El gol ahogado en el potrero

Os cinquenta mil habitantes de Melo, cidade do nordeste uruguaio, são os únicos do interior do país a poder contar com uma equipe de futebol na primeira divisão nacional. Hoje, apenas o Cerro Largo Fútbol Club sobrevive longe de Montevidéu. As tradicionais agremiações de Rivera há tempos não aparecem no futebol profissional – e tampouco o Tacuarembó, que permaneceu treze anos consecutivos na primeira divisão, atualmente figura na elite uruguaia. Não há, também, qualquer equipe de Colônia ou Rocha: os arachanes de Melo são de fato os únicos torcedores a desafiar o futebol dos bairros da capital.

Na terceira temporada na primeira divisão, o Cerro Largo notou rapidamente como seria mais difícil manter um futebol competitivo a quase quatrocentos quilômetros de Montevidéu. No plantel da equipe, abundam jogadores de Melo e das cidades vizinhas, com exceções de uns poucos brasileiros e de um par de atletas com maior rodagem no futebol oriental. Como se fosse pouco isso de disputar um campeonato em que todas as outras equipes praticamente não têm qualquer gasto com viagens e hospedagens, os melenses ainda mostraram-se teimosos: decidiram que receberiam o Peñarol no Estádio Arquitecto Ubilla, e não aceitariam a mudança de palco da partida para o Estádio Centenário, como costumeiramente se faz para arrecadar algo com a bilheteria.

Para convencer os cartolas do futebol uruguaio foi todo um drama – o Ministério do Interior, que realizou uma inspeção no estádio de Melo, listou reformas que custariam cerca de 300.000 pesos (quase trinta mil reais) ao Cerro Largo. Mais do que levantar grades, consertar degraus e investir nos vestiários, seria preciso inclusive pagar pela viagem dos cavalos utilizados pela polícia de Montevidéu até Melo. Nem valeu a argumentação do presidente do clube, Ernesto Dehl, de que, sim, existem cavalos e polícia montada no interior do país – da mesma forma, era preciso custear o passeio dos cavalos criollos da capital pelo interior uruguaio. Durante a última semana, duvidava-se das possibilidades do confronto não ser disputado no Estádio Centenário; no entanto, dia após dia se trabalhou para a primeira vez do Peñarol em Melo e, enfim, a cancha foi habilitada para o último domingo.

Iluminado por um forte sol, o campo de jogo apresentava inúmeros reflexos para quem mirava desde as tribunas; tudo porque a tormenta do sábado anterior ao jogo havia deixado inúmeras poças d’água pelo gramado do Arquitecto Ubilla. Havia tanta água que o árbitro Darío Ubríaco decretou logo que adentrou o campo – se não houver jeito de secar os pontos mais encharcados, não haverá jogo. Desprovido de qualquer espécie de drenagem e prejudicado por largas horas de chuva, o gramado teve de passar por técnicas algo rudimentares. Armados com colchões velhos, como mostra a sensacional foto acima, funcionários do Cerro Largo e do município tiveram que secar a grama manualmente – se não com resultados práticos, ao menos para convencer na base do esforço e da piedade o árbitro do jogo. A festa que Melo havia armado de fato não poderia ter fim justamente em um dos elementos mais comuns do futebol interiorano: o barro dos potreiros.

É verdade que em certos setores do campo era de fato impossível trocar mais do que dois passes consecutivos, mas também é preciso dizer que o charco venceu com certa facilidade as representações de Peñarol e Cerro Largo, que igualaram sem gols em Melo. O aurinegro, que terminou a partida com nove jogadores em campo, perdeu um pênalti com Zambrana e viu o Danubio, única equipe que venceu as três partidas, assumir a ponta do Torneio Apertura. Nas duas primeiras rodadas, o Peñarol havia vencido o Bella Vista e o El Tanque Sisley com rompantes de bom futebol do seu ataque – setor liderado pelo veterano centroavante Marcelo Zalayeta, dono de três gols em três jogos. Mas se o duelo entre aurinegros e arachanes era o mais aguardado em razão da expectativa que viveu o interior, a partida entre Nacional e Cerro, disputada no sábato, era a que possibilitava o confronto mais equilibrado.

Quase tão populosa quanto a cidade de Melo, a Villa del Cerro, um dos maiores bairros de Montevidéu, entrincheirou-se na fortaleza do Club Atlético Cerro para receber o Nacional – confronto que, se não é propriamente um clássico, apresenta certa rivalidade. O Nacional do agora técnico Marcelo Gallardo buscava a primeira vitória no certame, enquanto que o Cerro era um dos líderes com duas vitórias em dois jogos. Entretanto, a mesma tempestade que inundou os campos de Melo havia caído – quem sabe até com mais força – também em Montevidéu. Sob o risco meteorológico de uma “tormenta elétrica”, tricolores e villeros tentaram jogar futebol em um cenário inviável. Até agora, ninguém entendeu porque o árbitro Héctor Martínez não suspendeu a partida em uma tarde de chuva incessante e de numerosos açudes que se apoderaram do Tróccoli. Outro zero a zero de equipes derrotadas pelo barro acabou sendo inevitável.

