O menino ainda não tinha completado cinco anos. Era um sábado à tarde, estava frio e o pai ligou o rádio do carro, que pegava muito mal as emissoras de São Paulo, mas permitiu ouvir, em meio aos chiados, um grito de gol.
- Do Palmeiras! – gritou o locutor.
- Oba! – comemorou o menino aboletado no banco de trás do Fusca branco, a álcool.
- Quanto será que está?
- Espere um pouco, escute o locutor falar – respondeu o pai.
- Quatro para o Palmeiras, zero para o Náutico – respondeu imediatamente o locutor, para deleite do menino, que não queria descer do carro, mas ficar escutando o jogo, mas seguiu a “recomendação” materna. Por sorte o compromisso foi rápido, e deu tempo de a família voltar ao carro para escutar mais um gol, que seria o sexto. Palmeiras 6 x 0 Náutico. Ótimo, pensou o menino, que ainda tinha na cabeça a lembrança de uma derrota por 3 a 0 para o mesmo Náutico, algumas semanas antes, gols que ele tinha visto nos Gols do Fantástico ao lado do padrinho e dos primos, os três que queriam porque queriam torná-lo palmeirense.
A decisão só não estava totalmente tomada porque havia um tio são-paulino pentelho (há um em cada família paulista), cunhado da mãe, que gostava de fazer a cabeça do menino. “O Palmeiras não ganha nada, o São Paulo é que é bom, é time de chegada” e blábláblá. A mãe se dizia palmeirense, mas se mantinha discreta e, como a maioria das mulheres naquele tempo, não falava muito sobre futebol. O pai tinha um quê de são-paulino, mas negava, e se dizia admirador de futebol e torcedor do São Bento de Sorocaba.
O menino até chegou a se deixar fotografar todo de uniforme tricolor, mas manteve a questão em aberto até aquela tarde de fria de sábado, até um jogo sem importância contra um adversário qualquer.
(Sem importância mesmo: o jogo em questão, em 23 de abril de 1983, valeu pelo Grupo Q da Terceira Fase do Campeonato Brasileiro – aguante formulismo!. O Palmeiras terminou atrás de Santos e Vasco, que avançaram para as quartas de final, e ficou pelo caminho. Os gols, apenas para registro, foram de Cléo (2), Carlos Henrique, Carlos Alberto Seixas, Vágner Bacharel e Batista.)

Jorginho “Pé-Frio”, o primeiro ídolo do
menino, saiu do Palmeiras sem ser campeão
- Oportunista! Escolheu uma vitória por 6 a 0 para torcer para o time! – acusarão.
De fato, o menino pode ter pensado em dar uma de esperto, “vou torcer prum time que ganha de 6 a 0”, mas a história mostra que não foi bem assim. Tanto que título, título mesmo, no duro, o menino só foi comemorar já não tão menino, aos 15 anos, em 1993, depois de seguidas decepções, desde o XV de Jaú à Ferroviári, passando por Inter de Limeira e Bragantino. Mal ele sabia que depois viriam o Ceará, o ASA de Arapiraca, o Goiás…
Hoje, 28 anos depois daquele 6 a 0, o menino que já não é mais menino e já tem em casa outro menino, pra chamar de seu e tentar enfiar goela abaixo dele a mesma paixão, se lembra de sua escolha com um sorriso. É verdade que, se ele fizer um balanço de alegrias e tristezas, a segunda opção deve vencer em quantidade, mas não há má recordação que apague a sensação de alegria inesgotável daquele 12 de junho de 1993, o “Epa! Como é que eu comemoro?”. O êxtase pelo título da Libertadores com direito a virada nos pênaltis, as alegrias por cada vitória sobre o Corinthians e o São Paulo do tio pentelho, a sensação de alívio que acompanha as sofridas vitórias por 1 a 0 com gol de cabeça aos 40 minutos do segundo tempo.

Otime que fez o menino gritar “é campeão” pela primeira vez
A arrogância pelos massacres do time dos 100 gols que não ganhou nada de relevante, mas encheu os olhos, a música para os ouvidos que era o chororô dos adversários de “esquema Parmalat”, a sensação de piano arrancado das costas e as lágrimas no gol do Edmilson (onde anda?) que selou o título da Série B em Garanhuns. A estupefação com o gol do Correa na última rodada do Brasileiro de 2005 contra o Fluminense (abra$$o, Abelão) que nos levou à Libertadores, a vibração pelo gol-chapelaria do Alex em 2002, o gesso arrancado do teto da república com a cadeira atirada ao alto após a vitória sobre o Corinthians nos pênaltis em 1999, o sorriso amarelo com o gol do juiz contra o Santos em 1983, a felicidade eterna pelo pênalti que o Marcos catou do Marcelinho Carioca.
