Segunda-feira de descanso, mas só para o time. Fui dormir às quatro de novo, primeiro jogando truco com o Marcel, depois vendo um filme, depois me revirando na cama. Tava me sentindo culpado, pois estava há uma semana no clube e já vendia um guri, com quem nem tinha conversado direito. Mandei uma mensagem para o celular dele, vamos almoçar juntos? O horário da mensagem: 4h28. Ele deve achar que sou puto.
Acordei às nove e fui correr. Acho que consegui correr por toda Caboclos, duas horinhas. Parei para tomar um café em um bar. Um velho me reconheceu. Tava no estádio ontem.
Disse que antes eram dois clubes em Caboclos, o Guarani e o Estudantil. O Estudantil, verde e negro, era o melhor da cidade. Chegou à primeira divisão nos anos 60, quando o campeonato se profissionalizou. O Guarani era só um clube social de velhos que jogavam bocha e que volta e meia fazia um time para disputar a segunda divisão, mas nunca ganhava de ninguém. Até que um dia, o Estudantil caiu, e uns sócios descontentes resolveram pegar metade dos guris que jogavam bola em Caboclos e refundar o Guarani. Em 1971, conta ele, aconteceu o primeiro grande clássico Estu-Gua. Foi 4 a 1 para o Guarani, que jogou de rubro-negro, par de cores que adotaria para sempre. Depois de uns 10 anos na segundona, o Estudantil propôs uma fusão. Nasceu o Caboclos Futebol Clube, branco, verde e vermelho, que foi campeão da segundona e subiu para a primeira. Ficou só um ano. Não lotava estádio, ninguém se identificava com o time, não dava dinheiro. Foi lanterna na primeira divisão. Em 1988, conta ele, o Guarani foi refundado por um ex-jogador do time de 1971, e nunca mais se desfiliou. O Estudantil não sobreviveu. Tentaram voltar com o clube umas três vezes, sem sucesso.
Descobri que a cidade tem duas rádios e um jornal. Nas rádios, parece que elogiaram muito o time ontem. No jornal, tava na manchete: “Guarani consegue empate heroico contra a Macaca”. Lá dentro, uma avaliação dos jogadores. Nota 9 pro Zezinho, 6 pro Uílquinson, 7 para o Wendel. Não sabem nada, esses jornalistas.
Chamei o empresário que ia vender o Uílquinson para o almoço. Os representantes de Portugal já tinham ido embora. O Uíl apareceu com a namorada, Marcela, bem bonitinha. De onde vem esse nome? Era a lâmina de barbear que se usava na época. Mas teu pai é velho, hein? Não, era usada pelo meu avô. Eu sou Uílquinson Júnior.
Vinte e dois anos, jogou na base do Atlético Paranaense, depois rodou por uns três clubes de segunda divisão e atuou na Série D por um time do Pará. Falei para ele do interesse de Portugal, ele disse que não era novo, que tinha uma proposta de Portugal quando jogava no Pará, mas o presidente não aceitou. Um mês depois, encerrou o contrato dele e o presidente não sabia.
Então, troquei de empresário. Quem é agora? Eu mesmo. Esses caras só me sugavam. Não fosse eles, não teria assinado com o Guarani por R$ 5 mil. Tá a fim? De que? De ir para Portugal. Não sei. Queria jogar o campeonato aqui antes. Cara, é 120 mil na tua mão. Vai que tu quebra uma perna amanhã. É que eu tenho segundo grau completo, queria começar uma faculdade. Segundo grau completo? Porra, ninguém tem isso. Ninguém mesmo. Mas tempo para estudar tu vai ter. Tá bem, vou pensar.
Lógico que o empresário não levou fé no “vou pensar”. Os representantes dos tugas devem chegar com uma proposta pelo Gílson amanhã. Que Gílson? O centroavante de Ponte Preta. Tá brincando, que valor? O mesmo do Uílquinson, com a diferença que o negrão tem currículo, e esse piá aí, não. E o Wendel? Esse tá garantido. Pelo que entendi, o Leça de Portugal não tem nenhum meia direita e o treinador só joga no 4-4-2. Esse aí é desespero. E será que não conseguimos 400 mil só por ele? Viabiliza o clube igual. Vou tentar.