Na terceira partida interessante da rodada, Wanderers e Bella Vista protagonizaram o “Clássico do Prado” no Parque Viera. Mais além da rivalidade, esperava-se muito de Antonio Pacheco, a grande contratação do clube bohemio e que já havia marcado dois tentos na estreia. Guiado por Pacheco, o quadro local goleou o Bella Vista por 4-0; o próprio Tony ganhou todos os aplausos do Prado por um golaço de falta que rendeu um espontâneo grito do público: “gracias, Aguirre!”, uma alusão ao técnico do Peñarol, que dispensou o atacante.

Como na rodada havia o risco de enfrentamentos entre torcidas, o bafômetro foi utilizado em algumas canchas. Destaque para um experimentado torcedor do Cerro que, indignado, lamentou ficar de fora por “duas taças de vinho que tomou com o churrasco”. Nas tribunas, de qualquer forma, houve paz: em uma das poucas tentativas de desordem, um alvoroçado torcedor do Nacional foi impedido pelo próprio presidente do Cerro de roubar uma bandeira nas tribunas molhadas. Ao fim e ao cabo, Nacional e Peñarol acabaram sufocados pelo barro das canchas secundárias da República Oriental.

Iuri Müller

Publicado em Colunas, Nacionais, Pela América. ligação permanente.

13 Respostas a El gol ahogado en el potrero

  1. Raphael diz:

    Parece que o Wanderers é o que tem jogado o futebol mais bonito até então. Pelota al piso, triangulações e o talento do Tony Pacheco coordenando a molecada.

  2. FERN diz:

    enfim um relato de um dos maiores torneios do mundo

  3. Sancho diz:

    Há um preconceito dos capitalinos com o Interior evidente no texto do Müller. Soma-se ao desconforto do Peñarol de ter que viajar, e tem-se esse monte de barbaridades exigidas ao Cerro Largo para receber o jogo.

    O futebol uruguaio sempre foi dividido entre capital e interior. Sem ligação nenhuma entre eles até o final da década de 1990. Parece que nesses 13/14 anos, a interiorização ainda não surtiu o efeito desejado.

  4. J Petry diz:

    Melo é o mais longe que já estive do Brasil. Cidadezinha aprazível.

  5. Sapo diz:

    Primeira vez que ouvi falar de Melo foi no filme “El baño del papa”… Sem julgar os méritos do filme, que eu gostei (apesar de ter me deixado triste), mostra que o povo de Melo é lutador e esperançoso, e não seria um dilúvio um dia antes do jogo que impediria o jogo de acontecer. PS> Tomara que tenha banheiro no estádio…

  6. Sancho diz:

    Um amigo meu foi jogar basquete em Melo. Toda a cidade foi para o ginásio.

    Ele se sentiu na NBA.

  7. Junior diz:

    Aproveito o tema para falar de um uruguaio: o Forlan foi para a Internazionale por 5 milhões de euros. Esse valor é bem possível de ser pago atualmente por um dos grandes clubes brasileiros com a ajuda dos Sondas, Unimed’s e Traffic’s da vida. O Alex foi para o Corinthians e o Luis Fabiano para o São Paulo por menos que isso, por exemplo. É impressionante a falta de qualidade dos cartolas brasileiros.

  8. Ismael diz:

    Que maravilha de post Iuri! Ainda to tentando imaginar a galera “secando” o gramado com COLCHÕES!!!

  9. Juan diz:

    mucho mani tostao en frias tardes de domingo comi viendo “el bella el bellaaa!!”… não por que fosse torcedor, mas pelo fato do pai de um amigo ser sócio e podiamos entrar de graça no velho Parque NASSAZZI…

  10. Juan diz:

    a fonetica me traiu: parque Nasazzi (acho)..

  11. douglasceconello diz:

    Só faltava os cavalos precisarem ir de voo fretado também. Desde já, Cerro Largo campeão moral (ns).

    O que não há de infraestrutura nos estádios é facilmente compensado pelo CHARME. Lodo na cara cria caráter.

    Baita post, Iuri.

  12. Pois é Sancho, de fato, estive em Mello para jogar basquete, em 2003 e 2004, e tivemos uma recepçao de NBA por parte dos melenses. Trata-se de um povo sensacional, simples e que acolhe o visitante muito bem, como em todo Uruguay aliás.

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