Miras un campo de mirabel
la trilla, polvo y tarantán
¿Cuántos kilómetros faltarán
para llegar al pueblo aquel?
Un día claro como um vergel
los corazones se abrirán
los pobres se repartirán
el mundo, el vino, el pan aquel
(La Filadelfia real, Washington Benavides)
Na véspera do dia em que o Uruguay saiu campeão da América, um par de sapatos velhos tocou o chão áspero do terminal rodoviário de Tacuarembó. Arrastam-se como que para equilibrar a mochila de viagem e as sacolas com a mercadoria. O homem pisoteia o cadarço desamarrado, cambaleia um pouco, se recupera com jeito. Tem as pontas dos dedos fendidas. Onde lhe faltam nacos de pele, é possível ver o vermelho esmaecido das cicatrizes antigas que não machucam mais. Roberto Rivero se sustenta sobre aquelas lajotas como fez por todo o país. Sozinho. Sua companhia, os produtos que traz nas bolsas. Desta vez, cem bandeiras nacionais grandes, alguns pavilhõezinhos menores e um ou outro de Nacional e Peñarol, para capitalizar o entusiasmo futbolero adjacente.
São dezenas de homens em dezenas de esquinas das mais diversas localidades da Banda Oriental, nas datas que cercam os dias de grandes jogos deste tempo em que a Celeste devolve à atualidade os triunfos até há pouco perdidos no outrora. Armam seus fios de náilon entre a placa com o nome das ruas e o poste de luz mais próximo, e sobre o cordão desfraldam as cores do patriotismo. En Montevideo están por todos lados, pero en el interior no es así, se puede vender más. E para fugir da concorrência da Capital, alguns montevideanos gastam seus pesos em bilhetes de ônibus para Durazno, para Melo, para Fraile Muerto, para Tacuarembó – nunca para Rivera, que já tem sua cota fixa de vendedores ambulantes – e se põem nas ruas em que fazem falta por não haver outros iguais a eles. Chegam como versões resumidíssimas de um circo itinerante. Na ausência de elefantes, acrobatas ou truques de magia, emprestam a cor de suas flâmulas à pacatez de uma cidade solita en el campo.
O futuro único vendedor de bandeiras de Tacuarembó se informa no guichê da rodoviária. O melhor ponto para ficar antes, durante e depois da final da Copa América, lhe dizem, é a Praça 19 de Abril, em frente à catedral e por onde passa uma das ruas mais comerciais do local. A calle se chama 18 de Julio, como a grande avenida de Montevideo. Pode-se chegar a ela a pé. Vos sabés que estás no caminho certo se a estrada permanecer ladeada por palmeiras. Haverá uma ponte, que se reflete nas águas poluídas de um afluente do Arroyo Tacuarembó Chico, e imediatamente a seguir está o trevo de acesso à zona urbana. Caminhando pelas veredas da Luis de Herrera não há erro – em poucas quadras, se atinge o centro. Roberto escuta as indicações. Acomoda entre os pés parte da sua carga de bandeiras, olha para os lados, fareja o novo ambiente. Acima dele, o painel da rodoviária saúda os visitantes. Bienvenidos al Pago Más Grande de la Patria.
* * *
Não é mais como fruto de uma viagem interplanetária a situação de um montevideano baixando – do interior de um ônibus – ao solo de Tacuarembó. Apesar de ter apenas cinquenta e um mil habitantes, a condição de capital do departamento homônimo dá movimento aos dias da cidade. Mesmo na escuridão, avançando as horas da madrugada, os escapamentos das motocicletas roncam sem parar no centro. Elas se fizeram substitutas dos cavalos que até hace poco troteavam naquele canto de interior. Vendidas a preços acessíveis, as motos estão presentes em quantidade desproporcionalmente maior que os carros. São as preferidas dos jovens, cujas vozes ecoam entre os muros seculares dos sobrados de cores mortas.
A sina migrante de um vendedor que quase não para em casa ainda contrasta com a realidade de quarteirões que, apesar dos avanços, se apegam à tradição. Nas mesmas madrugadas das farras juvenis, o velho sino da catedral dobra pesadamente a cada hora inteira de vida a menos. A indiferença das construções antigas ao passar dos anos recorda como Tacuarembó permanece um lugarejo campeiro. Os prédios imitam o relevo nivelado e praticamente não se distinguem pela altura. De longe, apenas dois edifícios centrais se sobressaem como acidentes da planície que se diz sem fim. Um pouco mais altos que os demais, têm os terraços dominados por todas as torres de telecomunicações dali.
