Com uma dieta que depois se basearia na maior parte do tempo em biscoitos carentes de sabor e refrigerantes de pomelo, decido, na minha noite inaugural em Tacuarembó, me brindar com um prato de tallarines a la bolognesa no restobar mais perto do hotel. O interior do “El Gamo” é repleto de fotos antigas do clube de futebol local. Ao lado do caixa, pende uma flâmula com o escudo do Tacua. Há também fotografias do dono do restaurante. Muitas, em momentos históricos do futebol uruguayo. Numa delas, agarra a Copa América conquistada pelo Uruguay em 1987. Está no vestiário, ao lado de Pablo Bengoechea e Gustavo Matosas. Noutra, exibe as taças mundialistas conquistadas pelo Nacional em 1988. Dirijo-me surpreso ao homem no balcão. Lo que pasa es que soy locutor deportivo. Me llamo Daniel López Moroy, mucho gusto.
De súbito, vejo a estética das funções invertidas. E não é por conta dos dois ou três copázios de Patricia que haviam acompanhado minha refeição. A história de um repórter brasileiro em Tacuarembó (!) interessa a Daniel. Vejo-me convidado para o seu programa esportivo diário. Viro entrevistado. No sábado, estou na mesa do Todo Deporte, atração que López Moroy comanda na Rádio Tacuarembó ao lado do companheiro Marco Pereira. A vinheta valoriza o locutor consagrado. Si usted no está en el estadio / el partido igual lo ve / el relator le dibuja / la jugada para usted. Depois de a dupla fazer uma sanguínea apresentação dos vinte e dois jogadores que defenderão Uruguay e Paraguay no domingo, tenho problemas. Não se pode tornar compreensível o que não tem explicação. Fico sem termos para contar como a maioria dos brasileiros não poderá acompanhar a final do continente, porque a principal rede de tevê aberta do país segue a ideia de que nada importa sem a Seleção Brasileira. E não vai transmitir o jogo.
Antes do encerramento do programa, entra ao vivo por telefone o capitão do Tacuarembó FC. Amaranto Abascal opina sobre a decisão. Peregrino do fútbol chico, o lateral-direito nunca pôde sonhar com o selecionado a respeito do qual deve comentar. Em seus trinta e seis anos, vestiu as camisetas de Miramar Misiones, Liverpool de Montevideo, Durazno, Rentistas e Bella Vista, além da tricolor do Nacional em um momento fugaz. Costumavam ser estágios intermediários para uma passagem e outra pelo Tacua, equipe em que se tornou símbolo e para onde sempre voltou. No finzito da carreira, ostenta uma honrosa fama de incentivar os árbitros a prodigalizarem cartões vermelhos quando o veem. Paraguay es un equipo mezquino. Formamos um consenso nos mil trezentos e vinte quilohertz de amplitude modulada – os paraguayos são competentes na defesa, fracos no ataque, e vêm tendo sorte nos mata-matas. A princípio, o derradeiro temor do Uruguay é que a fortuna dos guaranis prossiga.
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Daniel López Moroy não poderia ficar indiferente ao esporte tendo um pai como o seu. Juan Jacinto López Testa, nascido, crescido e vivido em Tacuarembó, foi uma das maiores glórias do atletismo oriental. Apelidado “El Gamo” por suas passadas largas, ele reinou em nível nacional e foi três vezes campeão sul-americano dos cem metros rasos. Disputou as Olimpíadas de Londres em 1948. Um ano antes, havia se sagrado campeão uruguayo, como de hábito. O tempo em que isso foi feito tirou da conquista o adjetivo de corriqueira. López Testa correu os cem metros rasos na altura do então recorde mundial. Os mesmos 10,2 segundos que o estadunidense Jesse Owens havia estabelecido em 1936. A marca, no entanto, nunca chegou a ser reconhecida oficialmente fora das fronteiras da Banda Oriental.
