Conspirações da Santa Fé

Desde a tarde daquele domingo, ainda no final do mês de agosto, quando o Colón saiu derrotado do clássico contra o Unión, o Cemitério de Elefantes de Santa Fé parecia ser outro estádio. Não que o revés no derby santafesino tenha traumatizado tanto assim a parcialidade do sabalero, que faz boa campanha e até poucos dias inclusive pensava grande na parte de cima da tabela. A questão é que, em uma tarde qualquer da semana seguinte ao clássico, o zagueiro Ariel Garcé foi visto subindo em uma grua para alcançar as tribunas do estádio. Lá no alto, descrevem as poucas e confusas testemunhas, Garcé retirou a estátua da Virgem de Guadalupe, presente no mesmo pedestal há quase dez anos, e sumiu do local com a imagem da santa nos braços.

Nas sete partidas seguintes ao ocorrido, o Colón esteve invicto. Foi o suficiente para que amplas teorias sobre a “implacável maldição da Virgem de Guadalupe” fossem formuladas pelos mais dramáticos. Alheios à senda inviolável do clube, os padres da cidade opinaram de outra forma e criticaram a indelicadeza com que fora tratada a imagem da Virgem. Afinal, o que fazia Garcé no alto de um guindaste, e para onde havia sido levada a estátua? Às origens, portanto. O responsável pelo início de tudo foi o técnico uruguaio Jorge Fossati, comandante da equipe durante os últimos meses de 2001 e os primeiros de 2002. Fosatti, ainda que de breve passagem por Santa Fé, brindou os torcedores com a estátua, em momento festejado com cantorias, discursos e orações coletivas.

Por quase dez anos, a Virgem aguentou frias noites de chuva, cálidos domingos de verão; viu de cima, ainda que não do céu, dúzias de gols perdidos e um par de jogadas memoráveis; abençoou o Colón nos clássicos e nas encardidas peleias contra os grandes da Capital. Até que, arrancada pelas mãos de um rústico zagueiro, desapareceu por semanas. No entanto, houve um instante em que as lendas, os boatos e as notícias foram obrigados a frear – porque Garcé estava disposto a confessar. Isso antes da partida decisiva diante do Boca Juniors, o líder do torneio, que ocorreu na última terça-feira à noite, em Santa Fé. Ariel Garcé admitiu que fora ele, sim, o vulto que alguns buscaram reconhecer. Que havia subido, é certo, por um guindaste até o andar das plateias. E que, enfim, havia mesmo retirado a estátua da Virgem de Guadalupe, a santa que Fosatti oficializou como a padroeira moderna do clube.

Mas, conta Garcé, tudo aconteceu por uma ótima causa. Quando, por fim, o assunto da semana deixou de ser o fraco rendimento defensivo que custou a derrota no famigerado clássico, alguém olhou para cima e comentou sobre a santa. Se foi uma tentativa de desviar a discussão e escapar dos esporros do treinador, é impossível saber. A questão é que alguém alertou sobre como o tempo havia danificado a estátua, a espectadora mais assídua das partidas do clube e, justamente pela naturalidade que os anos trazem, a mais invisível de todas. Para uma melhor imagem entre os religiosos que frequentam a cancha, o melhor seria deixar vazio por algumas horas o sacro palco da Virgem e levá-la a um restaurador. O escolhido pela tarefa, talvez por ser o único jogador do clube a vestir a camiseta da seleção nacional na última Copa do Mundo, foi Garcé. Era dele, também, a responsabilidade de encontrar o homem que cuidaria das imperfeições da estátua.

A repercussão em torno do caso fez com que o jogador levasse, espontaneamente, o seu depoimento à Justiça. No texto, cujos fragmentos aqui aparecem em livre tradução, Garcé segue descrevendo o episódio: “como quase todos os jogadores e integrantes da comissão técnica são católicos, parecia-nos uma falta de respeito que a imagem seguisse nessas condições, e que ninguém se preocupasse em removê-la”. Quando buscou a estátua da Virgem, conta, o zagueiro ainda pensou: “o milagre é que (pelo estado em que se encontrava) ela não tenha caído até agora nos espectadores”. Resgatada a santa, havia um caminho a seguir pelas esburacadas estradas de Santa Fé em busca do já mencionado restaurador – que jamais encontraria a estátua de Nossa Senhora de Guadalupe.

Que o próprio Garcé termine de explicar o inexplicável: “depois de alguns quilômetros de viagem, comecei a sentir alguns barulhos e, logo, um som muito forte. Lamentavelmente, a santa estava quebrada. Ao ver a imagem quebrada me desesperei, comecei a chorar e acabei me desfazendo dos pedaços da estátua”. Por um par de semanas, se falou mais de Nossa Senhora de Guadalupe do que dos planteis de Colón e Unión nos suplementos esportivos da cidade. Desfeito o enigma, uma réplica da santa foi posta a tempo – no vazio deixado pelo balançar da caminhonete de Garcé – para a grande noite em que o sabalero enfrentava o Boca. Sete jogos depois, após tardes e noites em que viveu sem derrotas ou apoio divino, o time voltou a perder, e o dois a zero aplicado pelo Boca foi um passeio. Por Santa Fé, há quem diga que as derrotas do Colón estiveram momentaneamente despedaçadas em uma estrada dos arrabaldes.

