A entressafra dos técnicos

A notícia de que Leão seria o novo técnico do São Paulo me provocou, de cara, uma gargalhada daquelas, seguida de uma indagação do tipo “Onde é que esses caras estão com a cabeça, foi indicação do Andrés?” Depois bateu um pensamento do tipo “Bom, pelo menos eles mexeram diante de um problema, tomaram uma atitude, e não fizeram como a diretoria do Palmeiras, que espera o campeonato acabar em barranco pra morrer encostada, sem se dar conta de que podemos acabar todos soterrados”.
Depois eu fiquei pensando: se não fosse o Leão, ia ser quem? E não achei resposta. Não tem nenhum grande técnico dando sopa no mercado. Mas o buraco é mais embaixo: a verdade é que o Brasil vive uma entressafra de talentos no banco de reservas.

Vejamos: a única unanimidade na praça chama-se Muricy Ramalho, que só neste ano, depois de levar o Santos ao título da Libertadores, conseguiu se livrar da pecha “é ruim de mata-mata” que resistiu à conquista de quatro dos últimos cinco Brasileiros. O único lugar onde há resistência a Muricy é na torcida do Fluminense, mas é muito mais um caso de coração partido e mágoa pela exposição das ratazanas e afins do que realmente uma crítica a seu trabalho.

(Na verdade, há sim outra unanimidade, mas não exatamente “na praça”: é Ricardo Gomes, mas creio que os elogios que se seguiram após seu AVC foram movidos muito mais pela comoção pessoal do que por seu trabalho na beira do campo, que, todos sabemos, só foi DEFLORAR no Vasco, depois de uma década de irrelevâncias (pergunte a qualquer são-paulino se gostava do time sob seu comando.)

Fora isso, o futebol brasileiro sobrevive hoje PROFESSORADO por uma série de classes de treineiros, todos passíveis de algum grau de contestação. Há os medalhões, como Luiz Felipe Scolari, Vanderlei Luxemburgo e Abel Braga, que regularmente são acossados aos gritos de “decadente!”.

Há um grupo que eu penso em chamar de “renegados”, no qual podemos encaixar Celso Roth, Caio Júnior, Tite, Cuca, Papai Joel, Adilson Batista e o supracitado Leão, dentre outros, cuja contratação geralmente é anunciada pelo cartola com uma certa vergonha, um SORRISO AMARELO do tipo “Bom, tinha que escolher alguém, né?”, e que geralmente começam bem e acabam com uma demissão anunciada com semanas de antecedência, depois de alguma derrota estúpida em casa.

Há os que já mostraram qualidade, mas ainda falta um “algo mais”, como o fujão Paulo Autuori ou Dorival Júnior, que demonstra conhecimento tático, porém (a meu ver) carece de um jeito melhor para lidar com assuntos extracampo (podem reparar que ele saiu brigado de seus dois últimos empregos, no Galo e no Santos, e mesmo suas saídas de Vasco e Cruzeiro, após temporadas relativamente boas, são questionáveis).

Jorginho, o comandante da brilhante nau lusitana na Série B, é outro que se encaixa no escopo, e não venham me dizer “Ah, mas o Palmeiras foi líder com ele em 2009”, porque ele comandou o time apenas em meia dúzia de jogos, não serve como parâmetro. Também podemos incluir o outro Jorginho, que faz ótimo trabalho à frente do Figueirense, mas que sempre poderá ser apontado como o mentor intelectual do desastre da Copa de 2010.

E há aqueles de segundo escalão, que se alternam entre times de regiões intermediárias da tabela e vira e mexe clamam por uma chance num “grande centro”, onde falham miseravelmente. Casos de PC Gusmão, Toninho Cecílio e Estevam Soares, consigo me lembrar agora.

E o Mano Menezes? Bom, eu defendo a tese de que, não fosse o maldito Ademar e seu pênalti perdido na Batalha dos Aflitos, Luiz Antonio teria sido demitido pelo Grêmio e ficaria marcado como o técnico que não conseguiu fazer o Grêmio subir numa Série B molezinha que tinha até o União Barbarense.)

A verdade é que hoje praticamente não há técnico no Brasil que não possa ser cornetado e com boa dose de justiça. É sintomático, inclusive, que isso envolva quatro dos cinco últimos campeões de torneios internacionais à frentede clubes brasileiros (antes de Muricy, na ordem inversa: Roth, Tite, Abel e Autuori).

Também é sintomático que esse questionamento ocorra justamente numa época de supervalorização dos técnicos, que passaram não raro a ter o maior salário do clube e são tratados como os depositários da esperança do torcedor – e o caso do Palmeiras é típico, pois muitos defendem que “não fosse o Felipão e o time caía”, mas, vá lá, é ele quem treina e escala o time, não?

