Tanta vida en cuatro versos, la Copa en Tacuarembó (Final)

De pie señores. A tevê passou os últimos dias com uma programação monotemática. O terrorismo de extrema-direita em Oslo ou a estrela da música morta em Londres aos vinte e sete anos não mudaram a agenda do noticiário. Mais da metade dos telejornais foi dedicada à Copa América. Na publicidade, é uma proporção ainda maior explorando a imagem da Celeste. A melhor peça traz uma montagem com o gol de falta de Bengoechea na final da Copa América de 1995, contra o Brasil. No vídeo original, Pablo se aproxima da bola com Enzo Francescoli, os dois juntos para deixar Taffarel incerto quanto ao cobrador. A propaganda substitui Bengoechea por Diego Forlán, que corre na direção da bola e anota o gol. Aunque los protagonistas sean otros, la historia puede ser la misma. A história pode ser ainda melhor. Hoje se sabe que o título de dezesseis anos atrás foi sucedido por penúria. Em 2011, ainda se vive a fase da confiança.  Vamos señores, de pie. Os clientes do Gamo de Tacuarembó são convocados a cantar o hino. Agora a tevê mostra a Celeste perfilada. A final vai começar.

Foi como um minuto para o bar lotar. Até os times entrarem em campo, apenas três mesas estavam ocupadas. Uma, por mim. ¿Qué te parece? A pergunta de Daniel López Moroy sobre o duelo é retórica. Os anos em que o Uruguay ficou apartado das finais foram os mesmos que o locutor esteve desligado das rádios montevideanas em que costumava narrar estes momentos. Desde que se impôs a distância de voltar a viver no interior, nunca havia sentido com esta intensidade a impotência das lonjuras numa decisão de título. Esboço um comentário sobre nada ter mudado no sentimento de que os charrúas são favoritos. Hay que jugarla, responde Daniel. Hay que jugarla. Penso em contestar que, más que jugarla, hay que ganarla, mas recordo que durante a semana quem usou esta máxima – finais não se jogam, se ganham – foi o paraguayo Lucas Barrios. Fico quieto. De repente, noto que por todos os lados há alguém com uma bandeira uruguaya nas costas e um copo de cerveja nas mãos, em pé. Orientales, la patria o la tumba.

No primeiro pontapé de Buenos Aires, já não sobram espaços vagos no Gamo para ouvir os apitos de Sálvio Spínola Fagundes Filho, no volume da televisão abafado pela cortina de ansiedade. A descrição das jogadas é um sussurro pouco audível, e ver o jogo se transforma apenas nisso – ver. Na ausência de vozes a roteirizar os acontecimentos, interpretar o que se vê pode ser impossível sem o replay. Agradeço por essa incompreensão imediata. Assim, os ânimos esfriam antes que se notem os trágicos erros do juiz brasileiro, invariavelmente prejudicando o Uruguay. Tenho vontade de comentar que sou compatriota do apitador este, mas por acidente geográfico. No tengo la culpa, perdónenme.

* * *

Tacuarembó é cidade de uma avenida só. E não no centro. As ruas centrais são estreitas, todas de mão única para aproveitar melhor o espaço exíguo, como se destinadas eternamente a receber as carretas de bois e os centauros saídos das campinas. Ergueram-se os prédios e não houve mais como aumentá-las. A avenida anacoreta é uma espécie de via de escoamento para as rutas que levam aos outros pontos do país, e seu nome é o do General Manuel Oribe, decisão curiosa quando se leva em conta a história da municipalidade. Tacuarembó foi fundada em 21 de janeiro de 1832, atendendo a uma ordem do General Fructuoso Rivera, que cumpria o primeiro mandato presidencial da história da República Oriental e queria garantir o povoamento do interior.

A vila nasceu com o nome de San Fructuoso, alegadamente por ser aquele o dia deste santo, mas sempre se suspeitou que se tratava de uma menção ao próprio presidente. Inclusive, o encarregado de instalar a sede havia sido o Coronel Bernabé Rivera, sobrinho do mandatário e tido publicamente como seu irmão mais novo. Ocorre que o Fructuoso que possivelmente deu a Tacuarembó seu primeiro nome, e o Oribe que nomeia a avenida atual, eram rivais políticos. Viviam mudando de ideia e chegaram a se apoiar em alguns momentos, mas as divergências de ambos culminaram com uma série de conflitos internos pelo poder. Em 1836, quando o próprio Oribe sucedia Rivera na presidência, os partidários de cada um se enfrentaram na Batalla de Carpintería, em Durazno.

Na ocasião, para se diferenciarem, os apoiadores de Manuel Oribe lutaram com divisas brancas, e os seguidores de Don Frutos Rivera usaram a cor vermelha. Começavam ali o Partido Blanco, que em 1872 foi renomeado como Partido Nacional, e o Partido Colorado – as duas facções políticas mais tradicionais do Uruguay, hoje tidas como excessivamente conservadoras e perdendo espaço para o Frente Amplio, de esquerda.

