Não sei precisar qual foi o golpe derradeiro que sofri quanto às ilusões com o futebol. Mesmo as grandes vitórias hoje não passam de uma boa desculpa para beber com alguns amigos e quiçá, ver a noite passar acordada e buzinante pelas grandes avenidas da capital. Os dias passam e a falta de sentido só piora: as cifras se acumulam, falam sempre em pelo menos cinco zeros, os interesses conflitam, os jornalistas especulam, os empresários vendem e o torcedor…bem, esse torce, porque não há muito o que fazer mesmo.
Dia desses, no Sala de Redação, David Coimbra desabafou acerca da cobrança sobre Zero Hora relatar os desmandos e as denúncias de corrupção que cercam o Capo Ricardo Teixeira, mandatário nº1 da Copa do Mundo do Brasil e dono da porta do cano por onde escoa bilhões de dinheiro público. Disse ele que as denúncias não encontravam tanto eco porque o leitor se interessa pelo jogo, e que a podridão tira do leitor/ouvinte o gosto pelo futebol. É verdade, David, e também é verdade que há pessoas que não conseguem voltar a ser alienadas tão facilmente. Os números provam todo dia que a imensa maioria das pessoas prefere se interessar apenas pelo que rola no campo, para ver se seu time ganha ou não, e está pouco se lixando para as contratações, as especulações, as roubalheiras ou o discurso do técnico. O povo não é burro, como diria Jânio Quadros (?), mas eu sou. Eu leio as roubalheiras, as especulações, as contratações, as estatísticas e os discursos dos técnicos. E me deprimo.
Com mais tempo para apurar documentos e consultar as fontes devidas, poderia ir a fundo nos clubes e descobrir nota por nota quem deve para quem, quanto, como, quando. Precisaria de muita mágoa no coração (sim, eu posso ter mais), muitos colhões (que não andam sendo usados contra reputações alheias), disposição e tempo. Não tenho quase nada disso, e muito menos disposição. No máximo, ecoam as denúncias de outrem, como a palhaçada de dar R$ 30 milhões para a Globo e a RBS para organizar um samba do branquelo doido para sortear as Eliminatórias da Copa – e a fraude no amistoso da Seleção, entre outras tantas coisas.
Porém, o futebol não é o mesmo diante dos olhos de quem consegue ver um pouco do que há por trás de tudo. É se iludir e tocar em frente ou seguir escarafunchando até encher as mãos de lama. Estou no limbo.
Aqui no cinzento limbo, caiu nas minhas mãos um interessante artigo do Guardian. (pare aqui se não quer ler nada que cite os usurpadores). Falava sobre o Wimbledon, que pouco após deixar de ser um clube de associados e passar a ser uma empresa privada, foi transferido do sul de Londres (onde estava desde a fundação, no século XIX) para o subúrbio. Dois anos depois, o clube mudou de nome, de cores e não manteve nada da antiga história – hoje, é MK Dons. Torcedores e antigos sócios endinheirados refundaram o clube do sul de Londres com o nome de AFC Wimbledon, para tentar resgatar um pouco da história e do passado glorioso. Começaram na divisão regional (equivalente à 9ª) e em 2011, atingiram pela primeira vez o futebol profissional, chegando à quarta divisão – apenas uma divisão abaixo do MK Dons.
(pronto, pode voltar a ler)
Não me iludo ao pensar que, se fosse refundar meu time, poderia seguir um caminho diferente ao que ele é hoje. Em algum momento dependeria de um dinheiro que não tenho, teria que me vender a coisas que não quero, teria que colocar os valores do campo em terceiro plano diante do estado de coisas. Durante anos, porém, os torcedores do AFC Wimbledon tiveram uma ilusão boa: aquela que mostra que é possível, sim, pisar no calo do sistema e escrever algumas páginas da sua própria história, quando ela está a ponto de ser usurpada.
Em campeonatos de várzea, nas divisões inferiores, ainda resta um pouco dessa ilusão. Mesmo com a tentativa de impedir os times rebaixados à 3ª, o Guarany de Bagé conseguiu jogar a Copa Laci Ughini – e homenageou, antes da derrota para o Riopardense, torcedores e conselheiros ilustres que ajudam o clube a participar da competição. O Guarany não tem muita chance de pleitear grandes coisas, mas pelo menos existe, está vivo e chutando – combatendo o sistema que o tentava impedir de existir.
Todos temos o poder de revolução de um esquerdista de All Star, quando fazemos pouco mais do que comentar em blogs, espalhar a palavra, dar ideias, praguejar contra o mundo. Os de sempre, enquanto isso, estão lá, agindo com os seus telefonemas, as suas gravatas, os seus jantares e as suas relações. Se ao seu lado existe a chance de ficar no alambrado de um gramado empastado e apoiar àqueles que mantém a simples ilusão de manter a camisa de pé e seguir jogando, leva tua cerveja, teu sinalizador, teu grito e tua bandeira, pois a chance de ser feliz nesse lugar é maior do que em um camarote. E será certamente mais feliz do que em frente ao rádio, diante do jornal, ou mesmo em frente a este computador,
Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos


Belo texto! Até a vitoria,sempre
É por isso que eu torço pro Veterano do “Pira” de Pedro Osório.
