Damirmão – parte I


Com camisa de listras estreitas em azul e branco, o time juvenil do Estrela da Saúde Futebol Clube pisou no gramado do Estádio Pacaembu para a decisão da Taça Cidade de São Paulo Amador de 2005. Quase todos os garotos, acostumados com os duros confrontos em campos de terra dos bairros da Zona Sul de São Paulo, estavam prestes a disputar a partida mais importante de suas vidas. Antes do apito inicial, os jogadores tentavam manter a concentração e segurar o deslumbramento enquanto observavam as arquibancadas de cadeiras coloridas que circundam o gramado verde perfeitamente aparado. O local de grandes clássicos do futebol brasileiro, onde seus ídolos brilharam ao longo dos anos, seria palco para seus próprios dribles, carrinhos, divididas, gols e comemorações.

O apito forte do árbitro deu início à partida. Após poucas trocas de passes, a bola era cadenciada pelos pés de Edimar Augusto da Silva dos Santos. Com o peso do número dez nas costas, o jogador tinha a responsabilidade de armar as jogadas ofensivas da equipe pelo setor esquerdo e servir com qualidade o irmão centroavante chamado Leandro Damião. Durante todo o campeonato, a trama familiar dos filhos de seu Natalino havia sido a arma principal para garantir os seguidos triunfos do Estrela da Saúde. “Eu jogava com a dez e Leandro jogava com a nove. Quase sempre tinha gol meu e dele nos jogos. O entrosamento era muito bom”, relembra Edimar sobre “o melhor time que joguei na várzea até o momento”.

A defesa adversária dificultava as ações ofensivas dos irmãos com marcação forte e incansável, mas ainda no primeiro tempo o prodígio Leandro Damião cabeceou certeiramente para as redes da equipe da Vila Missionária. “Com gol dele levamos a decisão para os pênaltis”, atesta com orgulho o irmão mais velho, que desde as primeiras peladas nos campos e ruelas humildes do Jardim Ângela teve Damião como companheiro.

Apesar de ver o irmão como grande responsável pela campanha vitoriosa do Estrela da Saúde, tradicional clube de várzea fundado no início do século XX, Edimar garante que a conquista foi obra conjunta do “time de garotos novos, rápidos e de muita qualidade”. As lembranças daquela tarde de domingo ainda parecem frescas em sua memória após seis anos. “A final foi emocionante. Jogar em estádio bonito, onde jogam os profissionais, é muito diferente. Nossa torcida estava na arquibancada. Ganhamos o maior campeonato da categoria.”

Na série de pênaltis, Damião converteu a cobrança e esperou o erro dos adversários para abraçar o irmão na comemoração do maior título que já haviam conquistado. Foi uma das últimas vezes que Edimar jogou ao lado do atual centroavante da Seleção Brasileira. Após uma infância inteira de passes entrosados, vitórias e derrotas em campos de chão batido, Damião despontava como atacante “matador” e acelerava em busca de sua chance no futebol profissional. “Quando éramos mais novos, o pessoal sempre falou que eu jogava melhor que o Leandro. Mas foi ele que deu certo para o futebol, graças a Deus”, festeja o meia-esquerda, que, ainda hoje, semanalmente, entra em campo de cabeça erguida e sorriso no rosto para mais um desafio na várzea paulistana.

Fiquei um pouco decepcionado quando Edimar me alertou por e-mail que a imagem do local do jogo aparece desatualizada no Google Maps e que “lá o campo é lindo, um sintético novinho, e não esse terrão feio” que eu havia visualizado anteriormente para saber onde deveria estar às 14h30 de um sábado em São Paulo. Lamentei imediatamente pelas fotos no campo de terra que eu não poderia fazer, com poeira levantando a cada dividida, encobrindo parcialmente os jogadores, criando a atmosfera fabulosa da várzea que acompanhei durante a infância no interior. Coloquei máquina, bloco e gravador na mochila e parti em direção à Zona Sul de São Paulo, mais precisamente para o campo do Anhanguera, em Santo Amaro, onde o Ajax do Jardim São Jorge, time do irmão de Leandro Damião, faria sua estreia na 14ª Copa Black Power, da qual é atual campeão.