* * *

No dejaron que me quedase en la feria, pero he venido acá y me salió bien. Estoy a una cuadra de ellos, y ahora tengo solamente quince banderas por vender. O domingo da final começou mais cedo para Roberto Rivero, disposto a descobrir um lugar ainda mais rentável que a praça principal de Tacuarembó. Na pensão, com um biscoito em uma mão e uma caneca de café na outra, escutou que as manhãs de domingo são reservadas para uma feira de produtos regionais. Ao longo de quatro quadras, uma faixa inteira da Avenida Oribe é interditada para que os agricultores instalem suas barracas. O forasteiro e suas bandeiras não foram bem recebidos. Expurgaram Roberto do espaço habitual da feira, mas, do outro lado da rua, com o fluxo constante de automóveis, as vendas cresceram.

No início da tarde, as hastes de sustentação das barraquinhas vão ao solo. Roberto começa a recolher seus pavilhões do varal-vitrine. Tem em mente o próximo destino. O clube Estudiantes, maior campeão do futebol de várzea de Tacuarembó, vai colocar um telão para que seus sócios assistam à decisão. A ver si encuentro la dirección del club donde van a poner la pantalla gigante. Es cierto que allá me quedo sin nada.

* * *

Uma fileira de guaranis carregando arco e flecha não seria suficiente. Luis Suárez só poderia ser parado por um grupo dotado de uma mira fenomenal, ou se tivesse serpentes enroladas aos seus pés. Logo Luisito fez o primeiro. O Uruguay prensava os paraguayos contra seu próprio arco e deu vazão a novos berros confiantes na equipe Celeste. Os mais estridentes, os da certeza inescapável, vieram com o gol de Forlán fazendo dois a zero no final do primeiro tempo. O gol do desafogo, após um ano inteiro do rubio sem balançar as redes com a camisa da seleção. Aos uruguayos, mais que a certeza do título, era como se aquele lance lhes tirasse o insuportável sentimento de que, por melhor que a dupla ofensiva fosse, um deles estava enfeitiçado para que todos os seus tiros saíssem com algum desvio sem explicação.

O gol de Diego devolveu aos charrúas a convicção de que se jogava com dois goleadores de fato na dianteira. E não haveria naquela tarde, em ponto algum da América, seleção capaz de parar o Uruguay com eles. No terceiro gol, depois de um segundo tempo tranquilo, uma espera doce pelo momento da taça, ouvi um clamor diferente no fundo do Gamo. As ruas já se enchiam com a fumaça das bombinhas das crianças e, lá atrás, quase na porta que dava para a esquina, Roberto Rivero ajeitava o chapéu que lhe quisera fugir com o impulso da vibração. Sem bandeira alguma sobrando.

E de pronto um pai não quis dizer ao filho que aproveitasse bem aquele momento, pois tardes assim são raras e ele entenderia quando crescesse. E um octogenário saiu às calles se apoiando onde podia para parar em pé, já que com a mão costumeira da bengala levava agora o mastro de um pavilhão oriental. E as sonoras motocicletas da cidade eram uma sinfonia também de buzinas, na felicidade incontida de ver uma nação de três milhões de habitantes reinar sobre todo um continente. E o vendedor de bandeiras solitário, distante de casa, que naquela manhã recebera no celular mensagens de feliz dia dos pais mandadas por cada um dos cinco filhos, pôde ver como o jogo terminava. E quedar-se sorrindo como loco, também.

E por um momento todos pareciam tão semelhantes em sua alegria autêntica, unidos inocentemente pelo orgulho, que era como se fossem uma família. Uruguayos, nomás. No poema La Filadelfia real, o tacuaremboense Washington Benavides recorre à etimologia do termo Filadélfia, cidade do amor fraternal, para se questionar: ¿Cuántos kilómetros faltarán para llegar al pueblo aquel? Em Tacuarembó, na tarde de vinte e quatro de julho, já não faltava quilômetro algum.

 

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

Parte I - Parte II - Parte III - Parte Final

Publicado em Copa América, Pela América, Reportagens. ligação permanente.

27 Respostas a Tanta vida en cuatro versos, la Copa en Tacuarembó (Final)

  1. FERN diz:

    só La Celeste pode gerar tamanha poesia, pois só o Uruguay eh tão chiquito y tan GRANDE!!!

  2. Maurinho diz:

    ¡Que Grande!
    Gracias por compartir todo eso con nosotros !

  3. Volkart diz:

    Sensacional! E olha que ainda nem li, só pelas figurinhas… lerei agora.

  4. Volkart diz:

    Que final. Da Copa e do texto. Emocionante.

  5. El Torero diz:

    Muito bom, Mauricio. Parabéns pelos textos.

  6. J Petry diz:

    :~~~~

  7. J.P. diz:

    Esperei a conclusão dessa série para ler todas as partes em seqüencia. Que coisa linda!
    Com certeza algum dia irei até Tacuarembó, cidadezinha perdida no “mar verde” do Pampa habitada por pessoas dignas.