Na cidade que se orgulha de ser o berço de Carlos Gardel, e onde não transparecem dúvidas quanto a isso por instante algum, também se contam os feitos poéticos e musicais de outros nomes importantes na cultura uruguaya. Washington Benavides e seu sobrinho Carlos, Héctor Numa Moraes, Eduardo Larbanois e Eduardo Darnauchans não têm bustos espalhados pelos balcões como El Mago Gardel, mas figuram nos primeiros comentários sobre o que Tacuarembó tem a oferecer ao mundo. O folclore é fortalecido anualmente num dos festivais mais famosos do país. A Fiesta de la Patria Gaucha costuma durar cinco dias em março. Nos outros trezentos e sessenta, os caminhos hoje asfaltados são preenchidos por gente vestida para a lida rural, não importando se vivem e trabalham na urbe.
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Ya no hay muchos en ese oficio en las ciudades. Aquí todavía tenemos campaña, así que puedo vivir. El oficio lo aprendí con um viejo zapatero, y me quedé fabricando botas, nomás. O engano de nacionalidade de um nome como o de Milton da Silva desaparece antes de se cruzar o umbral da porta de sua casa. Uma das maiores bandeiras orientais exibidas em Tacuarembó durante a Copa América é a que desafia o rincho dos minuanos no topo de seu telhado. Emula o movimento que pavilhões idênticos desempenharam noutros períodos, pelo esporte ou pela guerra. Seu trabalho é daqueles classificados como próximos da extinção e que, por não ser um animal, não tem organizações dedicadas a preservá-lo. Milton não é sapateiro. Milton é fabricante de calçados, e lhe escapa o tempo para se dedicar a algo mais, como consertos. Mais especificamente, ele exerce uma função que só parece ter futuro num lugar assim: Milton da Silva fabrica botas de campo.
E a verdade é que nem o mercado que ainda respira na região convenceu os filhos a prolongar a sobrevida do empreendimento. Mi hija se fue a estudiar en Montevideo, mi hijo es policía. Quien va a mantener La Zapatería es mi “hijo adoptivo”. Milton se refere a um jovem da vizinhança, que brinca ser seu filho adotivo por ter crescido encantado com a arte da sapataria. Ele é o único disposto a auxiliá-lo numa produção artesanal que nunca conheceu fordismos. O processo dura quatro horas. Faixas de couro desconexas são depositadas sobre a mesa. As menores compõem pequenos detalhes, às vezes decorativos. Floreios. As maiores, o corpo da bota. Moldes com diferentes tamanhos de pés indicam o corte certo, sem desperdício, para se encaixar no número encomendado. A cola levanta seu olor pelo cubículo quando é puxada, com a ponta dos dedos, para firmar os acabamentos.
Tartamudeando gemidos em ciclo, no balanço de uma mesa de canto, as máquinas de costura cravam linha branca ou dourada para dar solidez ao produto final. A coroação vem a marteladas, e não na cabeça, mas na base. Quando o solado é firmado com pregos, já está um par de botas. Na Zapatería, os dois trabalham das sete às sete. De nochecita, no final do longo turno a que se impõem, com direito a siestas eventuais, repassam a agenda para o dia seguinte. Hay demanda en todo el país. Restam poucos fabricantes artesanais de botas, los mejores, na Banda Oriental del Uruguay. É preciso recorrer aos especialistas, incrustados nos rincões do pampa profundo.
Milton aproveita o fim da tarde para encher sua térmica de água quase fervida. Carrega ela embaixo do braço e, sorvendo o mate, observa o que foi feito ao longo do dia. Antes de apagar o bulbo que clareia a oficina, mira de relance a parede cravejada de pôsteres de futebol. Nas equipes perfiladas nas tábuas, o Alejandro Martinuccio do Peñarol e o Diego Forlán da Seleção Uruguaya passam de ídolos a espectadores da rotina do sapateiro. Este último poderia mudá-la um pouco, domingo. El partido lo voy a mirar quietito en mi casa. Eso sí, si gana Uruguay, salgo en caravana. Si gana Uruguay, Milton sobe no telhado para recuperar a bandeira que vai carregar por toda Tacuarembó.
* * *
Na entrada do hotel, dois meninos vêm com uma rifa. A fotocopiadora da escola quebrou. Precisam de dinheiro para comprar uma nova. Não aguentam mais os borrões roxos que se tornaram suas provas desde que o velho mimeógrafo precisou ser acionado, e nem sabiam o que era um mimeógrafo antes do ocorrido. Alejandro explica. Cada folha tem vinte números. Cada número custa o valor do próprio número. De um a vinte pesos. Os números mais baixos estão todos vendidos. Nos altos, indefectíveis espaços em branco. Apesar disso, Alejandro incrivelmente se desfez do dezenove e do vinte. O gordinho Juan se indigna. Es mala plata, tramposo. Tu mamá te los compró.