Quinze minutos de ônibus, quarenta minutos de trem e doze reais de táxi depois eu estava no bar do Anhanguera comprando uma Coca-Cola enquanto observava de canto uma dúzia de boleiros bebendo cerveja e relembrando lances de jogos realizados pela manhã. “Tem que tocar a bola, mano. Eu passei voando. Joga com o olho no pé”, lamentava amistosamente um descamisado com o copo na mão. “Faltou fechar o meio. O neguinho do cabelo raspado subiu o jogo todo no teu lado”, rebateu o sujeito barrigudo de calção azul com pinta de volante.

A construção simples, localizada atrás de um dos gols e da única área de arquibancada do campo, abrigava banheiros, vestiários e uma espécie de sede do clube do bairro. O gramado sintético, instalado há pouco mais de dois meses e rodeado por grades de arame, refletia o sol do início da tarde e fazia os olhos arderem enquanto eu estudava os pontos ideais para fotografar a partida. Pensei em colocar os óculos escuros, mas temi que fosse ridicularizado pelo modelo meio afetado e desisti. Cartazes na parede divulgavam tabelas de competições e feijoadas de equipes. Ao lado da porta, um comunicado anunciava punição para atleta que não havia se portado de maneira desportiva: “por atitudes que não merecem ser descritas aqui, o atleta (…) está suspenso por 30 dias”. Não merecem ser descritas? Excelente, era um pouco do clima da várzea que eu estava esperando.

Passei a próxima meia hora embromando de um lado para o outro, tentando não chamar a atenção. Um velhinho de bigode grisalho carregando uma papelada numa prancheta se instalou em uma mesa de plástico da Kaiser. Confirmei que a primeira partida da tarde seria mesmo do Ajax e ouvi a reclamação de “nem chegaram ainda, aí vai atrasar todo o resto dos jogos e vamos gastar com iluminação”. Quando voltei para mais perto da arquibancada, vi um jovem vestindo calça jeans e camiseta vermelha, sentado de costas para mim e ao lado de um piá de uns oito ou nove anos. Tomavam Coca-Cola e Fanta Uva. Dei a volta, vi a semelhança com Damião e não tive dúvida: “Edimar?”

Infância com Damião

O irmão de Damião tem 23 anos, um a mais que o ídolo colorado. A família é natural de Jardim Alegre, município agrícola localizado na área central do Paraná, mas quando os meninos ainda eram pequenos, o pai Natalino trouxe a família para São Paulo e se instalou no bairro da Zona Sul onde mora até hoje com Edimar. Foi no Jardim Ângela que o futebol se tornou a principal diversão dos irmãos. “Meu pai levava eu e Leandro todos os domingos para assistir os jogos em campo. Ele incentivava. Durante a semana nós treinávamos na escolinha, mas não sempre”, corrige ao lembrar que a criação “foi dentro de casa, sem muita zoeira, sem bagunça”.

A dupla percorreu por vários anos as ruas e campos da região em busca de peladas onde pudessem atuar lado a lado. No olhar de Edimar é possível perceber a saudade quando fala do irmão, de quem sempre foi grande amigo. “Estudávamos no mesmo colégio e nos encontrávamos no intervalo. Nunca disputávamos vaga em time. Ou entravam os dois ou nenhum entrava”, relembra. “Nossa brincadeira sempre foi jogar bola. Na rua, no campo, na escolinha. Nem gostávamos de outro esporte.”

As discussões e brigas normais entre irmãos eram resolvidas rapidamente. “Nunca teve porrada na cara do outro nem essas histórias que a gente ouve sobre outros irmãos. Briga é uma coisa normal, mas aí tem que resolver logo”, ensina o mais velho de acordo com o método passado pelo pai. “Fomos criados no ‘brigou, resolve’. Para não ficar depois aquela mágoa. Edimar lembra que nunca foram de aprontar muito e que, na verdade, eram bastante tímidos em relação às outras crianças da região. “O Leandro até era melhor para conversar com o pessoal, mas éramos bem quietos.”

Nos dias que entravam em campo para algum jogo no bairro, a parentada seguia os garotos e fazia torcida. “Minha família toda acompanhava. Desde pequeno, lembro do meu pai, das minhas tias e até da minha avó torcendo. Os companheiros de time ficavam tristes porque nossa família era a única que estava lá, mas gostavam de ouvir a torcida.” A família de Edimar e Damião é “católica de frequentar a igreja”. Há ainda outro irmão que mora no Paraná e mais dois pequenos só por parte de mãe, que moram no Centro de São Paulo e com quem Edimar não tem muito contato. Depois que Damião saiu de casa para jogar futebol, a casa de três cômodos é dividida entre ele e o pai. Uma das tias torcedoras mora na parte da frente.