Embora o Gamo estivesse retirado das pistas quando Daniel nasceu, o ambiente propício às competições se manteve no cotidiano do lar. E determinou o futuro do guri. Sem sucesso praticando esportes, o menino tomou gosto por narrar os jogos de bola que ocorriam pelo vizindário. Com a chegada da televisão, passou a retransmitir os lances que via pelo tubo de elétrons. Modulava a voz à maneira que os grandes mitos do rádio faziam a cada domingo no Centenario. Em 1975, aos vinte e três anos e estudando Direito na capital, um jovem Daniel López Moroy decidiu arriscar. Fez um teste para narrador da Rádio Sur de Montevideo, e a vocação se comprovou. Assinou contrato. Pela Sur, depois pela Carve e mais tarde pela El Espectador, o ex-aspirante a advogado acompanhou os grandes momentos do futebol uruguayo em três décadas.
Esteve em Porto Alegre quando o Nacional levou a Libertadores contra o Inter em 1980. Voltou três anos mais tarde, na noite em que De León ergueu a taça ensanguentado pelo Grêmio e, pelos microfones, mandou o Peñarol plantar batatas. Esteve no Chile, nos agônicos gols de Fernando Morena e de Diego Aguirre, que deram ao Carbonero o quarto e o quinto títulos continentais. E também nas conquistas do Bolso no final daquele decênio. El título mundial de Nacional en ‘88 fue el momento más inolvidable. Porque era contra un PSV que tenía a Koeman y a Romário. Y por haber sido en Japón, tan lejos de nosotros. Sería triste volver con las dos manos vacías. Entonces Ostolaza hizo aquel gol en el último suspiro del alargue, y Nacional pudo ganar en los penales.
López Moroy foi a três Copas do Mundo. Argentina, na vecina orilla. México, a primeira com a Celeste. E Itália, onde ficou por quarenta e cinco luas. Não viajou para as outras Copas do período porque as eliminatórias não deixaram a seleção ir até elas. E porque, antes de o Uruguay regressar a uma disputa mundialista em 2002, Daniel quis voltar ao interior. Em Tacuarembó, mantinha havia quase vinte anos o restaurante batizado com o apelido do pai. E agora tinha a chance de narrar a fase profissional do time da cidade.
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Tacuarembó quer para si o título de terra mais futbolera do interior do Uruguay. No que diz respeito às taças erguidas, não é um absurdo. Desde 1951 existe no país um Campeonato Nacional de Seleções do Interior. Há sessenta anos, as formações de cada lugar fora de Montevideo se confrontam pelo cetro. Antes de Tacuarembó abandonar o amadorismo, ninguém venceu o torneio mais vezes que eles. Oito gritos. No início dos anos 90, o torneio regional do Norte e do Nordeste do país, que incluía o Tacua, foi desativado por falta de equipes. Os ânimos da cidade em torno do futebol permaneceram elevados, mas não havia dinheiro para correr distâncias maiores e jogar em outras regiões. Em 1999, optou-se pela alternativa de atrair dinheiro com o profissionalismo. Para manter a identificação histórica, o novo clube vestiria a mesma camisa vermelha e branca do selecionado citadino. Recentemente, incorporou-se ao uniforme um retrato de Carlos Gardel no espaço que sobra dos patrocínios.
A agremiação surgiu para aproveitar uma iniciativa que a Asociación Uruguaya de Fútbol levava a cabo por aqueles anos. Buscava-se aumentar o número de equipes na primeira divisão. Com somente doze clubes, o campeonato ficava centralizado na capital, e os estádios erguidos no interior para a Copa América de 1995 corriam o risco de cair em desuso. Realizou-se uma licitação para incorporar quatro clubes interioranos diretamente à elite, que em pouco tempo passaria a ter dezoito participantes. O recém-fundado Tacuarembó FC acabou sendo um deles. Sem ter sequer uma partida profissional oficial, entrou na primeira divisão. E nela se sustentou por treze temporadas consecutivas. Até cair em 2010/11, o Tacua exibia uma marca improvável. Além de Nacional e Peñarol, era a única equipe em atividade no Uruguay sem passagem pela segunda divisão.