É um momento complicado, e a nós, torcedores, resta ter paciência para lidar com as IDIOSSINCRASIAS dos professores. É duro de aturar, mas, pensem, até que poderia ser muito pior. Poderia ser o Leão.

Fotos: João Neto/Vipcomm e Ricardo Saibun/Divulgação Santos FC

Fernando Cesarotti

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32 Respostas a A entressafra dos técnicos

  1. Dudu Lorenz diz:

    Haha, esse final foi tri.

  2. Lol diz:

    Sugestão de procedimento: Postar novo texto apenas quando a discussão do anterior for finalizada, sob o risco de esvaziar a atenção do antigo ou, pior, do novo texto.

  3. Cesar Cardoso diz:

    “Também é sintomático que esse questionamento ocorra justamente numa época de supervalorização dos técnicos, que passaram não raro a ter o maior salário do clube e são tratados como os depositários da esperança do torcedor – e o caso do Palmeiras é típico, pois muitos defendem que “não fosse o Felipão e o time caía”, mas, vá lá, é ele quem treina e escala o time, não?”

    Desculpe, Cesarotti, mas o caso do Palmeiras NÃO é típico. Porque nenhum clube brasileiro – e, desconfio, do mundo – tem uma relação tão salvacionista, tão messiânica, tão sebastianista como a que o Palmeiras tem com Luiz Felipe Scolari, de tal maneira que, se acontecer o que todo mundo aposta e o Felipão “pular o muro” no final do ano, não duvido de acontecer um haraquiri coletivo alviverde.

  4. beretta diz:

    Depois eu fiquei pensando: se não fosse o Leão, ia ser quem? E não achei resposta. Não tem nenhum grande técnico dando sopa no mercado.

    Eu realmente parei de ler aqui, não sei quem escreveu e vou dizer: PAREM COM ISSO! Não existem “grandes técnicos”, os melhores são os que inventam menos loucuras e se deixam levar menos pela influên$$ia das direções e empresários. Que troço chato esse papo manjado de “se não fosse ele ia ser quem?”. Porra, TRÁS QUALQUER PANGARÉ, qualquer um é melhor que o Leão.

    Desculpa a revolta, mas me quebra as pernas esse lance de “não tinha quem trazer”. Busca o Mário Sérgio, procura no mercado algum que esteja empregado mas aceite a mudança, OBSERVA os treinadores. Agora me dizer que o Leão foi contratado porque “não tinha outro”, ah, para, não existe treinador na base do São Paulo?

    Enfim, deixa pra lá. Vou ler o resto.

  5. beretta diz:

    Espero que o Cesarotti não fique ofendido, mas não concordo muito com o texto. Só acho que os clubes focam demais nos mesmos treinadores. Aqui no Sul, por exemplo, tem vários treinadores bons, mas que não recebem oportunidade. Vejam: o Grêmio contratou o AUXILIAR DO FALCÃO ao invés de apostar no Leocir Dal’Astra, que tem tudo pra ser um “grande treinador”.

    É isso que eu não consigo entender: por que sempre os mesmos?

  6. Flávio diz:

    E não faz tanto tempo esses caras todos eram chamados de “supertécnicos”…

  7. Fernando Cesarotti diz:

    Beretta, o que me ofende é seu gosto musical, não sua discordância do texto. (rs)
    De fato, tem muitos técnicos novos dando sopa. O problema é que a paciência da torcida com esses caras, e foi algo que eu ia colocar no texto e esqueci, costuma ser próxima do zero. É só ver um caso recente aí no Sul, o Julinho no Grêmio.
    No Palmeiras tivemos alguns assim e sempre tinha parte da torcida (e da cartolagem) que corneta: “Esse cara não é técnico pro Palmeiras”. Caio Jr. foi um deles, imagina um ainda menos conhecido…

  8. Ismael Lavallos diz:

    #7

    A meu ver, a receita pra resolver o problema da (falta de) paciência do torcedor é PRÉ-TEMPORADA. Não adianta trazer um ilustre desconhecido e querer que o cara faça MÁGICA com um grupo quase sempre combalido, com a moral nos garrões… chama o cara no início do ano e dá a preparação do time pra ele – além de dar respaldo, é claro! Se o cara não tem NOME, precisa ser respaldado pelo clube.