Fim do sonho

Quando Leandro Damião viajou para Santa Catarina, Edimar ficou sem seu companheiro de time. Era o fim do entrosamento construído ao longo dos anos, das comemorações conjuntas e das longas horas de comentários das partidas já dentro de casa, junto com o pai Natalino. Há quatro anos, enquanto recebia notícias do irmão em Santa Catarina, aguardava a sua chance de tentar a sorte. Havia jogado bola a vida inteira, era destaque do time amador e campeão do maior torneio juvenil do país. “Chegou uma fase em que eu acreditava que seria jogador, mas meus familiares começaram a dizer que estava na idade de trabalhar”, recorda.

Após três meses, quando Damião já jogava no time profissional do Atlético de Ibirama, a chance de Edimar apareceu. “Fui para Santa Catarina fazer teste no XV de Indaial, que na época ainda era amador, e passei.” Foram três meses morando em alojamento e recebendo ajuda de custo de cem reais até que, no meio da preparação, “chegaram uns atletas de Porto Alegre e não tinha mais espaço para todo mundo. Na lista de dispensa estavam meu nome e do meu primo.”

Era apenas o primeiro teste em busca do futebol profissional, mas suficiente para Edimar deixar de lado o sonho de infância. “A partir do momento em que fui dispensado, eu desisti. Precisava trabalhar e não tinha como conciliar futebol com emprego”, afirma Edimar. “Eu gosto muito de futebol, adoro quando chega o fim de semana para jogar uma bolinha. Mas agora é apenas uma diversão. Profissionalmente não penso mais.”

Pouco tempo depois, o time de Indaial chamou novamente Edimar, mas ele se manteve firme na decisão. “Eu estava empregado, com carteira registrada. Não podia largar tudo para ir lá sem nenhuma garantia. Gosto das coisas um pouco mais concretas.” Para ele, virar jogador profissional exige sorte. São vários os craques do futebol mundial que tentaram, por mais de uma dezena de vezes, passar pelas peneiras dos profissionais. Acompanhando de perto a ascensão de Damião, Edimar sabe que é preciso persistência para prosperar quando você vem do futebol amador, e não das categorias de base de um grande clube. “Se não treina e se prepara sempre, logo perde o físico, fica acomodado e sem vontade.”

De volta para a casa de seu Natalino, Edimar trabalhou como garçom em uma pizzaria não muito longe e depois conseguiu emprego como vendedor de peças de computador. “Trabalhei dois anos e quatro meses com isso e gostava. Conheço bastante de montagem e manutenção de computador”, afirma. Atualmente é recém contratado de uma empresa que presta serviço de telemarketing para diversas marcas. O emprego é no centro da cidade e, com o trânsito do fim do dia, Edimar leva até duas horas para percorrer de ônibus o trajeto. Algumas vezes encara o desafio das pistas perigosas e movimentadas com sua moto, aquela que gerou a comemoração “motoqueiro” de Damião na vitória contra o Emelec, pela Copa Libertadores deste ano. Ele esclarece um equívoco divulgado pela imprensa: “Não sou motoboy. Nunca trabalhei de motoboy. Só tenho a moto.”

O rapaz tímido, muito gente fina, prefere ficar em casa na companhia do pai e da namorada a fazer festas com amigos. “Não sou muito de sair. Não fumo e nem bebo. Sou mais caseiro mesmo, evito baladas.” Além de jogar na várzea nos finais de semana, Edimar passa o tempo livre conversando com amigos no MSN, olhando as atualizações dos seus contatos no Orkut e fazendo um pente-fino pelos principais sites de esportes em busca de novidades sobre o irmão artilheiro, orgulho da família.

A primeira foto é de Arquivo Pessoal

(continua)

André Schröder, especial para o Impedimento

Publicado em Clubes, Colunas, Reportagens. ligação permanente.

27 Respostas a Damirmão – parte I

  1. Volkart diz:

    Tá, e a pergunta que fica: é bom de bola? Genética tem…
    Aí ó colorado, abre o olho!