É tudo verdade,
Iuri Müller

Publicado em Argentina, Colunas, Nacionais, Pela América. ligação permanente.

23 Respostas a Conspirações da Santa Fé

  1. LF diz:

    que bela história!

  2. Cesar Cardoso diz:

    É uma história verdadeira ou um roteiro de filme? Porque, né, já tem roteiro, herói e vilão, só falta alguém rodar.

    Fantástico, fantástico.

  3. rafael botafoguense diz:

    bolei quando li Santa Fé…

    nessas minhas viagens eu já percebi que na maioria das disputas de pênaltis quando o goleiro faz o sinal da cruz o time dele perde. Venho observando isso desde de 98.

  4. Ernesto diz:

    Fossati e sua turma aprontando altas confusões. Que treinador. figuraça. pena que era retranqueiro.

  5. Frank diz:

    Futebol e fé, sempre entrelaçados… RB, só para comprovar, vou CTRL C + CTRL V um comentário seu no Blablagol, que rachei o bico lendo… ehehehhe

    “O doido que a estrela d’alva/estrela vésper, que é Vênus, representa Lúcifer segundo a igreja católica. Tudo não passa de uma interpretação errada de uma metáfora na tradução da Bíblia do hebraico pro Latim, mas acabou virando verdade e a estrela do Botafogo está ligada ao “anjo caído”. Contra tudo e contra todos, inclusive Deus e sua holypress!”

    #4
    Ernesto, o FUMISTA deixou vocês na semifinal de uma Liber, embora quem colheu os louros da vitória foi o Sexy (logo quem…). Vocês deviam se mostrar mais agradecidos cara…

  6. Ernesto diz:

    Não contesto os méritos. Mas o “CARBURANTE” (Cecconello, 2010) gostava de um risco. Basta ver o 3-6-1 em La Plata, tomando dois na paleta, mudando na finaleira com o gol eterno e salvador.

  7. fabio diz:

    Fala galera,
    Fotinho para inspirar o campeão da Libertadores.
    http://futeboldecampo.net/2011/10/26/1335/

  8. Anônimo diz:

    “Em time que está ganhando não se mexe.”

    Re 5

    Guarany de Bagé e Botafogo têm algo a ver…

  9. Gabriel R. diz:

    #5 é por essas que não tem que chorar ter perdido pro mazembe, tem que agradecer que ganhou a libertadores…

  10. Anderson Ugiette diz:

    tem tambem uma historia do Cruzeiro mudando o manto de uma imagem de Nossa Senhora… era preto, eles mudaram pra azul… ficaram alguns jogos sem ganhar e mudaram pra preto de novo…

    ….

    ..
    .

    ou foi o galo?? que mudou de azul pra preto, ficou uns jogos sem ganhar e mudou pra azul de novo?? sei lá… quem quiser saber que pesquise, eu to é chapado!

  11. Rá, sensacional a história.
    Em Campinas tem a história do busto do Moisés Lucarelli, nome do estádio, que ora fica de costas para o campo, ora “assiste” aos jogos, dependendo da fase do time.

  12. Tá mal contada a história de como a santa quebrou. Tenho teorias mais PERVERSAS.

  13. Gralha diz:

    Não era a turma do Asmuz que espalhava balas de mel atrás dos gols quando a coisa tava preta?

  14. Diogo Terra diz:

    O Rafael botafoguense deve conhecer umas trocentas histórias místicas do time dele…

  15. Bei, áspero o troço. Baita história.
    Vou tirar a TEIMA amanhã, no Alberdi, Belgrano x Colon JEJEJEJEJEJE

  16. fabio diz:

    Fala galera,
    confiram foto do torcedor que ofereceu coroa a Neymar, no Pacaembu
    http://futeboldecampo.net/

  17. matheus diz:

    que choradeira isso aí do ronaldinho. os caras não lotam estádio pra ver a porra do time e atrolham pra xingar o cara…

  18. Diogo Terra diz:

    #19
    xingam o cara a rodo (não vou nem discutir se com razão ou não) e esquecem da diretoria, da aliviada que o Conselho deu pro Guerreiro, etc. etc.

  19. Anderson Ugiette diz:

    eu não entendo… xingam o cara por causa de mentiras e incompetencias da diretoria… até onde eu sei foi por isso que o dentuço do rio não foi pro Gremio… mas, sei lá… vai ver to falando merda…

  20. Florêncio Gonzalez diz:

    Esta crônica é digna de figurar em um livro de antologias futebolísticas.

  21. arbo diz:

    .org com problemas
    /
    tamu juntu, frank
    /
    grande jogo hj no olímpico. pintura do miralles, golaço do a. lima, douglas correndo pra caralho.

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