
(aqui a primeira parte)
Futebol de várzea
Aos poucos, perto das três horas da tarde, o restante do time do Ajax do Jardim São Jorge, não tão pontual como Edimar, chega ao campo do Anhanguera para a estreia na Copa Black Power. O irmão de Damião estreou na equipe justamente na decisão do mesmo campeonato no ano anterior. “Fomos campeões no meu primeiro jogo. De lá para cá fui me firmando entre os titulares, mas jogando na frente, fora da minha posição, onde a concorrência é menor.”
O “meia-esquerda de origem”, que se considera bom passador e que tem Rivaldo como grande espelho, por ser “um canhoto com estilo bonito e ídolo da minha época”, agora joga na mesma posição de Damião, com a missão de marcar gols e levar o time novamente para a final. Segundo ele, aceitou o convite do Ajax porque o clube joga as melhores competições de várzea da capital e tem certa tradição na cidade. A movimentação intensa na arquibancada instantes antes do início do jogo comprova que o Ajax é time grande no futebol amador de São Paulo. A torcida barulhenta vai se acomodando na arquibancada, quase todos com camisas e agasalhos do time ou roupas quaisquer em amarelo e preto.
O principal campeonato amador do ano é a Copa Kaiser, da qual o Ajax foi eliminado prematuramente. O bi da Copa Black Power (nome de outro time da várzea que batiza a competição) é para salvar o ano. A equipe mantém a base do campeonato passado, mas sempre tem novos craques entrando e saindo. Tudo no amor pelo futebol. Nada de dinheiro no bolso, pelo menos até levantar o caneco. “Ano passado fomos campeões e recebemos troféu e medalha. Como eu entrei só na final, não levei nada em dinheiro. Eu sei que o pessoal recebeu alguma coisa, mas não sei dos valores.” Edimar conta que uma das regalias que o clube dá é o uniforme completo lavado para cada jogo. “Ainda temos essa comodidade. Não precisa levar para casa lavar. É deles a obrigação de organizar isso.”
Diferente do futebol profissional, os benefícios e barbadas da várzea podem ser contados nos dedos. O time não treina. Na verdade, cada jogo é também o treino para o próximo confronto. Todos os testes que o treinador quiser realizar precisam ser feitos com a bola rolando e com pontos importantes em disputa. “No meio da semana a gente fica sabendo o campo e o horário do jogo do fim de semana. No dia marcado, o time se reúne, ouve as orientações do treinador e vai para o jogo. Ele mais ou menos conhece o estilo de cada um e tenta organizar o posicionamento”, conta Edimar, que se sente feliz por estar bem na equipe. “Acaba o jogo aqui e já penso na próxima partida. É a semana inteira tentando imaginar os lances.”
Mas e a preparação? Trabalha a semana inteira e aí tem que correr o jogo todo? Nenhum cuidado especial para jogar? Até Coca-Cola antes do jogo o Edimar estava bebendo. “Em dia de jogo eu acordo de manhã e tomo café normal. O único cuidado é almoçar umas quatro horas antes da partida para não ter nenhum problema”. O atacante do Ajax, no entanto, sabe que não é o mesmo atleta de poucos anos atrás. “É difícil. Agora corro um pouquinho e já estou cansado. Não tenho mais o mesmo preparo.” Edimar é magro e de corpo atlético, menos alto que Damião, mas ainda assim de estatura boa para jogadas aéreas. Ao ouvir o chamado de um integrante da comissão técnica, interrompe nossa conversa e vai para o vestiário se fardar junto com os companheiros.
Negocio com o presidente da sede a minha entrada no campo de jogo. Pediu que eu aguardasse por um colete laranja, mas por fim me liberou sem que o cuidado fosse tomado. Assim que desço as escadas que dão acesso ao tapete, vejo o velhinho de bigode na mesa da Kaiser acorrentar e trancar a grade de entrada com cadeado. Tenso. Comecei a imaginar a torcida revoltada com uma marcação polêmica do árbitro tentando invadir o campo para tentar convencê-lo a mudar de ideia. Um quebra-quebra daria boas fotos. Talvez compensasse a falta de poeira. Talvez jogassem minha máquina no árbitro. Melhor aguardar.