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Julián está indisposto. Não faz muito, os sinos da catedral murmuraram algo como quatro da tarde. É cedo. A peluquería fica aberta até às sete e meia da noite. Mas o velho barbeiro não se sente bem. Melhor deixar para o filho Pablo os clientes que aparecerem no resto do dia. Os dois manuseiam com destreza as tesouras. Seus movimentos ágeis acalmam a rebeldia dos fios que não se acomodam. Os poucos fiapos que insistem em revolucionar são ameaçados com a navalha. O velho Julián, pele lisa de casca de noz, atende um gaucho daqueles que nas manhãs frias veste seu poncho para virar silhueta no horizonte enquanto o sol nasce avermelhado. Ao contrário dos meninos trazidos pela mão do pai para se desfazer das melenas, este cliente de bota e espora não eriça os pelos de susto quando a navalha se aproxima. A borrasca de seus cabelos é mais difícil de ser transformada num mar de tranquilidade. E Julián vai mudando a ideia de se refugiar em casa após o que seria o último corte do sábado.
Talvez fique um pouco mais. Quiçá encerre o dia, mesmo. Para ele, tem sido assim há mais de meio século. O trabalho se impõe. As horas passam através do diálogo. Quando o sujeito se dá conta, outro e outro e outro ano é memória. Atrás de uma porta cor-de-rosa, dentro de uma gaveta bagunçada mas preservada com esmero, estão os objetos que enriquecem essa lembrança. Antigos maquinários de aparar barbas. Lâminas sem fio. Sobre o criado-mudo, uma máquina de finalidade indecifrável para qualquer um que fosse imberbe na época – um aparato a vapor para aquecer as toalhas usadas pelos recém-barbeados. A Peluquería Nigro é a mais antiga de Tacuarembó. Uma foto emoldurada perto do espelho mostra os festejos da cidade em 1928, quando o Uruguay foi bicampeão olímpico de futebol. Há um poste ao lado da multidão. Afixado nele, um anúncio com o nome da barbearia. Naquele entonces, os Nigro já tinham firmado sua tradição no nicho. A casa existe desde 1907.

Exatamente cinquenta anos após a fundação do estabelecimento pelo seu bisavô, Julián começou a trabalhar. O serviço era completo para renovar a imagem dos señores que cruzassem aquela porta envidraçada, e ele lustrava botas e sapatos. No tempo livre, varria os restos de cabelo do chão. O menino tinha onze de idade. Ficara aos cuidados do avô depois que o pai decidira se exilar em Livramento, brigado com a família. Julián Nigro, que por parte de mãe também tem o sobrenome Mujica – seus tios são primos distantes do atual Presidente da República uruguayo, José Mujica – não tem tanto poder quanto o máximo mandatário da Banda Oriental. Mas passou de faxineiro a dono do negócio familiar. A calle 25 de Mayo, endereço dos Nigro, é ponto certo de comemorações em dias de conquistas futebolísticas. O velho barbeiro sabe. Se no dia seguinte a Celeste derrotar o Paraguay, é provável que o nome da peluquería surja em alguma fotografia relacionada ao júbilo, como em 1928. Não tem certeza quanto à publicidade gratuita, pero está seguro da vitória do Uruguay. Les ganamos tres a cero, esse placar cada vez mais cabalístico que todos os tacuaremboenses parecem ter combinado entre si para apostar.
