(dia 10)
Mandei uma mensagem pro Nelcir antes de sair de casa. Agora preciso falar com ele. Sempre foi ele quem decidiu esse tipo de coisa. Ele era paranóico, mas diplomático. O Nelcir é o tipo de cara que acha que a imprensa, a direção, todos estão perseguindo ele – mas é incapaz de dar uma entrevista mais agressiva, botar o dedo na cara de alguém.
Uma vez, encaramos um caso parecido com o Beto. O nome dele era Nivaldo, era um atacante que estava há 10 anos no clube e queria ser o maior goleador da história – faltavam uns 15 gols para conseguir. O problema é que há horas ele só se arrastava em campo, enquanto uns guris da base comiam a bola. Porém, ninguém mexia no Nivaldo. Ele estava há cinco jogos sem marcar e começou a ser substituído antes dos 20 do segundo tempo em toda santa partida. Lógico, reclamou – mas pra direção, não pra gente. Quando fiquei sabendo, fiquei tão puto que gritei com ele no refeitório, na frente de todo mundo. O Nelcir me bancou, mas eu tava fudido. Duramos mais uns dois meses no clube, mas quando fomos demitidos, os caras nem me cumprimentavam na hora do treino.
Eu sei que deveria ser mais esperto. Tenho vontade, porém, de não ser. Minha vontade é encher a cara do Beto de porrada depois do pedido que ele me fez. Só que não dá. Eu preciso desse emprego, eu preciso ir bem aqui. E também preciso andar, pois o sinal tá verde e tem gente buzinando.
Quero um auxiliar. Não consigo pensar em ninguém. Eu adoro a organização do trabalho, a planilha, o acompanhamento o tempo todo, o relatório, mas preciso de uma outra cabeça pra me ajudar a pensar. Essas reuniões com empresários, as conversas com a direção, esse trabalho sacal me distrai muito. Hoje, dei um coletivo e não tava conseguindo nem prestar atenção nas jogadas, porque tinha gente me ligando oferecendo jogador. Um saco.
No coletivo, o Roberval jogou no time reserva. Como o ataque titular é melhor, ele acaba mais testado. Pegou tudo, tudo mesmo. É um guri muito bom no reflexo, além do comando de área. Só que marquei uma falta perto da área. Parei o jogo, dei toda uma instrução sobre como deveria ser o cruzamento, quem marcava quem, quem ficava no primeiro pau…e o Beto resolveu cobrar. Meteu direto para o gol. Uma bucha, em curva, no ângulo.
Fiquei puto. Parei o treino, peguei eu mesmo a bola no fundo da rede, mandei todo mundo voltar e se posicionar igual. Se eu parei o coletivo para treinar uma jogada, vamos treinar a porra da jogada. Assim treinaram, umas três vezes. O Beto riu. Vai ser difícil.
O Nelcir retornou a minha ligação na hora do almoço. Contei pra ele a situação. Deu risada, claro, uma daquelas risadas que dão carinho e que chamam de juvenil ao mesmo tempo. Disse para eu me acalmar, que se o guri era bom tinha que manter no time, e ficar atento com o que os dois andam falando no vestiário e fora dele. Isso é o que tu faria? Sem dúvida. E outra: tem um zagueiro melhor que ele? Ainda não achei. Então acha. De preferência, experiente. Se achar, ele vai começar a comer a bola e ficar bem quietinho.
(dia 11)
Não sei como dormi. Nem como acordei. São 3h55 e eu estou no sofá, tem uma garrafa de vinho do meu lado e todas as janelas estão abertas. Marcel dorme como um anjo na minha cama. Preciso me mudar aqui. Tomara que role aquela venda.