Com mais de meia hora de atraso, os times avançam pelo gramado artificial do Jardim Joá. Os jogadores mais jovens dão curtas arrancadas e saltos emulando cabeceio como aquecimento, enquanto os mais maduros conversam e tentam organizar o sistema defensivo. Olhando rapidamente, arrisco que a lógica dos times de várzea é justamente a mistura de experiência na zaga e juventude no ataque. A maioria das indisfarçáveis barrigas de cerveja está na posição dos volantes. Nada exagerado, no entanto. Barriguinha de ex-atleta.
A partida começa com o Ajax superior. Edimar tenta se livrar da marcação. Na maior parte do tempo fica centralizado, mas consegue receber a bola com maior facilidade quando cai pelas pontas, principalmente no lado esquerdo do campo. Recebe algumas pancadas do zagueiro sem reclamar. É impossível não fazer comparações com Damião: além de parecido fisicamente, desloca-se com semelhante elegância desajeitada, tromba com o marcador e busca sempre o posicionamento ideal quando sente que a bola está prestes a ser alçada na área.
Ao dominar a pelota na lateral direita de ataque, recebe uma entrada mais severa e fica no chão por alguns instantes. “Já me machuquei bastante jogando várzea. Tem muita pancada. Nunca cheguei a quebrar alguma parte do corpo, mas teve torção e luxação”, diz Edimar. O tratamento, nesses casos, é por conta própria. “Tinha que tomar anti-inflamatórios e ficar de fora até me recuperar. Eu é que tenho que correr atrás.”
Apesar de alguns lances mais ríspidos, a partida é conduzida com autoridade e tranquilidade pelo juiz, um negro corpulento de cerca de um metro e noventa, um armário. A maior reclamação é do time adversário, em um lance que o defensor do Ajax teria salvado um gol na linha usando a mão. Eu estava no outro lado. Assim como o árbitro, nada vi, então segue o lance. Mas meio time do Nova Era do Valo Velho cerca o bandeirinha perto da linha de fundo. O árbitro chega perto, olha feio, coloca a mão no bolso e a ordem reina novamente.
A ameaça do “quero ver fazer isso na várzea”, provocação dedicada inclusive aos consagrados craques brasileiros (quero ver o Robinho pedalar na várzea!), não é mais uma ameaça ligada necessariamente à violência. A várzea, dentro de suas limitações, também se organizou muito nos últimos anos. É claro que é um jogo duríssimo, onde não há recursos da TV e árbitros de primeira linha para coibir certas malandragens e bandidagens dos atletas, mas é notável um clima mais profissional. Ao menos na partida do Ajax, pelo que podemos chamar de “primeira divisão” da várzea.
“O jogo da várzea é mais pegado. Não tem uma lei muito severa de punição, então o jogador costuma apanhar bastante. Nada é filmado”, comenta Edimar. Segundo ele, “tem muito zagueiro com maldade pra cima do atacante”, e a melhor maneira de evitar sair de campo carregado é “ficar esperto quando o árbitro estiver de costas”. O atacante do Ajax, no entanto, acha que é bem mais seguro jogar na várzea nos dias de hoje. “Antigamente eu era bem mais medroso. Agora os atletas se respeitam mais. As vilas também se respeitam. Se começa uma briga, o pessoal resolve na hora.” Os tempos de terror em campos adversários parecem estar ultrapassados. Por instinto, no entanto, as lembranças de “sair de campo empurrado e se defendendo da briga” e “ouvindo até tiro” permanecem ativas na memória de Edimar.
O primeiro tempo acaba 2 a 0 para o Ajax, sem gols de Edimar. No intervalo, os dois times se recolhem próximos das casamatas. Água e Gelol circulam de mão em mão enquanto a comissão técnica se desdobra entre massagens nos atingidos e orientações aos desacertados. Edimar senta no tapete verde e se escora na mureta de proteção durante todo o período de descanso. O time vai bem e volta sem alterações para a segunda etapa.
Sinto falta do Seu Natalino. Havia lido que ele acompanhava Damião pela TV e Edimar ao vivo, mas nenhum sinal dele pelo campo. “Não veio hoje”, disse Edimar mais tarde. “Viajou para o interior porque tem casamento de um primo.” Pergunto se é o primo boleiro dispensado com ele em Santa Catarina. “Não, não. Esse que vai casar é o maior perna de pau.” Decido sair do campo e preciso chamar novamente algum responsável para me libertar da passagem trancada com cadeado. Quero acompanhar o restante do jogo da arquibancada, junto com a torcida do Ajax, festejar a vitória enquanto intimamente me declaro uma espécie de talismã responsável pelo triunfo. Uma bobagem que esqueci em menos de 10 minutos, quando o ataque do Nova Era marcava o segundo gol e empatava a partida. Não tem mais bobo na várzea.
