Y otros serán (y son) tu inmortalidad en la tierra

Certa vez li um conto que se baseava em uma única foto. Nada mais que o momento aprisionado para sempre num pedaço de papel. Era a expressão preocupada de um zagueiro britânico marcando seu adversário. Sabendo que era o maior jogo de todos e a partir dali seria apenas o resto de sua vida. O lado descendente da montanha cujo topo fora atingido. Ángel Marcos jogava no ataque e estava muito longe da Inglaterra do conto, naquele domingo em que subiu as escadarias do Cilindro de Avellaneda vestindo as três cores do Chacarita Juniors. Mas seu instante é similar. Mesmo campeonando depois noutras paragens, nunca viveria algo tão intenso no futebol quanto a tarde em que goleou o River Plate para ser campeão argentino de forma inédita – no mesmo confronto que, hoje à noite, deflora os Millonarios na B Argentina.

A primeira chuteira que sai do túnel é a direita. Com o braço comprimido pela faixa azul de capitão, Marcos tem a fronte levemente erguida. Os olhos postos num ângulo sensivelmente acima do horizonte reto. A boca ensaia uma abertura sem esboços de preocupação. Ao contrário. Marcos está admirado. Aquele que sai de um túnel deixa para trás um caminho escavado na noite sem fim da terra, e aproxima-se de um mundo em que a luz faz as cores existirem gradativamente mais vivas. Abandona a surdez do subsolo, onde o suor das paredes e o ruído da torcida são rumorejos difusos. No ritmo dos passos, os sons e a luminosidade crescem até explodirem tímpanos e retinas de uma só vez, assim que o sol engole cada resquício da escuridão do vestiário e o bater de bumbos da torcida ocupa todos os quadrantes do estádio.

Há sessenta e seis mil pessoas naquele círculo de concreto em Avellaneda, na tarde de 6 de julho de 1969. Dali a exatamente duas semanas, o estadunidense Neil Armstrong se tornará o primeiro homem a pisar na Lua, mas os argentinos estão mais preocupados com o presidente que querem derrubar. Pouco mais de um mês antes, um levante popular em Córdoba iniciara uma crise no regime militar que governava o país desde 1966, e o mandatário Juan Carlos Onganía se enfraquecera a ponto de cair no ano seguinte. A ditadura ainda seguiria até 1973 e, antes do fim daquela década, outra mais violenta se instalaria. Mas, quando Chacarita Juniors e River Plate se enfrentam para decidir o Metropolitano, é possível acreditar que o totalitarismo está resumindo seus dias. Inclusive no que diz respeito ao domínio do grandes clubes sobre o futebol argentino.

Ao vencer o Metropolitano em 1967, o Estudiantes havia indicado um caminho. Antes dele, ninguém questionara o oligopólio de títulos das cinco equipes tidas como as maiores da Argentina. Desde a profissionalização de 1931, se o título não ficava com River ou Boca, ia para Racing ou Independiente. E, em intervalos de exatamente treze anos, caía nas mãos do San Lorenzo, campeão em 33, 46 e 59. A conquista do time de La Plata confirmou a existência de novas possibilidades para os tidos como pequenos. Na temporada seguinte, o Vélez Sarsfield também ergueria a taça. Alguns diziam estar ocorrendo uma “reforma agrária” nos títulos do futebol nacional. No entanto, acreditar que esta poderia ser a vez do Chacarita ainda demandava esperanças incomuns.

Era preciso derrotar o River, um time sedento por troféus havia doze anos. Mesmo vindos de uma vitória sobre o Racing, equipe de melhor campanha no torneio, nas semifinais, os Funebreros seguiam sendo aqueles que, na memória de todos, haviam estreado na competição levando sete a um para o Lanús. A recuperação posterior não apagara essa marca catastrófica. Era a segurança dos Millonarios. E, no entanto, Ángel Alberto Marcos está perfeitamente tranquilo ao puxar seus companheiros para o campo. Ainda não sabe que um fotógrafo vai conservar para sempre aquela partícula do tempo. Nem que sua mirada contemplativa se tornará o símbolo da vitória. Mas talvez saiba que jamais perderá a maior chance da história do Chaca.

Aos dois minutos do segundo tempo, o Tanque Horacio Neumann já terá marcado para o time de Villa Maipú em duas ocasiões. Vai abrir o placar aos doze, verá Juan Carlos Trebucq empatar para o River aos dezoito e recolocará o Chaca em vantagem antes do intervalo. A equipe de Núñez terá ficado com dez homens após a expulsão de Dreyer. Muito terá acontecido e nada terá acontecido até os dois minutos do segundo tempo. É quando Ángel Marcos dá uma razão profética à soberania de seu olhar na entrada em campo. Registrada em branco e negro pela televisão da época, a sequência é uma corrida que não teria como terminar antes da volta olímpica com a taça na mão.

Marcos é lançado desde o meio de campo e devora a grama com pressa numa extensão de praticamente cinquenta metros. No caminho para as redes, o capitão funebrero dá uma caneta no defensor Miguel López. O movimento seguinte é driblar o goleiro Hugo Carballo, alborotado na entrada da área. O líder do Chacarita Juniors avança mais alguns passos para ganhar ângulo e, num toque fraco com uma abertura perigosa, manda a bola mansa para o gol mal protegido. Ela passeia pelo campo, provoca a zaga impotente a chegar afastando, e seduz a torcida tricolor por todo o infinito-enquanto-dure de alguns segundos. E entra. O Chaca abre três a um, que serão quatro após Frassoldatti erguer o placar aos sonhos.