  8. Leonardo Fleck diz:

    Muito afude… Grandes textos e grandes imagens…

    Parabéns

  9. Chico Luz diz:

    sensacional. Sensacional, sensacional, sensacional.

    Já parei no Gamo para tomar uma Coca, quando fui de auto a Montevideo há dois anos. Tacuarembó é muito legal.

  10. Norteña diz:

    Emocionante.

    Uruguay, o maior vencedor percapita do futebol mundial!!!

  11. Alcemir Emmanuel diz:

    Parabens pelos post.
    Virei leitor fiel de voces
    abraços

  12. Frank diz:

    Parabéns pela série… o Maurício Brum e o Iuri Müller são muito bons… esses posts misturam reportagem, crônicas do cotidiano e até ETNOGRAFIA (eehehhehe)…

    Como li em algum lugar, o Uruguai é o único lugar do mundo em que o tempo parece ABSOLUTO… é uma mistura indefinida de saudade do passado, resignação no presente e esperança no futuro…

  13. Gabriel R. diz:

    A pergunta é: O Vítor ganha ponto com uma assistência no cartola???

  14. Frank diz:

    Algumas constatações desse jogo:
    O traíra FDP voltou a jogar bola…
    O Victor não vai para a seleção com essas falhas cada vez mais bisonhas…
    O Grêmio voltará para a segunda divisão se algo não for feito, e rápido… (o problema é o que é que pode ser feito…).

  15. Gabriel R. diz:

    #14
    O Julinho Mixaria cai na próxima rodada ou na outra e o gremio traz sexy hot…

  16. Andiño Ugiette diz:

    o gremio tem que trazer um tecnico com cara de serie B, aí talvez fique na serie A…

  17. Sancho diz:

    É 2010, tudo outra vez. Demos sorte no ano passado. E agora?!

  18. G.Albo diz:

    #15

    Se eu fosse gremista, estaria implorando por SexyHot. Todo mundo aqui sabe que o véio Juarez arrumaria esse time, levando-o até o G4 na vigésima-nona rodada e caindo para décimo até a ultima – o que é uma perspectiva bem melhor do que a atual.

    Além disso, seriam umas 8 semanas de devaneios sobre a tal imortalidade que jamais ganhou absolutamente nada, deixando a torcida embriagada e Odone feliz da vida. Todos sairiam ganhando!

    ps.: não fui irônico: realmente acho Roth a escolha ideal para o Grêmio de agora.

  19. G.Albo diz:

    Sobre Ronaldinho: certo, jogadores que não têm afeto pelos clubes onde surgiram têm aos montes por aí. Realidade triste. Mas a forma como Ronaldinho parece se esforçar para humilhar o Grêmio a todo momento é impressionante; o que foi que fizeram pro Ronaldinho no Grêmio para que ele resolvesse dedicar-se tanto em vingar-se?

  20. Sancho diz:

    Jogaram nele a responsabilidade pela saída do clube, como se tivesse fugido. O problema é que, ao que andei ouvindo, quem o levou para a Europa pagou por ele. O dinheiro, no entanto, nunca chegou no Grêmio. Faz as contas…

  21. Andiño Ugiette diz:

    20# não sei se entendi direito… mas, você quer dizer que comeram o dinheiro do ronaldinho e fingiram aquela indignação quando ele saiu?
    tenso…
    mas, acho que o que irrita mais o “cara lá” é que o gremio não teve $$$$ pra levar ele de volta pro olimpico, ele aceitou uma proposta melhor e foi crucificado por isso. pelo menos é assim que algumas pessoas dizem que ele se sente.

  22. Diogo Terra diz:

    “Se eu fosse gremista, estaria implorando por SexyHot”

    Albo, entendo teu raciocínio. Ele é escoladíssimo em elencos limitados. O problema é que, ao final do TEIXEIRÃO, o time que hoje pode ser rebaixado vai, digamos, ficar de fora da Libertadores por um ponto. Aí, os mesmos (pseudo-jornalistas e torcida) que poupam Guerreiro e Cacalo da atual crise gremista tratarão Celso Juarez como um cão sarnento. Pode me cobrar depois.

  23. Gabriel R. diz:

    Coloco minhas fixas em Altetico Mineiro e Grêmio, quem não levar o Roth cai no final do ano.. me cobrem…

    E sobre o Ronaldinho ele consegue humilhar o grêmio mais do que qualquer colorado… é impressionante… espero que no jogo entre o flamengo no beira-rio não vaiem o menino…

  24. cassiano sep diz:

    Com mais uma derrota do curintia, o Tite também pode começar a ser cogitado nesse Grenal de técnicos…
    Imaginem amigos, Tite em um, Roth no outro…….kkkkk

  25. matheus diz:

    puta cara de oitavo colocado essa campanha do inter. entre o nono e o décimo, se valer dinheiro é o que eu aposto…

  26. arbo diz:

    Maurício Brum, sou teu fã.
    Qual a próxima viagem?

  27. Pingback: Tanta vida en cuatro versos, la Copa en Tacuarembó (III) | impedimento.org

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>