Fui passar um café para tomar um gole antes de dormir e recebi uma ligação. Sim, 4h. Na verdade, um toque: número confidencial. Ih. Um minuto depois, a mensagem: “melou tudo com o Uílquinson. Tugas pagaram 300 mil e levaram o Gílson da Ponte Preta. Ainda querem Wendel. Oferecem 100 hoje, 100 mês que vem. Pedi 200 hoje. Achei que era importante acordá-lo. Abs”. Respondi a mensagem: ‘fecha por 180. Viabiliza o clube. Não quero minha parte do rachid”. “Mas eu quero. Por isso pedi 200 querendo 250. Vou tentar o Uíl em outro lugar. Abs”.
Nunca vou entender a lógica de pedir menos querendo aumentar, mas alguns empresários sabem mais do que a maioria dos mortais.
Eu fui contratado para o Guarani por conta da minha ótima relação com empresários. Ninguém me disse isso, mas está claro. Já levei três caras, e todos eles foram bem aceitos pelo presidente. Acontece que eles todos me conhecem pois o Nelcir, na sua paranóia, nunca aceitou um convite ou trocar mais que duas palavras com um empresário em sua mesa. Eu ia a quase todas as festas, participava dos jantares, conversava bastante com eles para não expôr o Nelcir.
Várias vezes ele se fodeu por isso. Teve um ano, no Rio, em que um comentarista identificado com o nosso clube começou a nos xingar dia sim, dia também, porque escalávamos o Vavá. O Vavá estava velho, dizia ele, e precisávamos dar espaço para jovens como o Betinho e o Ademílson. Só tinha um problema: o Vavá era o capitão do time, e os dois guris ainda eram muito verdes. Faltava fundamento, faltava cancha. Eu sabia que o Vavá não estava marcando gols, mas preferia que ele ficasse no time porque era uma voz nossa no grupo – os jogadores obedeciam ele, e ele respeitava a gente. Até que um dia o presidente abriu o jogo: o Betinho e o Ademílson pertenciam a um empresário de renome, que tinha botado 1 milhão no clube nos últimos 3 anos e não viu nem 10% desse dinheiro. Então, precisava recuperar a grana de alguma forma. Propôs um acordo: os dois entravam num jogo contra um time bem mais fraco que o nosso, ‘montava o DVD’, depois tínhamos liberdade para voltar com o Vavá.
Lógico que o Nelcir não topou. Escalou o Vavá. Nós perdemos, 2×0, e o comentarista aquele sentou a lenha na gente de tal forma que quase rendeu processo. Lógico, ele tava engavetado. Não durou dois jogos, o presidente nos demitiu e na coletiva, usou AS MESMAS FRASES que o comentarista usava no rádio. Todo mundo fazia parte do esquema. Como diria o coronel Nascimento, o sistema é foda, parceiro.
O jogo contra o São Roque é amanhã. Eu achava que seria jogo treino, mas não: será oficial, a arbitragem já foi contratada, os ingressos serão 5 reais. O dono do São Roque também é meu amigo: o Edevaldo, que foi nosso atacante numa brevíssima passagem pela Bolívia. Liguei pra ele e perguntei se ele tinha alguém bom no time, especialmente pro meio campo. Parece que tem dois caras bons que viriam de graça.
Marcel confessou pra mim que adorou a cidade. Tá pensando em arrumar um trabalho e ficar por aqui. Perguntei se tem lugar pra ele no clube. No campo? Não não, no escritório. Não quero que ele vá pra bola. Tamos precisando de um office-boy, será que ele topa? Ganhando quanto? 300 pilas por mês, pq é menor de idade. Sabe andar de moto? Claro que não, porra, ele tem 14 anos. Treze, pai. É, treze. Bom, 300 pilas tá legal, é a primeira grana dele, dá para dar uma saída e comprar umas roupas boas, aqui tem muita roupa bacana.
(dia 12)
Não vai ter concentração pro jogo? Não. Mesmo esquema do outro: 12h, todo mundo no clube.
