Tanta vida en cuatro versos, la Copa en Tacuarembó (II)

Eso era un pueblo. Era horrible. Sólo había carretas y bicicletas. Alison era só uma menina de doze anos. Sacaram-na do conforto de casa, puseram-na no banco de trás de um carro, e pelas cinco horas seguintes ela viu como o concreto e as águas de Montevideo eram sugadas para trás, para o passado às suas costas, onde não podia ver. E à frente restavam apenas nuvens de poeira, ruas mal calçadas e o amarelo de campos queimados pela geada. Haveria depois invernos mais frios do que aquele, capazes de endurecer as folhas dos álamos ao redor da cidade. Haveria alvoradas em que o sol revelaria a grama coberta por um manto branco. Mas em nenhuma delas Alison se sentiu tão congelada quanto no primeiro dos seus invernos em Tacuarembó.

A alguns meses de entrar na puberdade e experimentar as possibilidades da capital, Alison foi desterrada para o norte do Uruguay. O pai, militar, havia recebido o destino infeliz em uma transferência. Longe das amigas e da vida que conhecia, não parecia haver novidade alguma para aprender num povoado tão retirado em seu atraso. Mas encontrou alguém. O tímido Fabián Guzmán começou provocando suspiros, como quem não quisesse nada. Quando ela deu por si, o chico de Tacuarembó já lhe havia arrancado os rancores quanto à cidade. As volições internas determinaram – estava apaixonada. Terminaram se casando. E na vez em que o pai de Alison teve a oportunidade de regressar à capital, a cabeça da menina transformada em mulher estava tão mudada que ela nem chegou a se surpreender com a ideia de ficar onde estava. Com quem estava. No vuelvo más.

E, como o comércio prosperasse, decidiram abrir uma mercearia. Distribuidora La Lucha. O nome homenageia o avô de Fabián. Homem do campo, ele doutrinou a linhagem repetindo que um tipo só poderia crescer na vida por meio do esforço. Si uno pelea, puede lograr más y más. Na primeira metade do século passado, o viejo tinha um ranchinho. Poucos animais, menos ainda de dinheiro. Levou o trabalho como uma luta. Somou posses e pôde encerrar seus dias em boas condições. As inúmeras divisões entre herdeiros impediram que qualquer um deles pudesse experimentar algo próximo da riqueza material. Ninguém mais, no entanto, passou necessidades na família. Nem esqueceu a lição.

Cuando abrimos el almacén, pensamos en eso: luchar, y a ver si con nosotros también pasaba así. Fabián perde um pouco da timidez quando discute futebol. Tem certeza que esta Seleção o representa. Também luta, e tem méritos para vencer. Suspeita que contra o Paraguay será por três a zero. Está tranquilo, mas sabe que apenas até a hora em que o juiz apitar o início da final. Quisiera que el partido fuera ya.

* * *

O solitário vendedor de bandeiras não tem ideia de onde vai permanecer. Roberto Rivero conhece quase todo o Uruguay. Tacuarembó não está na lista. Apruma no topo da cabeça o chapéu puído, que um dia foi charmosamente negro e agora desbota sua beleza. Em seguida, ergue as bolsas com a mercadoria e a bagagem. Caminha com passos lentos baixo o sol da manhã de sábado, sem mãos para afastar as moscas que o perturbam e parecem querer morar em suas narinas ao passar pela ponte do arroio convertido em esgoto. Atinge a praça da catedral. Abre as bandeiras sobre o barbante. Espera. Confia no sucesso do time nacional para garantir o sustento de quem ficou em casa. Lá longe, nos arrabaldes de Montevideo, esperam-lhe de volta a mulher, um filho de quinze anos e uma menina de doze. A casinha no quilômetro dezesseis da estrada para Maldonado. Roberto tem outras três filhas, mais velhas, todas casadas. São ambulantes como o pai.

Vençam ou percam no Monumental de Núñez, domingo, ele não pode ceder à saudade. Está no norte, muito próximo de Rivera. Quer fazer valer a oportunidade. Siempre trabajé con esto. En la frontera los conozco a todos. Tengo amigos. Hacemos una comida, y aprovecho para comprar productos que puedo revender después, en la capital. Roberto oferece um amendoim. Outro. Seu pai era bolicheiro nos subúrbios montevideanos. Nunca precisou cumprir o destino andarilho da prole para espalhar seus produtos. Ao lembrar-se dele, Roberto levanta o polegar. Num gesto que não quer indicar positivismo. Leva-o à boca para explicar o porquê de a família ter sido condenada a desbravar estradas. O velho bebia demais. O vício derrubou sua vitalidade. Depois as finanças. Por fim o negócio.

He oído que hay una pensión económica dos cuadras más allá, creo que voy a acostarme en ella. De tanto correr caminhos para botar algo na barriga e no bolso, Roberto nunca saiu do Uruguay. Nem mesmo pelo Rio Grande do Sul conseguiu se aventurar. Em sua memória geográfica, o término do mundo, o abismo do fim dos tempos, é logo que se terminam as casas de Livramento. E só porque ela está colada em Rivera. Un día, a lo mejor, tendré dinero para viajar con mi mujer. Quiero conocer a Río de Janeiro, San Pablo… Capao da Canoa. ¿Conocés Capao da Canoa? Dicen que es lindo allá, eh. ¿Querés otro maní?