O brilho nos olhos a cada vez que alguém vestido aquela camisa verde faz um gol, ainda que não valha nada, como foram os de ontem à noite, 3 a 1 sobre o Vasco, presente de aniversário de grego a que o ex-menino já se acostumou, resignado. Não importa se não adiantou de nada, importa é que foi gol do Palmeiras.
Nesta sexta-feira, em que o Palmeiras completa 97 anos de fundação, deixo de lado o espírito critico quase ranzinza que a profissão me acentuou, o temor pelo apequenamento que seguidas diretorias impõem ao clube, a frustração por mais um ano sem títulos que se avizinha, a preocupação com o que será de nosso futuro. Não retiro uma palavra do que disse meses atrás, após a catástrofe no Couto Pereira: tudo que o Palmeiras hoje tem, basicamente, é sua torcida, e não sei se isso será suficiente para nos sustentar grandes pelos 97 anos vindouros. Mas hoje não é dia de falar disso. Hoje é dia apenas de agradecer e dizer que o homem de hoje não se arrepende nem um pouco da escolha feita pelo menino de 28 anos atrás.
Obrigado, Palmeiras!

Bonitaço, parabens pra vocês!
E agradecimentos ao Pena, por chutar aquela bola pra fora do Beira-Rio em 99, hehe.
“se ele jogasse lá no céu, eu morreria só pra te ver.”
obrigado por tudo, SE Palmeiras.
Texto infinitamente melhor que o time. Porém não maior que o clube, que cada vez mais se esforça para acabar com esse nosso vício, mas não conseguirá.
SCOPPIA, CESAROTTI, CHE LA VITORIA È NOSTRA.
Belo texto.
Bonito texto, che.
Depois dos duelos épicos dos anos ’90 (aquele 5a0 com o Dinho dando surra no Válber é inolvidável) parece que Palmeiras e Grêmio seguem o mesmo destino obscuro rumo ao ostracismo.
Grande Fefas.
Palmeiras de antigamente sempre me lembra de duas coisas: que era um time que realmente não ganhava nada quando eu era guri, e de um Palmeiras x Guarani, ZENON times, que vi na casa da minha avó, e que por algum motivo ficou gravado na memória – junto com o gosto do feijão dela que até hoje não foi superado.
abração.
bonita a camisa palmeirense de ontem. Lembrando 1993. Tão fácil quando os cara não inventam camisa cor de marca texto
Massa o texto!
Pela eterna dialética local, fui um pouco palmeirense nos anos 90, aquele time do Luxemburguer
Na infância é que o nego forma seu caráter futebolístico
Flamengo, Santos, Palmeiras…
O Impedimento se vendeu para a mídia do eixo! =ppp
a torcida do Palmeiras é uma das mais ranzinzas do Brasil, acho que é por causas naturais, como por exemplo grande parte ser descendente italiano. rsrsrsrsrs
Assistia os jogos do Palmeiras 98-2000, e achava Euller, Oséas e Evair os atacantes mais afudê das bandas de SP. Sem contar o Marcos catando pênalti.
Palmeiras e Gremio.
Os melhores dos anos 90 e os piores dos anos 2000.
Parabéns aos verdes e vamos ver quem supera primeiro esta fase medonha.
Belo texto! Parabéns ao porco!!!
E também fui meio palmeirense nos anos 90, mas por 2 razões simples e claras: foi o primeiro time “maloquerão” que vi jogar, em 1993 e era o grande rival do gremio! Ainda hoje é um clube pelo qual tenho simpatia (o único em SP).
Sobre o fato dos colorados simpatizarem com o Palmeiras por causa dos duelos contra o Gremio nos anos 90, lembrei de uma piadinha que costumava contar no colégio para os amigos vermelhos, lá vai:
_ Ô fulano, sabes quem é o torcedor melância?
_ Não, não sei…
_ O colorado..
_Ué, porque?
_Verde por fora, e vermelho por dentro…
Nada a ver, mas na época era bem engraçado…
Eu também nutria simpatia pelo Palmeira em função da rivalidade com o Grêmio nos anos 90.