A torcida se impacienta, mas não deixa de apoiar o time. Lamenta pela saída de bola errada que gerou o gol de empate, mas mantém firme o compasso da pequena charanga formada por sete torcedores de olhar sério, dois deles de costas para o campo batendo em seus instrumentos. Mais ao lado, uma jovem encarna a “musa do Ajax” e rebola em uma parte mais alta da arquibancada, trajando camiseta do time e short jeans minúsculo e colado ao corpo. Tentar fotografar a bela morena no meio da torcida do clube e, muito provavelmente, na cara do seu namorado seria arriscado. Acompanhei atento para poder escrever.
Edimar é substituído. Cansado, pouco havia produzido no segundo tempo e, tirando um chute de longe que buscou o ângulo direito do arqueiro, não havia trazido perigo ao adversário. Saiu pelo portão e foi para o vestiário trocar de roupa enquanto o 2 a 2 seguia disputado. Ainda na torcida à espera do meu entrevistado, vejo um guri de não mais de 5 anos com o cabelo raspado. Atrás da cabeça, as letras feitas com máquina zero eram indício de que mais uma geração de amantes do futebol de várzea estava garantida: “Te amo, Ajax.”
Colados na grade do lado de fora do campo, ao lado dos carros estacionados, vemos a virada do Nova Era e logo na sequência o empate do Ajax, com o jogo já perto do fim. Edimar comemora sem alterar o tom de voz e continua falando sobre a vida após a consagração de Leandro Damião. A partida acaba e o centroavante do Ajax se despede. Pergunto da moto e ele me leva até ela. “Vim com ela porque não era muito longe”, me diz. “Ando mais é no fim de semana mesmo.” O empate em 3 a 3 na estreia não é considerado mau resultado porque o adversário é forte. O campeonato é longo e vai se arrastar até o fim do ano. A cada sábado ou domingo, Edimar vai entrar em campo e fazer o melhor para não deixar a vaga de titular. Vai torcer para não se machucar e vai se espelhar no irmão artilheiro para marcar os gols que o Ajax precisa para ser bicampeão.
Vida pós-Damião
“Meu pai diz que não quer sair do bairro. Ele é bem conhecido lá e o pessoal é muito legal. Mas com esse sucesso todo do Leandro não sei se vamos para outro lugar”, diz Edimar sobre as mudanças em sua vida depois que o irmão mais novo tornou-se ídolo do Internacional, maior artilheiro do ano no país e titular com gol marcado pela Seleção Brasileira. “Eu gosto de morar lá. São muitos anos no bairro, conheço todo mundo. Se o cara mudar pode ficar meio ocioso”, completa, deixando claro que é feliz no Jardim Ângela e que ainda não sabe ao certo o que vai acontecer nos próximos anos.
Quando Leandro Damião partiu para Santa Catarina e começou a se destacar em times pequenos antes de acertar contrato com o Internacional, Edimar tinha certeza de que o irmão estava prestes a explodir para o futebol. “A partir de 2005, eu já vi que ele estava bem mesmo. Ainda era bastante mole e caía sempre que o zagueiro encostava. Quando começou a suportar o tranco da defesa, ficou difícil para os adversários”, avalia, sobre o amadurecimento do artilheiro. “Ele era bom de cabeça, mas melhorou muito o chute e explodiu no Inter. Agora no Brasil.”
Edimar não sabe qual será o destino do irmão. Sabe que no futebol moderno os valores mandam e que o Internacional vai precisar de muito esforço para segurar Damião por mais tempo. “A carreira de futebol é limitada. Depois de 15 anos já era, então tem sempre a questão financeira.” Sobre uma provável passagem pela Europa, o ex-companheiro de Damião agora vê no elenco do Real Madrid as condições mais favoráveis para o sucesso do craque. “Gostaria de ver ele no Real Madrid. É um time forte, com pegada, onde o centroavante funciona melhor porque tem laterais que sabem cruzar”, arrisca.
