Antes de começar a escrever ASSIDUAMENTE no Impedimento, ouvi uma legenda de que o manual de redação do nosso estimado sítio consistia de dois tópicos fundamentais. O primeiro diria “se estiver sóbrio, escreva”. O segundo complementaria: “se estiver ébrio, escreva mais”. Nunca comprovei a veracidade do DOCUMENTO, mas é fato que as reuniões de pauta do Impedimento, se existissem fora do plano dos emails, teriam os debates mais acalorados não pela escolha sobre o que abordar no dia seguinte, e sim pela preferência entre uma Patricia ou uma Quilmes. Mas sob nenhum grau etílico eu poderia imaginar que, ao me voluntariar para SETORISTA DE PERU (conheço todas as piadas), escolhia o campeonato mais insano do continente.
Confesso que não imaginava colocar o Peru em evidência por tantas semanas seguidas (também conheço todos os trocadilhos). Só que é inacreditável o que se passa por lá, com seu torneio nacional cheio de clubes endividados e uma legislação contra dívidas tão rígida que chega a estragar a competição. A última notícia envolve o Universitario, e eu vou contar a vocês antes que a imprensa brasileira o faça, no clima do confronto deles com o Vasco pela Sul-Americana. É o seguinte: por não pagar em dia o soldo dos seus jogadores, o clube crema pode terminar o Campeonato Peruano tendo perdido DEZ das trinta rodadas no tapetão. Um terço inteiro da competição decidido nos tribunais, eis o possível futuro do maior campeão inca.
Por lá, quem deve, perde pontos. E pode até ser impedido de entrar em campo na rodada seguinte, se além de não pagar o plantel for incapaz de saldar as contas com a Agremiação de Futebolistas. Claro que muitos devem algo, mas em geral é feito um acordo de cavalheiros para os pequenos atrasos salariais: os atletas assinam as planilhas mentindo que receberam em dia e, como elas têm peso oficial, a equipe joga normalmente. O problema, no caso do Universitario, é que o clube não paga os salários há CINCO MESES. A equipe perdeu a paciência e disse que não bota o nome em mais nenhum papel declarando que as contas estão acertadas, o que pela regra do país equivale a dizer que o quadro de Lima não poderia mais pontuar no campeonato.

Enquanto a situação se mantiver, qualquer adversário do Universitario no torneio local pode entrar na Justiça e conseguir uma vitória pelos três a zero de um W.O. – pois, em tese, o ‘U’ simplesmente não pode jogar. Isso já aconteceu no fim de semana passado: recusando-se a dar as assinaturas, os jogadores entraram em campo para enfrentar o Sporting Cristal sabendo que só atuariam pela camiseta – os pontos seriam perdidos de qualquer forma. O caso não foi tão dramatizado porque em campo o Cristal acabou vencendo também, mas a crueldade é tamanha que os celestes não se contentaram com o dois a um do resultado e os pontos ganhos: interessados também no saldo de gols, eles foram aos tribunais pedir o placar de três a zero.
Este do fim de semana já foi o quinto jogo dos cremas decidido fora do gramado em 2011. Antes disso, entre dívidas com o plantel ou com a Agremiação, o time havia sido impedido de atuar contra o Melgar e perdido os pontos de uma vitória sobre o CNI de Iquitos e de dois empates, um contra o Alianza Atlético de Sullana e outro contra o próprio Sporting Cristal, no primeiro turno – num hipotético Top-10 de humilhações do Universitario, REFLITA sobre o lugar em que entraria o “perder dois clássicos nos tribunais num mesmo ano”. Caso o clube não levante os valores necessários para zerar as contas e os jogadores sigam se negando a assinar planilhas, aquilo que se viu na rodada passada vai se repetir pelo resto do campeonato, que ainda tem cinco jogos.
O ‘U’ dificilmente cai porque mesmo com os pontos perdidos fica longe da zona de descenso – sua campanha seria de postulante ao título, em condições normais. Estima-se que, para chegar ao fim do ano sem dever nada, sejam necessários três milhões de dólares. Não há ideia de onde tirar esse dinheiro: mesmo que siga avançando na Sul-Americana, as premiações são irrisórias. Some a isso a impossibilidade de fazer renda com a bilheteria (o Monumental está interditado desde o assassinato de Walter Oyarce, torcedor do Alianza Lima, no clássico de 24 de setembro) e está desenhada a implosão econômica do clube.
A situação do Universitario, que deve até para os funcionários do estádio e pode ter seus bens embargados pelo Estado, é quiçá a mais contundente, mas não a única do tipo. Nesta temporada, o Sport Boys também perdeu pontos mais de uma vez, por dívidas. No Alianza, ameaças idênticas de não assinar as planilhas mentirosas só não ganharam mais força porque o time lidera o campeonato e o grupo preferiu não estragar as chances de título. Se eu quisesse abusar dos trocadilhos infames, diria algo como “todo o Peru está duro”, mas pouparei vocês disso. A Federação Peruana, porém, não poupa ninguém, e completa o caos nacional dizendo que em 2012 volta a fórmula de campeonato usada até o ano passado – um sistema impopular, que na época esvaziou os estádios e ajudou a agravar os problemas financeiros dos clubes.
