Há muito o divórcio litigioso entre os intelectuais e o futebol foi decretado por uma entidade chamada opinião pública dos bem pensantes; divórcio de direito, mas não de fato: muitas pessoas, maiores ou menores dotes intelectuais, pretensões a mais ou a menos, títulos de doutor com PhD ou o mestradinho em faculdade do interior que o valha, enfim, toda uma escumalha não consultada diverge desse divórcio, e outros consultados também, como Miguel Nicolelis, aliás igual entre os diferentes, quer dizer, um doutor que não gosta de ser chamado de doutor e reconhece suas fragilidades e o alcance de seus talentos, como, por exemplo, sua pernadepauice, que o impediu de levar a termo seu Plano A de carreira (ser jogador de futebol), constrangendo-o ao seu pobrezinho Plano B (ser homem de ciência, pesquisador, essas coisas).
Nicolelis tem lá seus defeitos, alguns graves, como o de ser palmeirense, mas não apenas não é daqueles intelectuais que, por princípio, odeiam o futebol, como, dotado de um discurso científico afinado, é um entusiasta dele, a ponto de reconhecer nos craques não apenas dotes físicos e atléticos, mas intelectuais. Com justificativas pautadas na neurociência, nos explica que jogadores de futebol são seres humanos com capacidades mentais diferentes, especiais: para ele, o craque, a individualidade vai além do corpo: ele e a bola são um só, e os cálculos tempo-espaço necessários à articulação de jogadas, dribles, passes, chutes precisos, só são possíveis em um aparelho mental superdotado.
Há muito vejo o futebol não apenas como manifestação lúdica: é uma arte que conjuga esforços e talentos humanos com o mesmo grau de inteligência que encontramos em outro gênero de espetáculo: o teatro. No futebol, porém, a técnica só se desenvolve no espaço-tempo sem previsibilidade absoluta: tudo ali é improvisação. No teatro, por maior que seja o grau de improvisação do ator, os demais envolvidos no espetáculo, como o autor, o diretor, o cenógrafo, o iluminador, etc., impõem um caminho a seguir, uma marcação mais violenta do que a comumente exercida pelo zagueiro sanguinário. Daí porque os filmes de ficção sobre futebol sofrem quando são obrigados a “encenar” determinada partida ou simples jogada: mesmo aqueles que desconhecem o jogo percebem o artificialismo do resultado.
Em meio a explicações de caráter técnico ma non troppo (o maior “defeito” de Nicolelis é ser claro e objetivo demais…), eis que o senhor Miguel cita o jogo da Copa de 1954, Brasil x Hungria, vitória húngara por 4 x 2. Depois dessa partida, uma crônica de Nelson Rodrigues atira no que viu e acerta no que viu e no que não viu, fato raro em cronistas esportivos, por maiores que sejam seus atributos lógicos e literários.
O Reacionário (é o título de uma autobiografia precoce de Nelson) professou: “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.”. Para ele, o brasileiro sofria de complexo de vira-lata, assim definido: “Por ‘complexo de vira-lata’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. E de fato, ratifica Nicolelis; jovem, pesquisador, buscando um rumo para a vida, foi desesperançado pelos colegas mais “experientes” (mais um paralelo com o futebol), segundo os quais não havia nem como nem porque produzir ciência no Brasil. Diante de tais condições, aceitas sem pestanejar por todos, inclusive pelos órgãos de governo que poderiam financiar pesquisas no Brasil, bem como empresas, lá se foi o pesquisador para os EUA.
No entanto, qual Ronaldinho Gaúcho e outros menos votados (embora em melhores condições físicas e técnicas) volta Nicolelis para o Brasil, se dispondo a viver paralelamente seus projetos nos EUA e em solo pátrio. Entusiasmado, divulga seu Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil (onde pontifica que “É hora da ciência brasileira assumir definitivamente um compromisso mais central perante toda a sociedade e oferecer o seu poder criativo e capacidade de inovação para erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva”) e cria o Instituto Internacional de Neurociências de Natal a partir dos objetivos propostos pelo Manifesto, mas também com atividades mais prosaicas (quer dizer, nem tão prosaicas assim) como prestar assistência médica a gestantes e, com isso, garantir o bom estado biológico das crianças a nascer, reduzindo não somente a mortalidade infantil, mas zelando pelo bom desenvolvimento do processo de gestação e, assim, das boas condições cerebrais que poderão redundar em humanos mais articulados e capazes – craques em qualquer posição em que joguem.