Alejandro é mais articulado que Juan. Pergunta ao viajante o nome. De onde vem. E se anima com a descoberta de que o forasteiro é do Brasil. Allá hay más plata, seguro que me vas a comprar dos. Levo o dezessete e o dezoito, para ajudar. Juan puxa os cabelos, esmaga o rosto avermelhado entre as mãos. Caricato no seu escarcéu, fica esperneando sobre o carpete do hall. Maldición. Mostra como tem dificuldades para vender qualquer coisa acima do número oito em sua folhinha. Por sorte, minha menor nota é de cinquenta pesos. Pouco menos de cinco reais. Levo também seu número quinze para fechar a quantia. Os dois saem sorridentes. O sorteio só será na última sexta-feira de agosto. Terei deixado a cidade mais de um mês antes, como constato olhando no calendário. Hoje também é sexta, mas de julho. Dia vinte e dois.
Os guris saem correndo com o dinheiro e o funcionário do hotel pergunta em que pode ajudar. Agora já sabe meu nome. Una habitación, por supuesto, para una persona. Peço um quarto em que a internet sem fio chegue. Eber, ele se chama Eber, me mostra um apartamento numa extremidade do edifício. Longe do barulho do trânsito, mas também da antena do modem. Sabe que dificilmente terá sinal. Puxa o smartphone para conferir. Sem vestígios de wi-fi. No entanto, o protetor de tela fala um pouco de seus sentimentos. É um escudo carbonero. Levo o diálogo para as canchas. Falo da Libertadores, pergunto do futebol da cidade. Tacuarembó es una ciudad futbolera. Incluso tenemos un equipo que estaba en Primera División. La gente va al estadio, pero ese año no nos salió nada. O Tacuarembó Fútbol Club era o único time de fora de Montevideo na elite do Campeonato Uruguayo. Foi rebaixado este ano, com vinte derrotas em trinta jogos. ¿Se queda hasta cuándo en la ciudad?
- Domingo. Quiero saber como los tacuaremboenses viven la final de la Copa América.
Continuará.
Maurício Brum
Parte I - Parte II – Parte III – Parte Final


Tche, que texto!
Gol do Barça, acho que o Porto Alegre volta hoje para o RS…e de chevete.
hehehehehe
tira uma foto do gol e leva pro museu do grêmio, norteña!
uhuhuhuhu
GOL DO NEI
hsahahaa
o futebol é muito engraçado mesmo…
O Porto Alegre é foda parceiro…..
que texto, Brum. Bah.
bá, q afudê esse texto. foi cando cada vez melhor.
FICANDO
Vai sair um texto sobre o Inter em Munique ou não vai?
Diante dos foguetes da colônia catalã em Porto Alegre, ficou claro que a Copa Audi atingiu seus objetivos: ver a gremistada se apequenando ainda mais, mordida.
Pedro ERNESTO, tu é DIMÓIS. kkkkkkkkkkkkkkkk
brimks.
Em homenagem à excelente apresentação do Porto Alegre, esse time aguerrido e reconhecido em todo mundo por ser campeão de tudo, posto aqui seu hino:
Porto Alegre é Demais
Composição: José Fogaça
Porto Alegre é que tem
Um jeito legal
É lá que as gurias etc… e tal
Nas manhãs de domingo
Esperando o Gre-Nal
Passear pelo Brique
Num alto astral
Porto Alegre me faz
Tão Sentimental
Porto Alegre me dói
Não diga a ninguém
Porto Alegre me tem
Não leve a mal
A saudade é demais
É lá que eu vivo em paz
Quem dera eu pudesse
Ligar o rádio e ouvir
Uma nova canção
Do Kleiton e Kledir
Andar pelos bares
Nas noites de abril
Roubar de repente
Um beijo fadio
Porto Alegre me faz
Tão Sentimental
Porto Alegre me dói
Não diga a ninguém
Porto Alegre me tem
Não leve a mal
A saudade é demais
É lá que eu vivo em paz
Porto Alegre me dói
Não diga a ninguém
Porto Alegre me tem
Não leve a mal
A saudade é demais
É lá que eu vivo em paz
Porto Alegre é demais!
Bah, Maurício, belíssimo.
Aguardemos a conclusão.
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Belíssimo.
Algo entre a literatura, o jornalismo, a antropologia. Uma etnografia feita de dentro, com compaixão. Todos os silêncios e universos do pampa. E muita humanidade.
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