Chorei.
Essa história de que o torcedor só quer saber do que acontece no campo é desculpa de jornalista esportivo preguiçoso. Entreter e dar pitaco é mais fácil que fazer jornalismo.
E todos os clubes de futebol do mundo deveriam ser clubes de bairro.
No fundo o que a gente faz é torcer pela camisa. Até transformar jogadores em ídolos é difícil, eles passam muito rápido. Agora, eu quero saber da podreira e não vou perdoar nenhum dirigente safado, mesmo ele sendo campeão.
Muito bem respondido. Parabéns pelo texto LF. Por isso, pra mim, verdade verdadeira, o futebol mais importante é a ImpedNua e, em uma esfera maior, a ImpedCopa. Não trocaria nenhum dos dois para assistir um time de empresários jogar. Primeiro porque gosto de jogar futebol, segundo porque gosto de assistir, terceiro porque gosto de beber e, em algumas situações privilegiadas, de comer churrasco. Adicione a isso um punhado de grandes amigos e a parceria de vida com minha patroa e temos aqui um retrato das coisas que me são importantes.
Concordo com o Volkart.
Futebol é tri porque dá pra juntar a gurizada pra beber, ultimamente eu prefiro jogar do que ficar vendo uns perebas que ganham 200 mil por mês errarem um passe de cinco metros.
#6 Me da um abraço, Volkart?
asashushuahsaushasuash
Esse comentário do companheiro de ImpedNuas deveria ser eternizado. É a mais pura realidade.
Bem demais nessa!
Quase fui às lágrimas.
Puta merda. Luís formidavelmente transtornado. Apoio, sempre.
Volkart me aniquilou profundamente. Quando morrer, quero que coloquem minhas cinzas na churrasqueira numa ImpedCopa.
Brilhante como sempre, Luís!
perfeito.
Excelente!
texto e comment #6 formidáveis!!!
Saudades da ImpedNua…
Vem cá, já que mencionaste o Guarany, será que os caras vão continuar nessa idéia de fazer uma terceirona, com 8 times apenas ? É um sem-vergonha esse Noveletto.
hmmm
Continuo na ilusão.
Belo texto. Revela um homem amargurado, decepcionado, talvez deprimido como o LF mesmo disse ali em cima. A ilusão é um remédio não?
Muito bom.
Me lembra de quando mandei o Inter à merda, foi em 1999, depois do 0×4 pra eles versão II, a filial, e nos meus delírios eu pensava que, se não tivesse mais saída, o lance seria fundar um novo Inter, o verdadeiro, o da torcida.
O Império Otomano me ensinou tudo o que não quero. É por isso que quando vejo o Império Carvalhiano fazendo merda tenho que gritar. Já vivi sob outro império, bem pior, um que além de fazer merda não ganhava.
Talvez o seu RT ainda esteja vivo por conta de 1994 e 2002, mas o tempo passa, a copa de 14 é a última dele. Depois ele vai roubar na FIFA e o Corinthians vai ser Heptacampeão seguido do Brasileirão.
Mas não ganhará a Libertadores.;
ótimotexto!!! e a situação dos chicos do RS melhoraria muito, sabe como? OFI ou então se algo como isso: http://www.ligapampa-divisional.blogspot.com é tão difícil regionalizar o futebol que cresceu e venceu sendo regional!!!
Excelente texto.
Retrata quase que fielmente meu sentimento em relação ao futebol.
Tanto é que repassei a meus amigos e estes, por saberem como penso e apesar da fonte creditada, pensavam que era meu.
#18
Perfeito! Comecamos ano que vem ja?
Vou ser do contra, mas achei um tanto coitadista esse texto, me me fez lembrar um leitor do Estadão que li dia desses (o discurso do cara era típico da TFP): o que estão fazendo com o nosso Brasil, nós que somos “puros” vamos ficar vendo “eles” destruírem os nosso valores, etc.
“Eles” (sejam quem for, políticos, cartolas, etc.) só estão lá porque “nós” deixamos. Não é necessário nem recorrer aos clichês de Gandhi ou Martin Luther King Jr. Meses atrás, egípcios e tunisianos tiraram ditadores do poder, exatamente hoje, sírios estão morrendo para ter liberdade. Se a sociedade brasileira não consegue tirar meros cartolas do poder de clubes de futebol ou federações, a culpa não é deles, é nossa, que preferimos nos considerar diferentes “deles”, nos considerarmos “especiais” do que fazer algo. Nenhum deputado chegou à Câmara voando, todos foram eleitos.
Há um texto do Henfil em que ele diz que vai seguir torcendo pra seleção brasileira porque ela não era (à época) dos militares, mas de quem torcia pela seleção brasileira. Não me ligo tanto em seleção, mas vale o mesmo para o meu clube. Não mudou muito, o que mudou apenas foram “Os Donos do Poder” (para fazer menção a um livro famoso).