Há, porém, um projeto interessante, voltado não apenas para a Copa do Mundo (sim, Nicolelis, ao contrário de muitos intelectuais, também considera o evento importante para o Brasil), mas que poderá utilizar o evento como demonstração do desenvolvimento das atividades do instituto: a criação de um exoesqueleto que permitirá, a partir dos comandos mentais, a uma vítima de paralisia, dar o pontapé inicial na primeira partida (no Itaquerão?) da Copa.
Na contramão de muitos de seus pares possuidores de distinções “intelectuais”, Nicolelis reconhece o novo papel do Brasil diante do mundo e as possibilidades que se abrem para o desenvolvimento do país, trabalha para isso, mesmo quando alguns tentam jogar contra o próprio time, fazer corpo mole e exigir a mudança de técnico. A bola ainda está rolando.
Texto enviado por Marcos Nunes

Bom texto. Futuro Nobel. (o cientista, não o texto, hahaha)
Outro intelectual que tratou de forma competente o futebol e o Brasil é José Mihuel Wisnik, no livro Veneno Remédio (2008)
Outro cabra que atira no que vê a acerta no futebol (que não deve ter visto, sei lá) é o Winnicot, muitos paralelos entre fazer e brincar são cogitados ali. Aliás, esta conexão é lembrada no livro do Wisnik, e tb naquele outro, muito bom pela pesquisa histórica, o “Dança dos Deuses”.
eita impedimento baum sô!!!
pode?
li um livro de sua mãe, não lembro qual
Legal saber que o Nicolelis está ajudando pessoas carentes. Só acho uma pena que abdicou de fazer ciência para fazer política…
não seria melhor se todos fizessem política, Sancho?
Re 7
Claro; mas desde que não confundissem as duas coisas. Infelizmente, isso é exatamente o que Nicolelis faz.
“Só acho uma pena que abdicou de fazer ciência para fazer política…”
Discordo do Sancho, considero que as convicções políticas do Nicolelis não afetaram em nada o trabalho científico dele. Ele continua trabalhando constante na área científica. O sonho dele para a abertura da Copa de 2014 é um exemplo disso:
http://updateordie.com/blog/2011/03/25/miguel-nicolelis-o-novo-santos-dumont-faz-convocacao-no-twitter-para-a-copa-de-2014/
Acho lamentável que se confunda a convicção política de uma pessoa com o seu trabalho profissional. Por esse prisma, o próprio Nelson Rodrigues não deveria ser lido por pessoas de esquerda, o que seria uma bobagem sem tamanho.
e globo.com fazendo minuto a minuto do último dia da janela de transferências
ATUALIZEM seus BRASFOOT ATUALIZEM!!!!!!!!!!
Pênalti inexistente e cartão para o Adílson. Nada muda, senhores…
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Sancho, esse é o penalti tão reclamado pela gremistagi no primeiro tempo do grenal… lance igualzinho!
13 é, igualzinho. Vejamos: a bola tava no chão perto do gol e o atacante na frente do zagueiro indo em direção à bola. A bola não tava voando lá no bico da grande área e o atacante não se jogou nas costas do defensor. Foi só impressão.
FORA DOUGLAS hehehe
tinha um idiota no Olímpico com um cartaz assim domingo. Típico sócio gremista.
Re 9
Júnior, não jogue o bebê pela janela. Eu NUNCA disse que não se deveria ler o Nicolelis. Só quis apontar que cientista, quando escreve um manifesto, faz política. Cientista, quando afirma ser “hora da ciência… erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva”, coloca uma roupa científica sobre argumentos políticos para cobri-los de legitimidade e autoridade. Cientista trabalha na estreita e complicada esfera da dúvida na busca por verdades. Quando Nicolelis passou para a esfera da certeza e da ação, é difícil defender que seu trabalho ainda seja científico, mesmo que mantenha a forma.