Beto chegou atrasado. 12h23, ele apareceu dando risada com uma guriazinha. Não achei nenhuma graça. “Tá 23 minutos atrasado”, disse. “Relaxa, chefe, nem começou o almoço” “Tô bem relaxado. Amanhã eu te quero 23 minutos mais cedo no treino”. “Vai ter treino um dia depois do jogo? E a recuperação?” “É treino de recuperação, porra. Não te faz. Amanhã, às 7h37, te espero no campo de chuteiras. Se chegar 7h38, vai pagar caixinha”.
Dei a palestra pra anunciar o time e o Beto tentou me pegar no contrapé. “Chefe, me diz uma coisa, fiquei sabendo que eles tem um atacante rápido e driblador, como vamos fazer para enfrentar ele?”. Eu não fazia ideia. É um time amador, porra. O Edevaldo, no máximo, me disse que tem um meia inteligente e outro driblador, e os dois podem jogar no nosso time. Eu respondi: “Tu fica na sobra e o Valtão – companheiro de zaga – vai pra dentro dele. Se tiver um 9 fincado, o Ricardo – zagueiro que eu escalei na cabeça de área – vai pra dentro dele e tu segue na sobra, o Valtão pega o 9. É assim desde 1970, eu acho”.
O jogo foi um lixo. Zezinho se consagrou: meteu 3, inclusive um deles de bicicleta. Uílquinson meteu mais 2 e nos últimos 20 minutos, eu coloquei o Yuri, que era titular, de centroavante fincado, e ele meteu mais 3. Foi 8×1, porque o Beto não me obedeceu e saiu no combate do tal atacante driblador (que existia mesmo), ele passou pelo Beto fácil e fuzilou o Roberval. Beto xingou o Roberval. Depois disse na rádio que não era culpa dele.
Até a vitória,
Luís Felipe dos Santos

Bah, muito legal este texto, mas quero ver um dia um jornalista que abra a caixa preta e escancare de vez o que é as maracutais e o submundo do futebol, por enquanto, são todos coniventes.
Essa série ta genial demais.
Paranéns, De Los Santos.
Realmente, está excelente.
D+!
1# Isso que ele tá falando de um técnico gente fina; tenho dúvidas sobre a proporção desses caras no universo real.
Sem falar que até agora ninguém comeu ninguém. O que deve ter de briga por causa de namorado nesses vestiários por aí……. deuzolivre
quando vira filme?
http://www.obairrista.com/noticia&codigo=436
Porra… Genial como todos os outros da série…
Bah, isso faz minha alegria! Melhor série!
puta texto…
aguardando continuação…. =p
OFFTOPIC – e o Dorival hein?
E a Ipanema, hein????????
Tocando Luan Santana e Restart, a partir de segunda-feira.
Choque.
Q negócio é esse de Ipanema tocando Restart e luan santana?
Carlos, vai ver o AVM saiu do Grêmio e foi para lá
http://www.tudoradio.com/noticias.php?noticia=5956
queria saber se a linha editorial do impedimento não planeja comentar sobre a subita força que os movimentos anti-texeira(CBF) e anti-del nero (FPF) tem ganho…
inclusive com denuncias no tão falado Jornal Nacional como mostrado aki:
http://www.lancenet.com.br/copa-do-mundo/preocupar-JN-registra-envolvendo-CBF_0_535146641.html
Acho que tá um tanto implícito que o Impedimento é contra esses merdas.
Se bem que nunca vi um editorial ou algo desse tipo por aqui…
kkkkkkkkkkkkkk
que o impedimento é contra “esses merdas”, eu sei. a questão é se vão dar destaque…
gostaria de ver, por exemplo, um grande texto do cecco sobre o assunto…
não que eu pague mensalidade…
vai tomá no cu, fluminense
#11 e #12
Tocou hoje.
É o fim da vida.
Essa da Ipanema ae não tava no gibi… achei que esse papo todo que tava rolando era mais uma “ação de marketing” do tipo “ovelha negra”, “a radio que não se vende”…
tá loco, só falta o impedimento se vender também e começar a falar de futebol europeu, cabelos de jogadores, cores de chuteiras, joão sorrisão e afins…