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Hoy por hoy, la bandera cuesta 250. Pero ya he logrado vender dos por 300. Si ganamos mañana, pongo 350. Na esquina em diagonal ao restaurante El Gamo, onde periodicamente vai comprar um refrigerante e algo para comer, Roberto Rivero se frustra com a saída inicial de suas bandeiras. O dia seguinte será melhor, tem fé. No dia seguinte, dia do jogo, pode botar trezentos pesos como preço mínimo, e irão pagar. Ninguém vai querer ficar sem as cores do país para balançar na hora da final. Se Luis Suarez e Diego Forlán ajudarem, não lhe sobrará carga extra para a sequência da viagem. O título uruguayo e o sucesso nas vendas são os melhores presentes que Roberto pode receber no domingo. Este vinte e quatro de julho de 2011 é dia dos pais entre os orientais. Mi padre murió hace más de diez años, del alcohol. Mi madre también se fue, hace doce. Son cosas que pasan y no hay nada que se pueda hacer. Todos estamos de pasaje, eh. La vida es un regalo muy lindo. Hay que vivirla de la mejor forma posible. Hay que disfrutar.
Para viver, Roberto Rivero está a quatrocentos quilômetros de casa no dia dos pais. Para lucrar, depende de uma final da qual talvez não consiga ver mais que fragmentos.
Continuará. (Parte I e Parte II. Amanhã, a conclusão da série)
Maurício Brum
Parte I - Parte II - Parte III - Parte Final

Tche, sensacional.
Sugiro que se encarte esta serie que somada a outras tambem espetaculares deste sitio sejam comercializadas.
Gostaria de ter tais textos e fotos em minha estante, e creio que não estou sozinho neste desejo.
Parabéns ao impedimento.
Qué lindo!
Báh, parabéns Maurício. Baita série.
mauricio, não jogamos a copa de 78… infelizmente!!!
bela série.
#5 verdad FERN, acabei construindo mal a frase. Em geral o Daniel só foi às Copas em que o Uruguay esteve, mas em 78 também foi por ser ali, do outro lado do rio. Já corrigi, gracias.
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E agradecimentos infinitos a todos os que vêm acompanhando a série e têm elogiado. Sei que o tamanho dos textos foge um pouco do NORMAL, mas saber que no Impedimento haveria loucos como eu, capazes de decidir dedicar uns minutos a mais para ler algo assim, é o que faz abandonar a tranquilidade da VIDA às vezes para trazer reportagens diferentes sobre a Sudamérica. Sem DEMAGOGIA, é a pura verdade.
Muito bom…
Aguardaremos o final da série…
Que histórias senhores. Que imagens. Bela série. Tá na hora de sair um livro do Impedimento
Agora que fui ler os outros comentários e vi que fui repetitivo Tudo bem. É o que eu queria dizer. E impressionamte como o povo uruguaio preserva sua história, suas origens, seu passado. E o texto do Maurício mostrou tri bem isso, parabéns.
Mas, báh!! Maurício. Lágrimas de saudade correram en mi cara, mesmo sem jamais ter pisado esta terra sagrada. Teu texto é excelente, tuas observações te elevam ao nível de um gran escritor, um poeta… Parabéns, menino.
Tacuarembó é a terra de meu avô paterno Pedro Arangüiz, que veio para o interior de Alegrete ainda jovem e constituiu família. Não o conhecí, mas um dia conhecerei esta terra irmã de Santa Maria. Abraços e sucesso para o Impedimento.
A primeira foto é genial.
Bah, poucas vezes li um texto tão bom assim, e olha que leio o Impedimento, e outros bons blogs que tratam do ludopédio, há anos. De chorar, se arrepiar e tirar tatu do nariz na frente da noiva
Sabe do que estou gostando mais? É exatamente do tamanho do texto e de seu ritmo lento e firme. Em tempos de velocidade, onde a internet sugere velocidade, onde o jornalismo se faz da velocidade, estes textos guardam vagareza.
Eles respeitam os tempos necessários para a assimilação, a empatia e o profundo respeito por estes homens e mulheres do pampa que captaste com teu teclado.
Bra-Vo!
“Para viver, Roberto Rivero está a quatrocentos quilômetros de casa no dia dos pais. Para lucrar, depende de uma final da qual talvez não consiga ver mais que fragmentos.”
depois de tudo, essas duas frases, q são um texto à parte. cara, tu escreve [pouco] demais.
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