O River percebeu o tamanho da sua sina. Só reconquistaria um troféu em 1975. Dezoito anos, onze vice-campeonatos nacionais e um de Libertadores depois do título anterior. Até o rebaixamento de 2011, aquele era considerado o período mais duro do clube de Núñez em sua fase moderna – e a derrota para o Chacarita, um dos exemplos mais definitivos da incapacidade de aquele River triunfar. Às sete e meia da noite de hoje, o confronto se repete. Inaugura a fase millonaria como equipe de Segunda Divisão. Apenas sócios entrarão no Monumental, como parte da punição branda pelos tumultos no dia da queda. Vão à cancha sem saber o que o time precisa fazer para subir. Após as repercussões negativas, as anunciadas mudanças no formato de disputa dos torneios argentinos ficaram para uma votação em outubro.

A questão pode ser resolvida facilmente com um acesso em campo. Como na final de 1969, o River entra favorito. Na época, a revista esportiva Goles decidiu sair na frente da concorrência. Deixou a edição montada para um título millonario e foi obrigada a mudar tudo às pressas. Mais complicada por ter cores, a foto de capa não pôde ser alterada. Em sua primeira edição após a final, a Goles estampou na primeira página uma inexplicável imagem de jogadores do River Plate. Acima, numa faixa tão amarela quanto o sorriso de um editor envergonhado, anunciava: “Chacarita campeón”. Na El Gráfico, Ángel Marcos saiu em destaque. O resultado provou que ele era capaz de sustentar aquela mirada até o anoitecer do mundo. O resto da vida ser apenas o resto da vida era um preço justo a se pagar.

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

Publicado em Nacionais, Pela América. ligação permanente.

17 Respostas a Y otros serán (y son) tu inmortalidad en la tierra

  1. O clima aqui na Argentina é de primeiro capítulo de uma epopéia. Não sei o que fazer, não sei pra quem torcer, não sei o que é mais emocionante: os pibes do CHICORITA dando entrevista pro Olé dizendo que marcar um gol no Riber é o sonho da vida; ou ver Cavenaghi, Domínguez e essa gente toda jogando de graça com sangue nos olhos pelo millo.

  2. Caio Brandão Costa diz:

    1) O Chaca também continha García Cambón, protagonista de outra imagem memorável sobre o River. Mas quando já estava no Boca: foi no dia que marcou quatro gols no Superclásico, ainda um recorde individual, e no dia em que estreava nos aurizauis: http://www.flickr.com/photos/soloboca/5550447799/

    2) Esse Dreyer é o que jogou no Coritiba, não?

    3) Estou trabalhando no destacamento de outro verbete de futebolista sul-americano na wiki, e, como nos demais, usei um texto daqui – é inclusive seu, Brum (sobre o descenso do San Lorenzo). Lá no artigo do Doval :)

  3. Paul diz:

    Que baita foto, que baita história, que baita texto.

  4. Roger diz:

    clap, clap, clap,clap!!

    Totalmente excelente esses textos históricos do Maurício. deviam ser leitura obrigatória pro pessoal da RBS, Band, Correio do Povo…pra ver se aprendem…

  5. Claudio RK diz:

    Rapaz, muita gente diz isso o tempo todo, mas para mim a frase é inédita: um dos melhores textos da história do Impedimento.

  6. arbo diz:

    bá, mto afudê, brum.

  7. Luís Felipe diz:

    muito bom mesmo.

  8. beretta diz:

    Maurício Brum só não é melhor escritor porque é gremista.
    ns

  9. arbo diz:

    no vídeo parece mais uma meia lua

  10. Rudi diz:

    River perdeu ou não perdeu o mando de campo, afinal ?

  11. Rudi (o de Brasília) diz:

    Tenho um xará aqui? (não, não fui eu quem escreveu o #10)

    No mais, texto redundantemente sensacional

  12. Diogo Terra diz:

    #10

    Ainda não. Hoje, só os sócios poderão ver (e a barra, claro, eterna cúmplice). A pseudo-punição sai amanhã. Se bem que aturar a galera do Boca zoando deve ser castigo suficiente…

  13. #9 tive a mesma impressão, mas me baseei nas crônicas da época, que descreviam como ele tinha colocado a bola entre as pernas do adversário.

  14. carlos placido diz:

    camisa estilo TRICOLOR BRASILEIRO.
    alguns torcedores desse time, quando o SÃO PAULO joga na ARGENTINA, vão pro estadio junto com os são paulinos existe uma afinidade.
    até musica eles fizeram pro SÃO PAULO.
    vai lá
    vai lá
    vamos de corção.
    vamos SÃO PAULO,
    vamos SÃO PAULO,
    vamos ser campeão.
    saiu dos hinchas FUNEBREROS.

  15. dr_Inter - Paulinho Dixon diz:

    Du caraio…!!!

  16. dr_Inter - Paulinho Dixon diz:

    River Plate 1 x 0 Chacarita Jrs…
    Gol de Diaz…

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>