Edimar ainda não foi para Porto Alegre ver Damião jogar no Estádio Beira-Rio. O trabalho dificulta as viagens e a saudade é grande mesmo mantendo comunicação com o irmão pelo telefone e via internet. “Fomos criados sempre juntos e agora temos essa distância nos separando. Sinto saudades.” O calendário apertado de jogos pelo campeonato estadual, Libertadores da América e Brasileirão também complica as visitas de Damião, mas o atacante aproveita qualquer brecha para estar perto dos familiares. “Na última suspensão, ele veio nos visitar e ficou dois dias lá em casa. Fizemos churrasco para conversar e saber como estão as coisas.” O irmão aposta em Damião como uma das estrelas do Brasil na Copa do Mundo de 2014. Faltam mais de dois anos e o amanhã, embora incerto, parece óbvio para um grande torcedor. “Quero que faça muitos gols para conquistar o título. É a Copa dele. É em casa.”
Casa de corintianos
Quando uma longa bateria de fogos anuncia a entrada do time da casa em campo para a próxima partida do dia e impossibilita qualquer gravação, decido fechar a entrevista falando sobre o Corinthians. Edimar imediatamente se anima. Ainda confuso com a barulheira e a fumaça que se espalha pelo gramado, não esconde o desejo de um dia ver Damião balançar as redes pelo time do coração. “A família é toda corintiana. Hoje o Leandro é remunerado e torce pelo time dele, mas sempre foi torcedor do Corinthians.”
A paixão pelo clube de Sócrates, Casagrande, Neto, Marcelinho Carioca e tantos outros ídolos vem do berço e foi ampliada com as idas ao estádio durante a infância, na companhia do pai. “Ele levava a gente pra ver os jogos mais caseiros. Clássico era difícil”, relembra Edimar, que garante “a família toda feliz” no dia em que o craque colorado mudar de lado.
E a rivalidade entre Internacional e Corinthians? Como é ver Damião enfrentar o Corinthians? “Se ele enfrenta o Corinthians, torço para ele fazer gols, mas torço ainda mais para meu time vencer.” Edimar ri quando provoco que Damião sozinho, aos 22 anos, já tem mais títulos de Libertadores que o Corinthians em 100 anos de história. “Está difícil, mas vamos tentar de novo. Mais uma vez.”
Arriscando passar dos limites, aperto Edimar na grade para saber sobre o polêmico Brasileiro de 2005, que teve o Corinthians como campeão após escândalo de arbitragem, anulação de rodadas e um pênalti que nem o mais caolho dos juízes da várzea deixaria de marcar em Tinga no confronto direto contra os corintianos. “Ah, se o Leandro já estivesse no Inter em 2005 eu teria ficado chateado com o que aconteceu. Mas como ele não estava, estou tranquilo.”
André Schröder, especial para o Impedimento





O Edimar ta SIMULANDO EGS na primeira foto?
Detalhe para o patrocínio que incentiva a BEBER E DIRIGIR. (foda-se se algo foi escondido, vamos nos concentrar na POESIA)
Nova Era do Valo Velho
NOVA ERA DO VALO VELHO!!!
Adeus!
uahauhauha mto bom
“Não tem mais bobo na várzea.”
ah, sim, o distintivo do ajax é igual ao do AJAX!
Baita reportagem. Agora, não se pode chamar de várzea um campo com grama sintética (pior invento do homem) e tela lisinha como a das fotos. Devolvam o nosso areião (ns).
Bah. Excelente.
até o campão copero do rosário, que forjava glorioso na base da raspa na brita, virou um estacionamento
EGS > Edimar.
“EGS é um exemplo em qualquer dimensão do futebol; seja amador ou profissional.” Wianey
Baita reportagem e excelente texto. Baita distintivo.
Scróder, tá muito massa! Agora é a vez do Seu Bigode no Sênior.
Que texto REFINADO, puta merda. E baita incursão e BATE PAPO.
Ele jogar no Ajax mostra que a família já está virando colorada. dushghs
Parabéns, Schröder. Ficou do caralho.
Sensacional.
muito bom. o q vier depois será plágio.
O futebol de varzea organizado eh a coisa mais linda do universo.
“..quando provoco que Damião sozinho, aos 22 anos, já tem mais títulos de Libertadores que o Corinthians em 100 anos de história.”
hauauhsuas