Parabém Porco, merece esse belo texto.
Sou Palmeiras em SP também, mas desde antes dos anos 90, que só CORROBORARAM a simpatia.
“tudo que o Palmeiras hoje tem, basicamente, é sua torcida,”
vou discordar aqui – também temos as nossas glórias, que realmente não são poucas. não vou entrar no mérito de esculachar outros times aqui, como eu costumo fazer em por aí.
Cesarotti,
Eu, com meus 29 anos e palmeirense, não poderia deixar de me identificar com tuas palavras. Belo texto!
Parabéns Verdão! Avanti!
Cesarotti, se vc permitir um comentário de corintiano nesse dia, faço elogios à história, o time (não ao atual) e à torcida do Palmeiras. Se nas discussões da redação e nas mesas de bar, meto o pau no seu time, é também por respeito à tradição. Eu meço os times também pelo tamanho de seus rivais. Portanto, não posso, não e não vou diminuir o porco, que na minha época era o periquito. Parabéns por não ser time de modinha. Na história, a grande pisada de bola foi não fazer um jogo de despedida para o José Aparecido de Oliveira. Ainda dá tempo de corrigir essa injustiça.
Sou corinthiano mas muito bom o texto. Essas histórias de como se começou a torcer pra certo clube são sempre legais. Palmeiras é grande, tem história, torcida e tudo. Mas realmente deve repensar o que está acontecendo de alguns anos pra cá.
666 pessoas curtem o impedimento no facebook
que baita foto do time do zinho… até simpatizei aqui por um instante com a academia, apesar de gostar bem mais do alvinegro em sao paulo…
parabens
OFF
A Federação Catarinense de Futebol publicou nesta quinta-feira uma nota oficial que proíbe qualquer tipo de protestos contra o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, no clássico de domingo, entre Figueirense e Avaí.
Quem estiver portanto cartazes ou material do gênero será afastado do estádio, podendo ser punido por tempo indeterminado. A partida terá transmissão pela TV Fechada para todo o país.
Os protestos contra Ricardo Teixeira estão ocorrendo por todo o país devido aos vários escândalos de corrupção que o presidente está sendo acusado.
O presidente da FCF, Delfim de Pádua Peixoto Filho, que foi nomeado chefe da delegação brasileira no jogo da Seleção contra Gana, no dia 5 de setmbro, reforçou a sua aliança com o presidente da entidade máxima do futebol nacional, defendendo sua resolução e Ricardo Teixeira.
A entidade utiliza como argumento o Estatuto do torcedor, alegando que o artigo 13-A determina que “são condições de acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo sem prejuízo de outras condições previstas em lei”- IV – “não portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenofóbico”.
O confronto entre a dupla da capital será realizado no Orlando Scarpelli, às 18h
http://futebolsc.com/noticia/14873/82/fcf-proibe-protestos-contra-ricardo-teixeira-no-classico
http://www.fcf.com.br/
—
É sério isso, catarinas?
Muito bom Cesarotti…
Não tenho dúvidas que nossa geração de Palmeirenses (nascidos no começo dos anos 80-final de 70) é das mais lúcidas e sofridas ao mesmo tempo. Coisas de quem foi do céu ao inferno em 3 anos (99-02). Ou em duas décadas (93-00 x 02-11).
Parabéns a SOciedade Esportiva Palmeiras, o Campeão do Século XX.
Obrigado PALMEIRAS !!!
S ens[ó nos resta nossa torcida enquanto os velhos ratos corroem as estruturas do clube e hoje somente sua história contiue intacta, é a torcida que precisa mudar o Palmeiras agora.
>> Palmeirense: associe-se ao clube, participe, vote, fiscalize… somente assim vamos colocar o campeão do século passado, no século XXI (já com uma década de atraso).
Abraço,
FC
Cara quem tem uma torcida igual o palmeiras tem nunca deixa de ser grande não importa o que ocorra. Sou tricolor, fanático pelo Flu e sei bem o que são essas fases ruins… Parabéns pelo aniversário do verde.
“sei bem o que são essas fases ruins”.
Tá de pegadinha, mermão ? A fase ruim do flu é foi ter sido três vezes rebaixado. nenhuma libertadores, etc.
ahhahhaha, mas é que agora o fluminense está bem… não vai cair de novo, provavelmente.
belíssimo texto, Cesarotti.