Hoje o campeonato tem trinta rodadas e classifica os dois melhores times para uma final, mas a FPF o acha curto demais. O formulismo do ano que vem mantém os trinta jogos iniciais, mas tira muito de seu valor: eles servem principalmente para definir as posições e os grupos da fase seguinte. Depois, as equipes em classificações pares formam uma chave, e as ímpares, outra. Elas então jogam mais catorze vezes dentro desses octogonais e, aí sim, o melhor de cada lado passa para a decisão. Até lá, talvez não haja mais um único clube em dia com seu plantel, e o campeão será aquele que tiver demorado mais a atrasar os pagamentos. Ou o Juan Aurich, por ser o Juan Aurich.
Escrevendo pouco porque sóbrio,
Maurício Brum


Olha aí, o exemplo da FPF, Noveletto! Não podemos ficar atrás nesse desapego à realidade! #RSmelhoremtudo
Em relação a parte mais importante de todo o texto (ns), acho a Patrícia muito melhor que a Quilmes.
Agora, quanto à situação do Universitário, sorte que aqui não somos tão rigorosos quanto a FPF. Senão, acredito que o futebol iria acabar de vez…
A ABInBev é dona de todas essas. No Uruguai, até o ano passado, a Zillertal estava fora da conta. Agora não, eles são donos da Pilsen, da Patrícia, da Norteña e da Zillertal.
Para quê concorrência, não é mesmo?
Poderemos até saber qual a situação no Peru, mas não com tanta riqueza de detalhes…
Meu, isso é de uma irrealidade incrivel.
Simpatizo muito pela la U. Isso rasga o coração.
E sobre a AB-Inbev: MORRA!
Como o mundo seria mais bonito com só pequenas cervejarias fazendo suas loucuras.
Re 5
Sempre se pode tomar cerveja das pequenas cervejarias. Aqui, elas já estão voltando. Pelo que pude perceber quando estive nos EE.UU., a quantidade delas lá é absurda; quase sempre se pode optar por uma cerveja ou chope local nos bares e restaurantes. O chato é que NUNCA vem colarinho…
#6:
Eu sei, to falando por isso. Até por sinal eu faço ceva em casa tbm.
Do colarinho tu ta falando lá ou aqui?
Lá. Verdadeira praga.
muito massa o texto.
fico na dúvida se é ou não uma boa essa história de punir clubes que não pagam seus atletas. qual a opinião de geral(do)?
Re 9
Pode ser bom, quando trata-se de exceção. Se isso é, e enquanto for, a normalidade, o mais provável é que tal remédio mate o paciente…
É o que o Sancho disse.
bela análise…. e que foto espetacular do monumental!
tô pra comprar uma camisa do Universitário que vi num site. Assim, colaboro pra pagar as dívidas deles. (ns)
Essa fórmula medonha que a FPF vai repetir é boa pra quem? (pra alguém deve ser, senão eles não voltariam com ela)
Alexandre N., não que a Quilmes seja uma ótima cerveja, mas se fosse YORUGUA, o pessoal se amarraria nela. Por lo menos así lo veo yo (NIMO, Guillermo, s. d.).
Mas a Zillertall, ainda , ainda está boa.
E só sobrou o Vasco…
http://futeboldecampo.net
Estive em Lima mês passado e quase comprei uma camisa da U. Aliás, as camisas todas da Umbro (Sel. Peruana, U, Sp. Cristal e Univ. San Martin de PORRAS) tem um tecido no mínimo interessante pois tem a textura de algodão mas são de fato os dry-fit da vida.
#9
se cumprissem a regra ao pé da letra, o Gauchão seria fechado PRA SEMPRE, mas óbvio que neguinho ia bolar não só uma planilha aos moldes da peruana como também ia falsificar as assinaturas. mas não haveria o mínimo interesse em criar uma regra dessas pq no final das contas tem mta gente fora dos gramados que fatura muito mais com o jogo do q os próprios jogadores….
concordo com o Sancho.
acrescento que os clubes podem perder mais dinheiro e ter mais dificuldade para pagar se perdem pontos/colocações/vagas.
se a federação peruana adotou isso, acredita que há corrupção generalizada entre os dirigentes (ou seja, gente metendo o dinheiro dos seus clubes no bolso). E aí, faz sentido.
A fórmula da FPF é boa para a televisão…
A fórmula da FPF é boa para a IMPEDCOPA.
#9: De boas intenções o inferno está cheio e blábláblá, mas neste caso do regulamento anti-dívidas da Federação Peruana o ditado se aplica. A ideia de obrigar os clubes a manterem suas obrigações salariais em dia para poderem jogar os campeonatos é uma daquelas ideias quem doem de tão óbvias que são, mas na prática, num futebol sem receitas, a única coisa que você garante é que o campeonato vai ser decidido pela capacidade dos dirigentes e dos jogadores de manterem o faz-de-conta das assinaturas falsas.
(Note aí, isabel, que minha discussão é sobre a regra da FPF, não sobre a obrigação de manter salários em dia ou então, como faz a UEFA, de exigir um mínimo de estabilidade financeira para poder jogar as competições. Acho que este tipo de regra, infelizmente, começa a se tornar essencial no futebol de clubes.)
Ta mais do que certo isso aí. Se não tem grana pra pagar SALÁRIO (porra, é o básico, o mínimo que se pede de obrigação!) então fecha as portas.
“todo o Peru está duro”
ALKEJAEKLA
Sensacional o texto.
ESCLARECEDOR. Muito bom. O peru tá esfolado, na real.
“Até lá, talvez não haja mais um único clube em dia com seu plantel, e o campeão será aquele que tiver demorado mais a atrasar os pagamentos.”
ahahahahahaha
tem que rir pq tá bem escrito o texto, mas é triste.
dale.
texto muito bom. seguimos acompanhando o peru. tenso.
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