* * *

No fim do seu turno de trabalho, José não tem pressa. Funcionário público da prefeitura, agora tem o final de semana para descansar. Planeja até dar uma esticada a Paysandú, visitar as irmãs que moram lá. Quiçá ver a final na casa delas. Apenas uma parte de uma grande família de onze irmãos. A maioria ficou em Tacuarembó mesmo. Duas se foram a Paysandú. A mais desgarrada se arranjou com um brasileiro. Aportou em Santos. Silvia, uma das que não deixaram a terra natal, o chamou para que buscasse um regalito antes da viagem. Dona de uma loja que vende os mais diversos utensílios para o lar, batizada propriamente de La Casa de las Cosas, Silvia é representante do grupo mais orgulhoso de tacuaremboenses.

Instantes antes da chegada do irmão, explicava a uma compradora porque o candeeiro de madeira era mais caro que o de plástico. Mirá vos que es madera uruguaya, todo nuestro. O bairrismo quanto à cidade é maior. Aos visitantes de fora, atenta para um fenômeno que se intensificou nos últimos anos. Preguntan por qué las personas que vienen aquí no salen jamás. Es porque Tacuarembó es el mejor lugar para vivir. O irmão José corrobora. Saudoso de épocas mais calmas, há cinco anos decidiu destrancar a porta de casa à noite. A exemplo dos dias da infância, não teve qualquer problema. Claro que no digo eso en voz alta. Acá hay problemas con los narcóticos, con la bebida y la seguridad, sí, pero es poco, comparado a otros lugares.

José e Silvia Inthamoussu devem o sobrenome raro à ascendência basca, relativamente comum no Uruguay. No seu caso, basco-francesa. A realidade de não abandonar a cidade é que mais e mais pessoas se sentiram atraídas por ela na última década. Em 1997, a companhia Minera San Gregorio reiniciou a extração de ouro no povoado próximo de Minas de Corrales. Boa parte dos técnicos contratados elegeu como morada Tacuarembó, a área mais populosa das cercanias. A vinda de uma indústria para a região, ainda que ligada ao extrativismo, trouxe pessoas novas. Deu fôlego aos serviços locais, sempre dependentes do dinheiro sazonal do campo. É histórico o temor uruguayo quanto à instalação de indústrias na Campanha, o que na visão política poderia enfraquecer os motores econômicos do país – a agricultura e a pecuária.

Em geral, a colocação de fábricas longe da capital é raridade. Silvia recorda de casos recentes, em que se prometia a qualificação dos tacuaremboenses para trabalhar no setor secundário, e nada saiu da fase de projetos e intenções. El gobierno en Uruguay a veces es muy tradicionalista, y parece querer que en el interior solo haya producción agropecuaria. Pero una cosa no elimina la otra. Hace poco un brasilero de una ciudad cercana a San Pablo, puede ser Americana, quiso poner una industria en Tacuarembó. Le dijeron que la instalase en Montevideo, o que se fuese. Es cultural. Siempre fue así. Ya tuvimos blancos, colorados, izquierda, derecha y hasta militares en el gobierno. Nada cambió.

Mesmo entre os tacuaremboenses faltam certezas sobre até que ponto seria benéfico uma alteração no perfil ancestral de produção da região – e, por extensão, do interior do país. As reticências que o governo coloca são compartilhadas por parte da população, ainda que cresça o pensamento de que as atividades poderiam se complementar. Isso porque a pequena recuperação econômica do Uruguay segue se refletindo de maneira parca na qualidade de vida. Nas ruas de Tacuarembó, sente-se que o cotidiano ainda se parece com períodos muito mais turbulentos, como o provocado pela abissal crise bancária que implodiu o país em 2002.

La garra charrúa está para todo, no es solamente en el fútbol. José ergue os cantos dos lábios. Na época, foram distribuídas nas lojas da cidade adesivos que convidavam a resistir às dificuldades. “Aquí no se rinde nadie”, dizia a mensagem colada em cada balcão do lugar. No nos rendimos, pero nos fuimos acostumbrando. Num país com relações tão viscerais com o futebol, porém, o sucesso dos campos tem o poder de repercutir, de alguma forma, no sentimento de nação que têm os uruguayos. É como se as vitórias da Celeste devolvessem à população o poder de acreditar no que se esqueceu. E o conformismo some pelo otimismo. Em relação à vida. E ao jogo final que pode devolver ao Uruguay o sabor de campeonar.

José é um entre tantos que, numa confiança que não se via há anos, aposta em um placar folgado na decisão. O domingo do uruguayo, acredita, começará com um mate, um vinho, um churrasco. E mais vinho, para ir calentando até a hora da partida. Aí, uma vitória por três a zero. Será difícil, claro, pero metimos uno, al rato hacemos otro, y al final del partido el tercero. No es como poder salir campeones después de dieciséis años, sin que pasara nada antes. Ya hubo las semifinales del Mundial, el subcampeonato de la sub-17, la clasificación a las Olimpíadas. Y además, la final de Peñarol en la Copa. Vamos a ganar porque nos merecemos.