  2. col diz:

    Cada vez admiro mais o Damiao e sua familia. Show de bola a reportagem.

  3. Glauco Caon diz:

    Bah, muito legal… esperamos o restante!

  4. Camilo diz:

    Parabéns pela reportagem, ficou muito boa!!! Esperamos ansiosamente a sequencia!!

  5. Grande Impedimento.
    Será que o Damirmão não quer fazer um teste num clube que veste verde, ali na Zona Oeste. Estamos precisando de um 10, e nem tem problema que torça pro rival que usa preto e branco, desde que jogue bola.

  6. oPaivas diz:

    E assim nasce mais uma lenda urbana!
    Diziam que o irmão do Falcão jogava muito mais que ele :-o
    Agora tem o irmão do Demonhão, que provavelmente não veremos jogar, mas que certamente surgirá quem diga que ele era melhor…
    Magia de futebol também é isso.

  7. Gerhardt diz:

    sinceramente, eu só esperava que o ELEITO já tivesse estendido um dedinho mais “polpudo” para o irmão “tão irmão” não pegar mais esse buzão varzeano.
    esses não devem ser os fatos completos.

  8. dante diz:

    que massa, xireda, parabéns!

  9. Cícero diz:

    que reportagem. Mais uma lenda urbana [2] entre tantas outras.
    se pá, podiam testar ele no lugar do Andrézinho.

  10. Guilherme Dorneles diz:

    E só agora eu fico sabendo que o irmão do gênio Damião joga em um campo DO LADO da minha casa….

    Sou um perdedor e em breve estarei lá assistindo o DAMIRMÃO!

  11. mauribrum diz:

    Agora imagina se ele é mesmo melhor que o irmão. Num mundo com dois DAMIÕES yo ya no podría más vivir.

    No mais, grande reportagem.

  12. mauribrum diz:

    Aliás, Copa BLACK POWER desde já está no top-5 de melhores nomes de Copas.

  13. arbo diz:

    corinthiano será?
    massa a reportagem, esse cara tinha q jogar bola, certo q ainda é tempo.

  14. Alexsander diz:

    Impedimento >>>> ABISMO >>>> Imprensa esportiva tradicional.

  15. Gonsa diz:

    XIREDA > FUTBEACH > LEANDRO DAMIÃO
    Quero a próxima logo!

  16. Godo diz:

    Copa BLACK POWER desde já está no top-5 de melhores nomes de Copas [2]

    Impedimento >>>> ABISMO >>>> Imprensa esportiva tradicional [2]

  17. tiago diz:

    é sim viu ,o damião joga muito .mas o irmão joga 2 vezes melhor que pena que não teve a mesma sorte do irmão ,,,ha o primo joga muito tbm viu ,,

  18. oPaivas diz:

    Mas será o pé do benedito que ninguém então vai pegar o damirmão pelo braço e OBRIGÁ-LO a mostrar que é melhor?????

  19. arbo diz:

    mas será q ninguém se deu conta q ele não PRECISA ser MELHOR. se jogar um quinto do joga o irmão, na meia cancha, já tá bom demais.

  20. matheus diz:

    porra velho tudo de bom pra esse guri serio mesmo… no mais bom texto!!

  21. celso diz:

    Po! Muito massa a reportagem, espero a continuação. Pense no entrosamento….e se o cara jogar mesmo bem, não tem pra ninguém.

  22. Douglas Freitas diz:

    Puta merda, é triste comparar os áureos jogos da várzea de Viamão com estes de São Paulo, com gramado sintético, iluminação e uniforme do juiz FOSFORESCENTE.

    Gremista eu sou, mas admirador de um bom goleador. E de um bom texto.

    Que venha a segunda parte.

  23. Arthur diz:

    Demais! A criação que o seu Natalino deu pros filhos transparece na humildade deles..

  24. Gostei da reportagem, muito legal e o Damirmão é talentoso.
    Muito bom
    Damião e sua familia nota 1000

  25. rosana diz:

    sou tia desses garotos e é um orgulho muito grande ve-los jogar, agora podemos ve o dimas (edimar) jogar no domingo de manhã e o le (damião) jogar a tarde na tv…os amo muito…como digo sempre a eles titia ama muito….obrigada pela reportagem ficou muito bom…

  26. Raphaela diz:

    Belíssima matéria!!!

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