Um azul pouco menos desbotado

Foi o primeiro Atlético x Cruzeiro em que fui ao estádio desde o fechamento do Mineirão, este quinto clássico jogado em Sete Lagoas. Com a presença de apenas uma torcida, naquele estádio que os dois times relutam a assumir como sua casa – tão logo escutam vaias, Galo e Cruzeiro transferem os jogos seguintes para ainda mais longe da capital, para Ipatinga ou Uberlândia, esperando ter o apoio que não merecem. Aquele verdadeiro clima de clássico, de ver duas torcidas dividindo o espaço, enchendo as arquibancadas horas antes do jogo para trocar provocações, só o teremos de volta em 2013 com a reabertura do novo e asséptico Mineirão.

Dentro de campo, o Atlético começou o jogo em um 3-5-2 mal disfarçado, com Richarlysson fazendo o lado esquerdo da zaga e dando aos laterais (Serginho improvisado na direita, o jovem Eron) alguma liberdade ofensiva. Quatro dias antes, contra o Botafogo, o recém-contratado Triguinho havia sido o titular da lateral-esquerda mesmo sem ter feito nenhum treino com os novos companheiros. Ontem, sequer foi relacionado para o banco de reservas. E foi uma falha justamente no lado esquerdo que proporcionou ao Cruzeiro o gol no início do jogo, aos 12 minutos: em uma saída de bola errada, Wellington Paulista roubou e lançou Montillo, que entrou na área sozinho, saltou o goleiro Renan Ribeiro e acompanhou a bola ate a rede.

O time celeste, que só não está em crise porque o rival está em situação muito pior, estava mais bem postado em campo, mas poucos minutos após o 1 a 0 Wellington se contundiu. Papai Joel colocou em campo Charles, um terceiro volante, adiantou Montillo e desmontou a articulação entre meio de campo e ataque. O Atlético passou a dominar o jogo, mas sem ameaçar o gol de Fábio. Quando a bola chegava, os atacantes Guilherme ou André estavam sempre cercados por três defensores.

No segundo tempo, as entradas de Daniel Carvalho e Neto Berola em lugar dos improdutivos Caio e Eron melhoraram o Galo, que apostou em bolas alçadas na área e na velocidade de Berola sobre o veterano Gilberto. O empate veio em um lance isolado, um chute de longa distância de Filipe Soutto, aos 11 minutos. O time treinado por HARDY HAR-HAR (Oh dia, oh azar!) estava próximo da virada, teve a melhor chance em um chute forte de Magno Alves (que havia entrado na vaga de Guilherme) em um rebote que foi salvo por um joelhaço de Gilberto. Mas o ímpeto alvinegro não durou até a metade do segundo tempo, quando Daniel Carvalho e Neto Berola perderam o gás – fato corriqueiro aos dois, não suportam mais que vinte minutos de jogo – e Roger Secco foi substituído por Ortigoza.

Novamente com dois atacantes em campo, jogando abertos, o Cruzeiro prendeu os laterais atleticanos no campo de defesa. O Galo perdeu a vantagem numérica que teve algumas vezes em jogadas pelas pontas, não era capaz de tabelar pelo meio da zaga, e com dois zagueiros lentos poderia ser presa fácil para um contra-ataque. Esse contra-ataque foi esboçado duas ou três vezes, mas Ortigoza e Anselmo Ramón lembraram-se que eram exatamente ORTIGOZA e ANSELMO RAMÓN e não conseguiram sequer concluir a gol.

O empate já parecia certo aos 43 do segundo tempo quando Montillo, o único/último resquício de talento em campo, roubou uma bola da defesa adversária, driblou Léo Silva na intermediária com muita facilidade e dali mesmo executou um arremate rasteiro e fraco, porém certeiro, do qual Renan Ribeiro só conseguiu segurar a MOELA.

O 2×1 azul no placar levou o Cruzeiro à liderança do segundo escalão da tabela, cinco pontos atrás do Palmeiras, sexto colocado, dez atrás do líder Corinthians e nove à frente do Atlético Paranaense, líder da zona de descenso. Com a lojinha em franca liquidação (Thiago Ribeiro, Gil e o sub-20 Dudu foram vendidos nas últimas semanas), o Cruzeiro não parece ambicionar grandes vôos no segundo turno. Mas pode brigar no alto, caso Montillo e Roger (que se mostra um ótimo complemento ao argentino) consigam extrair alguns gols dos atacantes que sobrevivam à tal janela de negociações.

Já o Atlético conseguiu terminar o turno com apenas 15 pontos, campanha dois pontos inferior à de 2010, e precisa começar praticamente do zero. Os goleiros falham muito, a defesa não marca, o meio-de-campo não articula jogadas, o ataque não faz gols, jogadores contratados não conseguem entrar em forma, os pratas-da-casa não se firmam como titulares. O técnico que assumir o time no lugar de Cuca (que se ainda não foi demitido, será em breve – são seis derrotas em seis jogos) terá sucesso apenas se sua comissão técnica for composta por um padre exorcista, um pajé e dois pais-de-santo. O cenário é de terra arrasada.

Paulo Torres

Publicado em Brasileiro, Colunas. ligação permanente.

6 Respostas a Um azul pouco menos desbotado

  1. douglasceconello diz:

    Sei que o rabo da porca ainda está só MEIO torcido, mas a atuação do Galo ontem foi de time que está se despedindo. Aquela coisa desesperadora de dominar, pressionar, chutar, MOER e não sair nada de bom.

  2. m diz:

    há um tempo, até achei que o galo tinha uma molecada interessante com quem trabalhar (giovanni augusto, bernard, filipe souto, renan ribeiro, os dois guilhermes), havia contratado bem e poderia dar algum trabalho. vendo o time ontem, imagino que alguns flashbacks de 2005 já estejam atrapalhando o sono da torcida.

    e montillo maior que tudo. contratem ele pra sempre. que cara foda.

  3. A molecada parece ser boa de bola, mas precisa ter referências no time – e nosso capitão tem sido o calado Réver ou o incompetente Richarlysson, daí dá para ter uma ideia. E precisa sequência de jogos, o entra-e-sai do time já queimou um Renan Oliveira (que ano que vem vai arrebentar em algum outro time), e queimará outros.

    Flashbacks de 2005, não tenho, ainda. Em 2005 foi feito um esforço enorme em prol do Projeto Arapiraca, era um tiro no pé a cada técnico dispensado, a cada mudança na escalação. Esse ano as coisas vão fluindo com muito mais naturalidade. (Ou seja, vamos cair com mais facilidade e sem tanto drama.)

  4. JB diz:

    Nando Gross em chamas com a declaração do Sigmann pro Prestes e pro Milton no Sul21!

  5. Branco diz:

    Muito boa a cobertura do Impedimento pra essa rodada do brasileirão. Podia virar rotina essa idéia de ter vários textos, um sobre cada jogo.

  6. Gelso Job diz:

    #5 Concordo! O Impedimento está dando uma aula de como fazer comentários inteligentes sem a falsa imparcialidade. Parabéns!!!

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>