Quando a alegria encontra a raça

Uruguai e México duelavam pelo último jogo da fase de grupos naquela noite no AREAL de La Plata. Apesar do magricelo 1×0 sobre os herdeiros de Jorge Campos, os uruguaios continuavam no ataque, em especial Diego Forlán. O camisa 10 que brilhara no MANDELÃO um ano antes enfrentava uma seca de gols – justo quando se encontrava a 3 tentos de virar o uruguaio mais fodão de todos os tempos, ou, em palavras menos chulas, o maior artilheiro da Celeste.

Pois que aos 44 do segundo tempo é anunciado que Forlán sairá de campo para dar lugar a Loco Abreu. Enquanto Forlán caminha em direção a Abreu para a troca, vemos na TV que Abreu bate palmas e grita qualquer coisa, um incentivo, uma piada de argentino, uma estrofe de Jorge Ben. Ao retornar ao rosto de Forlán, já pouco antes do tradicional cumprimento entre o titular que sai e o suplente que adentra a cancha, é visível que o camisa 10 sorri. Sorri de verdade, feito menino, como se houvesse feito gols em pilhas.

Gastei dois parágrafos inteiros para descrever uma cena que decerto não durou mais que televividos dez segundos porque acredito piamente que a vida só pode ser plenamente compreendida nos detalhes. Claro que o futebol uruguaio não reina hoje soberano no sul de sua América apenas porque sorri – Dylan teria dito, reza a lenda, que não estaria interessado na felicidade porque qualquer idiota é capaz de sorrir – mas porque foi capaz de, nesses dias de boleiros globalizados, ególatras, semideuses e movidos a petrodólares e desapego, foi capaz de juntar um punhado deles em torno da Celeste e motivá-los a jogar ali o melhor de suas vidas.

Impressiona ver o quanto correm os comandados de Tabárez, e como esses rapazes correram na Copa América que venceram ao derrotar um Paraguai que não sofreu gols do Brasil e da Venezuela nas quartas e na semi (240 minutos, senhoras e senhores) por ACACHAPANTES 3×0. Já haviam suado a alma para tirar do caminho, nas quartas, a anfitriã Argentina jogando com um homem a menos desde o primeiro tempo.

Claro, além de correr pacas, os homens capitaneados por Diego Lugano não aliviavam o pé nas divididas. O Uruguai vai a campo determinado a tomar posse não apenas da bola, mas do jogo, do moral do adversário, de tudo o que for necessário para deixar o campo com o resultado a seu favor. O próprio Abreu não deixou de ironizar o troféu Fair Play entregue a Lugano (sic) pela organização após a final – “É como dar o Nobel da Paz a Bin Laden”, declarou.

Era de se esperar, portanto, que o viril time uruguaio fosse um amontoado de homens carrancudos, prontos para uma briga a todo instante, certo? Errado. Esse uruguaios, assim como sabem que há uma diferença entre ser alegre e ser palhaço, há uma diferença entre ser raçudo e ser puramente tosco. Dos 6 tentos anotados durante a fase decisiva da Copa, nenhum deixou de ser comemorado com vibração e loucura, ouso dizer, com AMOR. Forlán, que anotou seu 1° gol na competição só na final, não correu na direção da sua torcida para anunciar uma cerveja ou arrotar valentia, mas para se unir àquela alegria em cantorias, lágrimas e sorrisos.

O mesmo Forlán que fora erguido sobre os ombros da equipe dentro de campo na festa após vencer a Argentina, criando uma imagem de antologia, dessas que serão dignas de lágrimas e histórias daqui a uns anos, jamais deixou de se portar como um camisa 10 legítimo, de cabeça erguida e passes precisos para Suárez (jogando como nunca) e o negro Pereira se consagrarem diante das redes e zagueiros rivais. E sorria ao ser sacado de campo no jogo em que mais havia arriscado a gol sem sucesso.

Já em meio à festa do título em pleno Monumental de Núñez não vimos as camisas vestidas de trás para a frente, com o nome do campeão bem vistoso para os flashes ou alguma patavina religiosa: destacava-se Loco Abreu, com um par de bandeiras sobre a camiseta previamente confeccionada para a 15ª conquista do torneio pelos CHARRÚAS – a bandeira de Lavalleja, sua terra natal, e a bandeira do Botafogo Futebol e Regatas que defende atualmente, que naquele instante, e dali para sempre, poderia se sentir um tantinho campeão da América também.

Retomo então o sorriso de Forlán em resposta à alegria de Abreu por entrar em campo nem que fosse por um par de minutos na Copa América num jogo praticamente resolvido. Se aquele momento não ilustra perfeitamente o conceito de futebol alegre, dois marmanjos felizes por defender uma equipe que lhes dá prazer em exigir de si o melhor de suas vidas, o futebol que esses uruguaios só podem idolatrar para jogá-lo tão convincentemente bem, não sei o que mais poderia ilustrar.

No final das contas e com um ano de atraso, parece que o publicitário anônimo estava repleto de certeza: quando a alegria encontra a raça, não tem pra ninguém.

Leandro Godinho

Publicado em Copa América. ligação permanente.

26 Respostas a Quando a alegria encontra a raça

  1. Cícero diz:

    to quase chorando.
    Texto foda, de pendurar na parede. Tem que sair no livro do Impedimento.