Scoppia che la vitoria è nostra !
#13
A loja oficial do Inter vendeu camisetas do Palmeiras após a Copa do Brasil de 1996. Há registros nos jornais da época, podem procurar.
Nos anos 90, aliás, era comum que as lojas vendessem camisetas de outros clubes, mas quase sempre do exterior, quase nunca do Brasil. Um amigo comprou uma camiseta da Fiorentina e uma do Napoli na loja do Olímpico – que vendia mais barato que as outras, inclusive.
o gremio virou o time do cio! tá sempre no cio!! Se o fulano acertasse aquele chute ….se o juiz marcasse aquele penalti…
Nada a acrescentar: http://forzapalestra.blogspot.com/2011/08/palestra-97.html
Parabéns, gigante Palmeiras !
25.
não assino com maiúsculas, amigo.
Excelente texto. Na década de 80 sempre gostei do Palmeiras em SP, até por ter três primos palmeirenses que moram em Santos. Depois vieram os 90 e como gremista passei a odiá-lo (esquema Parmalat, biriri, biriri). Parabéns ao verdão e que junto com o Grêmio possa voltar ao caminho certo, porque esse futebol de poucos times protagonistas é muito chato.
Palmeiras hoje = Grêmio daqui a cinco ou dez anos. Se nada for feito. Zona política, tranqueiras dentro de campo, imprensa conivente para não sofrer rejeição, novo estádio de construção, interesses e $$$ duvidosos…
#22
É sério.
Chorei da primeira linha até a última. Porque um dia teve uma menina de 7 anos que se apaixonou por um time de camisa verde e branco listrada e que sofreu, comemorou, se emocionou e amou todos os minutos dos últimos 19 anos em que a paixão perdura. E assim será até os meus próprios 97. E além.
Parabéns pro Palmeiras, e olha, o que porco tá precisando mesmo é de uma boa de uma LAVAGEM.
Fora isso, o Palmeiras é perseguido pela Globo, que sempre quando transmite uma derrota marcante do porco procura torcedores mirins chorando copiosamente na arquibancada e um dia depois faz matéria no globo esporte….
Parabéns ao Palmeiras, é rival, mas também é o time do coração do meu pai, então tenho o maior respeito. Entre as minhas primeiras memórias futebolísticas estão os clássicos São Paulo de Telê x Palmeiras de Luxemburgo, jogos sensacionais, os dois melhores times da época.
Da história São Paulo x Palmeiras, prefiro esquecer de episódios como a grande briga na Copa SP de Futebol Junior e o gás no vestiário, e lembrar dos jogos na Copa Libertadores, dos clássicos citados acima e dos jogadores que passaram pelos dois, como Evair, César Sampaio, Cafú e Muller. (Kléber não, por favor)
Belo texto, com a mesma idade do colunista, posso dizer que a identidade com o texto foi bem grande, me lembrei daquele jogo que o Gaucho vai pro gol, tava assistindo no sofa com meu coroa, a alegria dele naquele momento que não valia nem uma taça, como a alegria e a lembrança pra sempre do Marcos pegando o penalti do gambazinho carioca, épico.
Valeu, galera. pelos elogios ao texto, acho que cada parmerense aqui tem uma bela história pra contar. Fico feliz ainda pelos cumprimentos dos rivais, mas ao mesmo tempo preocupado, por achar que bom mesmo seria ter o ódio de todos…
LF, creio que a loja do Inter vendia as camisas também por serem do mesmo fabricante, a Rhummell, não? Acho que o Inter teve uma fase com eles tb, que eu me lembre.
Grande texto, meu caro!
Parabéns e abraços
Grande Cesarotti.
Meus parabéns e todo o respeito aos palmeirenses. Que baita clube é o Palmeiras.
Sobre esta década maldita (para os vermelhos, não para verdes nem azuis, claro) a que vocês se referem, eu lembro de usar muito um BONÉ do Palmeiras lá por 1996.
Grande texto!
Nem mesmo aquela rivalidade ferrenha dos anos 90 diminuiram minha admiracao pelo verdao.
Parabens!
#37
ROGER SILVA e Lúcio Maldini do Sertão.
#39
sim, eram os mesmos patrocinadores. Mas a venda só começou após a Copa do Brasil. No mais, parabéns pelo texto
Minotauro é campeão de tudo.
Impedimento colorado, cade o post do Grenal, chorem rubros!!!!