    Eu fui um que durante muito tempo bati nessa tecla, de romper o ciclo com os treineiros de sempre! Queria ter visto o Leandro Machado no Inter, na fase boa dele. Queria ter visto Leocir Dall’Astra e o próprio Judinhas Camargo trabalhando com tempo pra implantar suas ideias de futebol. Só que, repito, não dá pra querer milagre, é igual “queimar” guri da base! Agora, se for pra mandato “tampão”, daí pode contratar Leão, Roth, A. Lopes… basta gritar e colocar o pau na mesa!

  9. Ismael Lavallos diz:

    Em tempo, to gostando muito do trabalho do Dorival no Inter. Espero que o “algo mais” venha no ano que vem!

  10. oPaivas diz:

    Esqueceram-se do Dunga. Eu realmente tenho muita admiração pelo trabalho que ele fez na Seleção Brasileira, diga-se de passagem, a última seleção do país que vi jogar. Não venham me dizer que o Mano o substituiu. O que o Mano treina é a seleção da venus platinada, da qual sempre torci contra…

  11. Luiz Fernando diz:

    Só estou esperando em qual rodada o Leão vai brigar com o Rogério Ceni.
    Ele sempre briga com um figurão.
    Vide Dunga, Fabiano, Ronaldinho, …

  12. #11

    Nada. O Leão vai brigar é com o Rivaldo… hehehehehehe

  13. O Dorival saiu do Cruzeiro “deixando as portas abertas”, como os treinadores adoram dizer. Dirigiu o time no Brasileiro 2007, classificou o time para a Libertadores, terminou o contrato e não foi renovado, Perrella preferiu apostar no Adílson Batista.

    E aqui em MG o nosso Autuori – aquele que é o primeiro cogitado sempre que tomba um técnico, mesmo que todoas saibam que ele não vai abandonar seu emprego de milhões de ienes – se chama Levir Culpi.

  14. Ernesto diz:

    “Também podemos incluir o outro Jorginho, que faz ótimo trabalho à frente do Figueirense, mas que sempre poderá ser apontado como o mentor intelectual do desastre da Copa de 2010″.

    Quem puder fazer tal ponderação é mau caráter. Sem contar que ele pode ter sido, no raciocínio inverso, como o mentor da copa américa 2007, copa das confederações 2009, eliminatórias vencidas com facilidade – classificação antecipada, vitória contra ARG e URU lá – e por aí vai.

  15. oPaivas diz:

    Ernesto, discordo da parte em que menciona “mentor intelectual do desastre da Copa de 2010″. Cara, o Brasil da era Dunga/Jorginho perdeu quantas partidas? E da Argentina, quantos embates perdidos? No jogo contra Holanda estavamos ganhando, o Felipe Melo metendo lançamento (gol do Robinho foi com passe dele), daqui a pouco fodeu. Desastre? Desastre pra mim é estar ganhando de 3 a zero e deixar empatar o jogo nos 10 minutos finais…
    Na boa, o Dunga é um injustiçado.

  16. oPaivas diz:

    Ok Ernesto, não vi as “aspas”

  17. Saulo Daniel diz:

    Por que há tanta parcimônia de nossa parte com Leões, Caios Jrs., Joel Sacana e o rebain de ingrassas que temos por acá, mas não há o mínimo de tolerância com Fossatis, Passarelas e outros hermanos hispânicos tão laudados em tantos lugares, menos na Terra do Monte Pascoal? Tenho certa simpatia pelos coachs sudamericanos, gostaria que tivessem mais mercado aqui no Brasil. A regra é que ninguém de fora presta aqui e ninguém daqui presta lá fora (exceção feita ao Catar – leia-se todo o oriente, incluindo Japão).

  18. LF diz:

    #2.

    É uma sugestão bacana. O problema é que, após um gre-nal, teríamos de suspender a publicação de novos posts por uma semana.

  19. LF diz:

    “Por que há tanta parcimônia de nossa parte com Leões, Caios Jrs., Joel Sacana e o rebain de ingrassas que temos por acá, mas não há o mínimo de tolerância com Fossatis, Passarelas e outros hermanos hispânicos tão laudados em tantos lugares, menos na Terra do Monte Pascoal? ”

    bons empresários, boas relações, amigos dos amigos…

  20. Eduardo diz:

    Tecnico é super valorizado,mas são super importantes. Nao acho q qualquer pangaré treina time grande.
    Só acho que o Relso Coth poderia estar S E M P R E. Disponível… Para o time dos outros….

  21. rafael corinthiano diz:

    quando foi que estivemos na safra dos técnicos?

    acho que num tempo onde o futebol já se profissionalizou a ponto de ter preparadores para cada faixa do campo seria ideal também que houvesse uma “escola para treinadores”. não sei o quanto essa idéia é tola, mas acho muito estranho que não haja nada que subsidie o trabalho do treinador, não há estudo de trabalhos anteriores apenas um “copiar e colar” de esquemas táticos estrangeiros.

    a impressão que eu tenho é que o técnico apenas copia algo de fora e complementa com palestras motivacionais.