  2. Gamba diz:

    Casi lloré…

  3. Gralha diz:

    Texto foda, de pendurar na parede. [2]

    Enquanto os uruguaios DAVAM A VIDA na final, tinha gente por aí tuitando e fazendo palhaçada. Eu tinha acabado de ver isso http://t.co/bbpD67m antes de ler esse texto. O Neymar até entende-se, é um pirralho, tem que muito que amadurecer. Mas se continuar assim, orientado pelo Sr. Robson, em nada vai evoluir.

    Ok, tudo bem, pelo jeito nosso técnico acha que está tudo nos conformes pois vai levar a turma toda pra desfilar na Alemanha no mês que vem.

  4. Vinícius Catarina diz:

    #3

    O planejamento técnico da SeleCBF é de rir mesmo. Até o cachorro caolho da esquina da minha casa sabe que seria preferível marcar um amistoso mentiroso contra CHIPRE para reconstruir quaisquer sobras da moral tupiniquim pra depois alçar vôos mais altos como Austrália ou coisa parecida. Pôr uma seleção desmoralizada contra uma geração teutônica de técnica surpreendente que busca o amadurecimento é o tipo de coisa que pede pra dar merda.

    Quanto ao texto, sensacional. O Impedimento andou bebendo a mesma água do Mestre Galeano por acaso? hahaha

  5. Paul diz:

    Mas que belo filhadaputa esse surdo.

    :~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    Baita texto.

  6. Gralha diz:

    #4

    Prefiro que dê merda logo do que ver A MULECAJE fazer 7 em Chipre e todo mundo louvando a ALEGRIA e OUSADIA do futebol brasileiro

  7. Anônimo diz:

    #4

    Acho que já estava marcado esse jogo contra a Alemanha, e o “planejamento” era de sucesso na copa américa. A velha e boa autossuificiência brasileira. Agora, Inês já é morta. Vão ter que ganhar ou ganhar, para legitimar o tal do “futebol moleque”.

  8. Felipe (o catarina) diz:

    muito bom e certeiro o texto.

    chamar esses guris do Brasil de “marrentos” é ofender Romário, Renight Gaúcho, etc. Eles são, no máximo, bobos-alegres.

    me parece que o Uruguai é um time de adultos, enquanto o Brasil é um time de pirralhos mimados e supervalorizados. Pode ser que daqui a dois ou três anos eles tomem jeito. Mas a gente vê Ronaldinho Gaúcho e Adriano, que são MAIS NOVOS QUE O FORLÁN, se arrastando pro fim da carreira e não cria muita esperança de que essa gurizada tome jeito.

  9. Anônimo gênio diz:

  10. Anônimo gênio diz:

    Link acima é o depoimento de um verdadeiro, e sem papas na língua, torcedor da seleção canarinho.

  11. Caue Fonseca diz:

    Pois. É simplesmente impossível não se comover e torcer para esse Uruguai.

  12. Eduardo diz:

    Texto foda, de pendurar na parede. [n]

  13. Godo diz:

    Oi, gente, fico enternecido com os elogios.

    #8
    “Ronaldinho Gaúcho e Adriano, que são MAIS NOVOS QUE O FORLÁN”. Pois é, né. Diz muita coisa esse fato.

  14. beretta diz:

    Porra, caralho, putaqueopariu, Godo!!

    DRÓÓÓWWWW!!

    Que texto foda, salvei nos favoritos.

    To chorando.

  15. Ducker diz:

    Bah, Godo. Que puta texto.

  16. Leonardo Fleck diz:

    Texto foda, de pendurar na parede. [3]

  17. TSalvatore diz:

    Tri bueno, Godo. Só faltou lembrar que os “especialistas” da imprensa esportiva do centrão, com vergonha de assumirem que idolatram idiotas, continuam a defender esses os “craques” que a mídia cria. Bastou ser negrinho e jogar no Santos, pronto: Novo Pelé!

  18. arbo diz:

    é isso aí, exatamente isso aí. digan q no estoy soñando.

  19. arbo diz:

    e tbm acompanhei esse momento. mas não me lembro se não ouvi depois algo sobre o forlán ter se tornado naquela partida o jogador q mais vestiu a camisa celeste, ou algo assim.

  20. Sancho diz:

    O Uruguai assume, com todos os méritos, o lugar deixado por Brasil e Argentina. Afinal, os dois gigantes estão preocupados com outras coisas…

  21. Sancho diz:

    O trabalho do Oscar Tabaréz é hierarquizado. Começa lá na base, no sub-troço. O plenajamento conta até com aulas de ENTREVISTA. Eles estão formando grupos, cheios de individualidades competentes. Se continuarem assim, incomodarão muito por muito tempo…

  22. Eduardo diz:

    Estaria Tabarez fazendo o que Bernardinho e Zé Roberto fizeram no volei tupiniquim???
    fico imaginando uns 10 anos seguidos de glórias charrúas….

  23. Murilo diz:

    A imprensa alivia para o Neymar e Ganso com a desculpa de que eles ainda são muito jovens. É uma grande bobagem, o que vale é a maturidade, no caso de alguns jogadores, a falta dela.

    Maturidade que não faltou ao jovem goleiro Muslera e ao mais novo ainda, e zagueiro, Coates.

  24. Cícero diz:

    #22

    ao que tudo indica sim. Esse time tem lenha pra queimar ainda, sem contar as seleções de base.

  25. Mano diz:

    Que texto fenomenal, Godo. É o tipo de coisa que faz o cara ainda ter vontade de ensinar um filho a amar o futebol. Parabéns mesmo.

  26. J Petry diz:

    Flamengo ontem claramente se inspirou no texto do Godinho.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>