhados pela Cavalera e na tabela do campeonato, levaram uma quantidade imensa de jovens para o campo. Não era raro ver grupos de quatro, cinco adolescentes nos quais só um tinha a camisa da Portuguesa – e levou os amigos para um programa bacana num estádio de futebol. Passado o aperto inicial, e já iniciado o jogo, dava para ouvir em direção às cadeiras um “pá-pá-pá”: palmas compassadas em três, como na canção tradicional, ironizada pelo “Vira-Vira” dos Mamonas.

A justificativa: uma BANDA tradicional lusitana que, com gaitas e um bumbo, entoava um solo interminável de canção folclórica, como uma charanga de verdade. A charanga era seguida por vários torcedores, que ignoravam um pouco o jogo para bater palmas, dançar e tirar fotos. Em um desses momentos, Ananias fez o primeiro gol: no 1×0, a banda parou de tocar para comemorar com a torcida.

Bom futebol e dignidade

A atuação forte da Lusa empolgou a torcida, que jogou junto todo o primeiro tempo e ainda faria um segundo gol. No intervalo, não sabendo da fama gloriosa do bolinho de bacalhau, arrisquei um Pastel de Santa Clara – bom, nível estádio de futebol .

A proximidade do campo permite ver algumas coisas. Por exemplo, ainda que não seja o melhor jogador do time (gostei muito de Ananias e da dupla de zaga), Edno é um líder e uma referência moral da equipe, o que muitas vezes deu certo. O índice de velocidade do time deve ser acima do nível da Série B, os contra-ataques são rápidos e organizados, e o time de Jorginho não tem grandes invenções táticas mas é muito bem montado, especialmente nas bolas paradas. Os jogadores sabem onde está o companheiro sem precisar levantar a cabeça, o entrosamento é total.

Ainda que a equipe tenha amolecido um tanto na segunda etapa, permitindo a chegada do igualmente bom time da Ponte Preta, a torcida ficou um pouco mais do que apreensiva. Nesse momento de estranheza com o resultado do jogo, prestei muita atenção nas crianças lusitanas da partida: elas comemoravam o fato de estar ali, de poder gritar pelo seu time a todos pulmões em um jogo importante, tão importante que algumas mal se ouviam depois dos gritos. Na cabeça de uma criança, essa é uma imagem mental avassaladora, mesmo que não seja em um elefante branco gigante: a Lusa não apenas empolgará pelo seu futebol, mas por ser segura a ponto de levar meninos e imponente a ponto de transformar um jogo em grande programa.

Ao fim do jogo, o plantel poderia ter todo o cinismo do mundo, ignorar os gritos de ‘é campeã’ da torcida e voltar para o vestiário. Porém, o que houve foi volta olímpica, camiseta especial e jogador carregado nos ombros: era de fato um título, não apenas praticamente garantido, mas pelo acesso e suas implicações. A facilidade com a qual o plantel compreendeu para que a torcida está ali é um claro indício do quanto a “molecada” faz diferença, pela identificação construída com o clube e pelo protocolar.

Na penumbra da saída, milhares dos presentes no estádio ainda foram para um local próximo participar da festa da Leões da Fabulosa. Admiro, mas não fui: guardei a imagem do estádio lotado e incompreendido na retina, para poder dizer aos netos que estive no jogo em que a Portuguesa foi campeã. Ou melhor, que eu não conte para os netos e que o fato se torne corriqueiro, proporcional à grandeza do clube de bairro que jogará ao grande.

Leia também a entrevista com o ilustre torcedor Flavio Gomes.

Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos 

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14 Respostas a Eu vi a Portuguesa gritar “é campeã”

  1. J Petry diz:

    Legal a Lusa de volta. Agora alguém por favor tira o Americana do G-4!

  2. Eduardo diz:

    vamos a luta , ó campeões… o hino da portuguesa é algo….
    será bem vinda no lugar do Cruzeiro.. :)

  3. Chico Luz diz:

    massa o texto, LF. Te invejei, sempre tive simpatia pela Lusa, principalmente por 96, quando eles foram o Inter da vez.

    E o Edno é cria do Barcenoia, o ramal catalão no Vale.

    Ah, e tira o acento do Flavio, que senão ele não fala, hahaha.

  4. Gregório diz:

    LF, sobre o que tu falou dos times de bairro, realmente não é algo comum no Brasil. Certa vez assisti uma palestra do gerente de marketing do Coritiba e pesquisador da indústria do futebol, Oliver Seitz, em que ele comentou isso.
    Segundo ele, em países como Argentina, Inglaterra e Uruguai, os clubes normalmente tem uma ligação mais forte com a comunidade, sendo times de bairro ou de fábrica que creseceram com o tempo.
    Já aqui no Brasil essa cultura é muito mais fraca por causa da política de “onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional”, que imperava na época da ditadura. Ou seja, grande parte dos clubes do Brasil teria sido criado e/ou foi mantido em atividade muito mais por politicagem do que por qualquer outra coisa, como os exemplos que tu deu no texto de Americanas, Boas e Duques. Duas exceções a essa regra, segundo ele, seriam o Juventus-SP e, justamente, a Portuguesa.

  5. Gralha diz:

    Eu estive num jogo onde a Portuguesa ESTAVA SENDO campeã. Mas aí o Carlos Miguel alçou uma bola na área……..

  6. Sancho diz:

    Melhor texto do LF, lejos. Nos levaste junto contigo. Sensacional.

    P.S.: Acho que aqui seria “retina”, não?
    <blockquote cite="Admiro, mas não fui: guardei a imagem do estádio lotado e incompreendido na rotina, para poder dizer aos netos que estive no jogo em que a Portuguesa foi campeã.

    P.P.S.: Sobre os clubes de bairro, eles aos poucos foram morrendo. O último bastião, acho que era o Rio de Janeiro. É o mesmo fenômeno que assola o futebol do interior. Torcer é se identificar, e essa identidade foi se perdendo…

  7. Cícero diz:

    trinta vezes melhor ver a Portuguesa na série A do que um … esqueci o nome daqueles times de prefeitura. alskdalsdkasldk

  8. #6

    Sancho, os clubes de bairro daqui do Rio ainda sobrevivem. Bangu, Campo Grande, Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão, Madureira e etc, ainda estão “vivos”. Por aparelhos, mas vivos.

  9. FERN diz:

    não eh preciso esclarecer qual foi o torneio que emcampou esta lógica e ajudou a acabar com todos estes clubes, não eh???

  10. arbo diz:

    muito bala o texto.
    dá até pra imaginar o espantalho do mágico de oz vestindo a camisa lusa, numa arquibancada atravessada pelo vento [?!]

  11. arbo diz:

    é sempre necessário, FERN, faça o favor

  12. Anônimo diz:

    O Gregório no ’4′ já respondeu…

  13. Júnior diz:

    Agora alguém por favor tira o Americana do G-4! [2]

    É dever moral de qualquer um dos times com história fazer isto.

  14. Pingback: Portuguesa campeã da Série B | impedimento.org

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