  22. Bom, eu sempre vi o Jorginho como mentor da seleção do Dunga, responsável principal pelas ideias táticas, inclusive levando em conta que o Dunga nunca mostrou interesse em ser técnico – trabalhou como comentarista até três dias antes de ser contratado e não se sabe se fez cursos ou mesmo se tinha proximidade com os treineiros com quem trabalhava.
    E não ganhar Copa é desastre, óbvio que é, mesmo que tenha sido “por acaso”. E, na boa, não foi acaso: todo mundo via, a cada jogo na África, que era um time despreparada psicologicamente, pilhado além da conta, que na primeira vez que se encontrasse em situação adversa tinha alto risco de desmoronamento – foi o que aconteceu, e, guardadas as proporções, é o que acontecia neste ano a cada jogo do Palmeiras antes de a coisa degringolar de vez.
    Sem contar que a gente já comentou aqui, em algum texto, os problemas táticos, que era uma seleção torta e que incinerava laterais-esquerdos e por aí vai. Eu não coloquei o Dunga porque simplesmente não acho que ele seja um “técnico de profissão” – pra ele ele se assemelha muito ao Falcão nesse sentido.

  23. 21
    Rafael, vc tem toda a razão. A falta de embasamento teórico sobre futebol é um problema gravíssimo, e o próprio Parreira, que é um dos principais nomes nesse setor, para o bem e para o mal, admite isso.

  24. Ladislau diz:

    O pessoal tem muita má vontade com o Muricy. Ele é da turma do Telê Santana, Rubens Minelli, Ênio Andrade, Luiz Felipe Scolari, Zezé Moreira…

  25. oPaivas diz:

    Fernando, sinceramente, prefiro time torto e que incinera os laterais, mas que afunde a tanga dos hermanos, dentro da casa deles, com Messi e tudo, mas vá lá, talvez eu não goste de futebol mesmo…

  26. Pedro, rubro-negro diz:

    Acho que o ideal e o clube procurar um cara sério e honesto, o que já é difícil, e deixar o cara trabalhar durante um bom tempo. Não precisa ser um figurão, pode ser alguém menos conhecido e de preferência com alguma ligação com o time.

    Todo o técnico faz merda. A torcida tem que entender que não dá pra ganhar o brasileiro e a libertadores todo ano e que depois de um ano com desempenho regular o sujeito, conhecendo melhor o elenco e as categorias de base, pode fazer um trabalho exemplar.

    Dois exemplos do Rio: Caio Jr. e Abel foram e são diariamente contestados e espinafrados. Porra, faltam sete rodadas e o Botafogo disputa o título (há quanto tempo isso não acontece? ) e o Flu faz um segundo turno bastante digno. Deixa os caras trabalharem. (Não falo do Luxa por que ele é um cidadão escroto)

    Além disso, mais importante que o técnico é a diretoria montar e manter um elenco pra ele fique entrosado.

    Sobre o Dunga: o desempenho do trinador guerreiro foi exatamente igual ao do Parreira comandando a seleção do Oba-Oba de 2006.

  27. Lol diz:

    Não acho que o Mano Menezes seja um mal treinador. Isso é desonestidade. Tite que o diga após o nó tático que tomou nas finais da CB 2009.

  28. Gralha diz:

    Aí tem dirigente que vê o Roth ganhando quatro ou cinco partidas na largada e, sabendo do histórico do cara, propõe renovação pro ano seguinte. Ainda bem que o cara negou…

  29. Zé Carlos diz:

    E o PROFESSO LUXA ?

  30. Álisson diz:

    Poderia sem pior, poderia ser o Nelsinho Baptista.

    Na boa, esse time do Parmera chora de ruim. Quando estava em sexto e jogou contra o Inter fiquei apavorado.

  31. fabio diz:

    E só sobrou o Vasco…
    http://futeboldecampo.net

  32. Kadu diz:

    A entressafra de técnicos é clara. No mais, e esse técnico do Coritiba, alguém conhece algo além desse ano? Pra mim é o técnico do ano de 2011, até à frente do Muricy. Os Jorginhos são duas promessas interessantes.
    E vale dizer que o técnico da base do São Paulo, Sérgio Baresi, treinou o time e foi mal. Mas aí é outra discussão, que já ocorreu, de que o problema lá não é técnico. Tem muito dirigente ruim por aí, mas só o São Paulo ainda conta com um presidente “Década de 80″.

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