 

Continuará. (Aqui, a primeira parte)

Maurício Brum

Parte I - Parte II - Parte III - Parte Final

Publicado em Copa América, Pela América, Reportagens. ligação permanente.

21 Respostas a Tanta vida en cuatro versos, la Copa en Tacuarembó (II)

  1. Eduardo diz:

    texto espetacular, Brum…

    E mais vinho, para ir calentando até a hora da partida. Aí, uma vitória por três a zero. Será difícil, claro, pero metimos uno, al rato hacemos otro, y al final del partido el tercero.

    será que ele me mandaria os números da mega sena???

  2. Volkart diz:

    Muito sensacional. De novo.

  3. Noronha diz:

    Quando fui para o Centenario dia 15 de junho ver o 1° jogo da final de La Copa, fiz questão de comprar uma camisa do Tacuarembó. SORRI ao ler ambos os textos aqui.

  4. Lol diz:

    Lógica do marketing do Porto Alegre:

    Se empate com derrota nos pênaltis é empate, logo, empate com vitória nos pênaltis é vitória.

  5. dante diz:

    só o lol se importa com essa copa audi.

    sintomático.

  6. Lol diz:

    Só o dante se importa com o lol.

    sintomático.

  7. dante diz:

    sim, estava aqui CHORANDO DE SAUDADE até tu comentar.

  8. dante diz:

    maurício, perdão por CONSPURCAR teu texto.

    a série tá boa demais [como sempre], parabéns.

  9. Anônimo esclarecedor diz:
  10. matheus diz:

    até o final das 38 rodadas, qual a porcentagem de jogos do brasileirão que terminará com vaia? eu chuto em torno de uns 36%…

  11. Carlos diz:

    Me prestei a ver esse video do 10.

    A coisa tá ficando tão ridicula no quesito “flauta”, que chega a dar pena de uma pessoa q edita um ingresso e mais pena ainda de um véio q pega um ingresso, filma, faz um discursinho trouxa pra responder a outro imbecil.

    Bah, tá louco. A que ponto estamos chegando.

  12. Carlos diz:

    E amanhã aguardem meu discurso anti AVM. Me prestei a ir no jogo do gremio hoje, mas nem saco tenho pra berrar.
    A merda tá tão grande pros lados do olimpico q eu já tenho certeza q vamos cair de novo.

  13. Jornada diz:

    Como diz uma amiga minha: “Nem tudo que acontece uma vez, acontece duas vezes. Mas tudo o que acontece duas vezes, acontece três vezes”. Não sei qual a lógica, mas em termos de rebaixamento de times grandes, isso é a mais pura verdade. Sendo bem prático, se considerarmos:
    - o elenco sem peças de reposição razoáveis em todas as posições, exceto goleiro;
    - a interminável péssima fase de TODOS os jogadores que poderiam salvar o time;
    - a direção mais PERDIDA da história (nem Obino foi tão perdido, o clube tava quebrado na época), de onde não se pode esperar medidas enérgicas em tempos de crise;
    - a perda da MÍSTICA do Olímpico, que fez até o medíocre time de 2009 ficar invicto em casa durante todo o campeonato;
    - a total incompetência da direção para prospectar e contratar bons jogadores que possam resolver algo daqui pra frente;
    - a eterna má safra das categorias de base;
    Hoje o Grêmio escapar do rebaixamento já pode ser considerado milagre.

  14. Ernesto diz:

    #5 Qual a lógica quando se empata com um time da zona de rebaixamento ? hsahsahsahsa.

    Que quarta-feira, REDENTORA. Os que flauteavam e corneteavam a megalomania e fracasso colorado por ficar em terceiro, mas depois empatam com um time lamentável. Pato, o craque, errando um penalti, errando gols feitos, e nos dando um terceiro lugar honroso.

    E, por fim, Ganso, o “craque” que “com um passe define o jogo”. Hoje ficou comprovado isso. DEu um passe errado, armou um contra-ataque, e PÁ, 5º GOL NO TIMAÇO dos sonhos.

  15. Rudi diz:

    #14
    não cairá, a concorrência é ruim demais

  16. arbo diz:

    bá, brum, parabéns, genial.

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  19. Triste vida de quem mancha os comentários de um texto desse falando sobre uma dupla manipulada por duas direções derrotistas. Que submeteram seus maiores ídolos àquele showzinho pré-final do gauchão, com uma entrevista ridícula, onde o Coimbra puxou o nome do Iúra para “abalar” o Falcão.
    Corneta fraca de torcidas de sofá, na era do João Sorrisão, onde os queridos da Globo estão liderando no exato momento em que escrevo.
    Enquanto estamos brigando pra ter o estádio mais bonito, os diretores estão acabando com os nossos clubes.

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