Compl. 16
Claro, eu não quis dizer -nem disse- que todos os trabalhos de Nicolelis são políticos.
Re 13, 14
Eu ainda procuro as semelhanças…
18, que semelhanças?
Nos penais, Serra. Não encontro.
P.S.: Segundo tempo no Pacaembu começou bem. Pena que não conseguimos o gol.
Pura cagada…
O melhor é ver os jogadores do Corinthians RECLAMANDO DO JUIZ!
¿Jugamos como nunca, perdimos como siempre?
“erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva”. Podem ser políticos, mas são argumentos legítimos, concorda ? E no mais, atingir tais metas suscitam dúvidas de como alcançá-las, não ?
Abraço
Re 24
Já entramos na discussão política, certo?
Buenas, isso não são argumentos, mas algo como uma “carta de intenções”. Só que nem para isso serve, porque não têm sentido nenhum.
Grêmio perdeu por acefalia.
Assumo aqui e agora: sou filiado ao partido dos petralhas. Ainda bem que tô no Rio Grande, tchê. Fosse na Rússia eu seria um dos que daria a bunda pro presidente do partidão.
Fora Siegmann, Fora RBS, judeus de merda!!!!!!!!!
concordo com o sancho… soa como uma negação!
não do propósito, mas sim dos meios pelos quais um cientista DEVE ser tributário…
RELATIVIDADE
mas ainda assim sou TOTALMENTE favorável ao pleito
ehh virei um reformista…
ushuashuashuashuashuahsuahsuhausha
enquanto isso o meu Grêmio…
mas que copero o botafogo
E a galera achava q a culpa do inter era tecnico, o dorival deu uma AULA de segurar o time santista e os JOGADORES entregaram o resultado no final…. Estava sendo um inicio de returno entusiasmante e se fecha o jogo sendo o mais do mesmo do time esse ano, nao engrena e vai ficar na sula ano que vem
27, fake. Pelo teor, dá pra ter uma idéia de quem seja
Grande texto!
O Sancho está claramente sofrendo ‘de complexo de vira-lata’… rsrs
“Cientista, quando afirma ser “hora da ciência… erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa e verdadeiramente inclusiva”, coloca uma roupa científica sobre argumentos políticos para cobri-los de legitimidade e autoridade. Cientista trabalha na estreita e complicada esfera da dúvida na busca por verdades. Quando Nicolelis passou para a esfera da certeza e da ação, é difícil defender que seu trabalho ainda seja científico, mesmo que mantenha a forma.”
Ainda discordo. A ciência (e me refiro à ciência em um sentido amplo, pode ser medicina, astronomia, química, etc) NÃO PODE ficar restrita à laboratórios e fórmulas. A ciência PODE E DEVE agir em favor da sociedade. Na minha opinião, é dever de todo cientista agir para erradicar a miséria, revolucionar a educação e construir uma sociedade justa. O que motivou Carlos Chagas a pesquisar o que posteriormente seria conhecido como “mal de Chagas”? Durante muito tempo, considerou-se que pessoas pobres eram preguiçosas (Monteiro Lobato inclusive, com seu personagem “Jeca Tatu”). Depois, descobriu-se que aquela lentidão devia-se às doenças adquiridas pelas péssimas condições sanitárias e de saúde que aquelas pessoas viviam. O próprio Monteiro Lobato pediu desculpas publicamente. Houve no começo do século XX, no RJ, a “Revolta da Vacina”, em que as pessoas revoltaram-se contra a vacinação obrigatória. Hoje, não há uma única pessoa que seja contra a vacinação obrigatória.
Em todos os exemplos que eu citei, cientistas agiram politicamente e não cientificamente, se observarmos a estrita definição de agir cientificamente.
Para corroborar com a ideia do Sancho, um exemplo extremo: será que algum cientista do terceiro reich chegaria a alguma conclusão contrária à teoria da raça ariana?