E sei lá o motivo, mas parece que os times de empresários sempre são sacaneados por essa entidade metafísica que é o futebol nas competições mais importantes. O futebol até deixa esses times de empresários vencerem alguns campeonatos, mas no momento certo, faz alguma sacanagem com eles. Seja quando o Terry escorrega em um pênalti decisivo na final da Liga dos Campeões ou quando o São Caetano perde a final da Libertadores para o Olímpia nos pênaltis, depois de ter o título praticamente assegurado.
nem ia escrever, e nem vou, mas concordo plenamente com o Júnior, é muito coitadismo, e muita nostalgia de um tempo em que o futebol também não era puro…. É muito lamber o saco dum time da terceira divisão do gauchão, q
adoraria ser forte e estar na primeira divisão nacional…
O futebol nunca foi “puro” a partir do momento em que passou a existir o profissionalismo. Há vários livros que contam a história dos primórdios do futebol relatando isso. Os jogadores que trocavam de time (deixavam os times onde não recebiam para jogar em times que os pagavam) eram chamados de “vendidos” (que coincidência, não?). Quando o Valdomiro demorou a renovar seu contrato, foi hostilizado por alguns torcedores, o mesmo aconteceu quando o Falcão foi vendido para a Roma. É natural do ser humano pensar que no passado tudo era melhor. Aliás, recomendo com louvor “Meia-Noite em Paris”, do W. Allen, que por meio da comédia, deixa isso bem explícito. Outra recomendação, mas em oposto ao filme do W. Allen: “Meu mundo é Hoje”, música do Wilson Batista famosa na voz do Paulinho da Viola:
Tenho pensado exatamente nisso nos últimos dias.
A COPA AUDI foi o ápice desse meu sentimento. Não sou parceiro de torcer pra ENGRAVATADOS.
O texto fala de sonhos e desejos. De um futebol de ir ao estádio, de torcer como torcedor e não como cliente ou consumidor. Não vi nada de coitadismo ali em cima, somente a vontade de curtir o futebol no que ele tem de melhor. Se é pra citar filmes, peguem o piegas do Campo dos Sonhos com Kevin Costner, ou Um Homem Fora de Série, com Robert Redford, O Céu é Azul, filme sobre um garoto-prodígio do Manchester City, e até mesmo Hooligans. Todos filmes que mostram o esporte pelo imaginário do homem comum, seja pelo delírio, pela ambição, pelo sonho, pelo heroísmo inconsequente ou mesmo pela violência de gangues. Existe um time, o dos dirigentes, do estádio, da realidade, e existe outro, o do imaginário, o da torcida, o time lendário. Esse é indestrutível e mesmo que mudem o time de cidade, como em muitos filmes americanos em que os times são vendidos e os torcedores ficam órfãos e se rebelam, ele continuará existindo.
Mas tem um documentário de 2010, Straight Outta LA, dirigido pelo Ice Cube, e exibido na ESPN brasileira esse ano, que conta a história dos Raiders e sua ligação com o movimento rap e a identificação com a cidade de los Angeles de 1982 até 1995, período que durou a franquia na cidade, até o retornos dos Raiders a Oakland. A franquia acaba este ano e durante todo esse tempo a torcida formada em Los Angeles não abandonou o clube, podendo retornar à cidade em 2012. Tem mais aqui: http://www.lanceactivo.com.br/Blog/Post/PostView?profileId=40921&postId=51345
Esse documentário é muito afudê e resume muito dessa discussão profissionalismo x paixão.
vale lembrar que o popular LOS ANGELES Lakers já foi conhecido como Minnesota Lakers, se não me equivoco. mas como isso não é futebol, e muito menos latino americano, cartão amarelo prá mim!!!
o mais engraçado, para mim, são os caras que se prestam a criticar opiniões absolutamente pessoais.
‘eu não sinto a mesma coisa’ é diferente de dizer ‘esse texto é ruim porque eu não sinto a mesma coisa’.
#28
Aí é querer demais de alguns. Aquilo de “não basta não concordar, é preciso acabar com o argumento do outro”.
Muito bom o texto…
Se é criticar algum argumento, prefiro o do David Coimbra… é como se nos fosse oferecida sempre a pílula azul do Matrix (já que todo mundo está citando filmes… ehehehhe), já que ninguém está interessado em saber a verdade dos subterrâneos do futebol, apenas em saber dos resultados do seu time…
Se é PARA criticar…
Parabens Luis Felipe pelo texto e pela exaltação aos “coitados” do futebol. Impressionante como alguns não conseguem entender que é possível ter um pensamento diferente da massa globalizada. Temos todos que torcer para os times “vencedores” definidos pela mídia, mesmo que estejamos a milhas do estádio.
gostei do texto, acho q aqui ou ali pode ter dito algum clichê para o qual sempre há um clichê espelhado em oposição. não vi coitadismo, na verdade, bem pelo contrário. vi alguém q se disse no limbo, ou seja, não só sabe sua posição, mas sabe q ESCOLHE sua posição.
coitado é aquele q diz q sua posição deveria ser aquela outra e não toma pra si a responsabilidade de estar na posição q, na verdade, guarda por conformismo.
Texto maravilhoso!
Obrigado Luis Felipe!