Marquei uma janta com o Wendel, no mesmo lugar. Ele foi sozinho. Dezenove anos, joga no Guarani desde os dezessete, sempre como reserva. Tinha certeza que ele toparia, até que ele me contou uma história.
Tinha cinco anos de idade, morava no subúrbio do Rio de Janeiro. O pai, ex-jogador; a mãe, cantora sertaneja de relativo sucesso. O pó destruiu com a carreira dos dois. Cheiravam dia e noite, quatro, cinco vezes por dia cada um. Cheiravam para cozinhar, para ver filme, para lavar roupa, para tudo. Ele achava que aquilo devia ser muito bom, e não entendia por que a tia dizia para ele levar sempre a Bíblia para casa, pois eles precisavam encontrar a Deus. Num domingo, viu a mãe agonizando no sofá, com cinco picos em um só braço. O pai tentou dar cachaça com leite para ele dormir enquanto fazia alguma coisa. Saiu correndo para a casa da tia, e dali, nunca mais saiu. Foi preso, o pai, depois assassinado na cadeia. Ele acabou criado pelos dois tios, que ensinaram para ele o caminho de Deus, do qual ele jamais se desviaria.
Um dia, no campeonato do colégio, chamaram ele para jogar futebol e ele foi para Caboclos, depois de receber uma iluminação. Hoje, prega todo sábado na igreja da cidade. Se Portugal for o destino que Deus quer, Deus vai dizer para ele no sonho desta noite. Assim escreve o Senhor, afirmava ele enquanto destrinchava tranquilamente o galeto. E se Deus colocasse 120 mil na tua mão? Se for a vontade dele que eu aceite o dinheiro, tudo bem; se não for, é dinheiro do demônio, assim como era do demônio o dinheiro que acabou com a vida dos meus pais. Depois dessa, pedi uma cerveja. Ele seguiu bebendo água.
(dia 9)
Hoje, chegaram os piás que um dos empresários me prometeu. Geraldo, volante de ofício, 18 anos, nove deles na base do Corinthians, dispensado por deficiência técnica. Yuri, 19 anos, também volante de ofício mas faz a lateral esquerda também, 5 anos na base do Palmeiras e um emprestado pelo Taguatinga, dispensado para enxugar a folha. Na primeira corrida, deu para ver que ambos têm futuro.
A pedido do presidente, cheguei 8h30 no clube – o Marcel foi comigo, para ver o treino. O presidente fechou a porta da sala. Ontem, recebera uma ligação do presidente do Guarani de Campinas. Queria saber quanto pelo Zezinho. Respondeu: 100 mil por empréstimo até o fim do ano, 600 mil fixados pelo passe. O Guarani achou muito e disse que iria pensar. Tudo isso era para dizer que no próximo amistoso, contra o time amador de São Roque, era para usar o mesmo esquema com duas linhas de quatro e colocar ele na meia esquerda. Afirmativo.
Treino de recuperação bom pela manhã, mas Beto estava amuado. Chamei ele para conversar antes da musculação. O que houve? Ô chefia, sabe esse garoto aí que você colocou no gol? O Roberval, que tem? Pois é, chefia, pegou mal no domingo, sabe? Começou a gritar comigo, parecia que os gols eram culpa minha…Mas você falhou em um deles, Roberto. Falhei nada, chefia, o Gílson é craque, ele tem toda a manha da pequena área. Além do mais, esse guri é muito metido, sabe? Tem 20 anos, nunca foi profissional, ele não pode me destratar assim na frente de todo mundo, entende? Eu joguei em time grande, os caras tavam aí de Portugal pra me ver, o passe é meu, se eu quiser, vou embora, mas eu não quero prejudicar o clube, entende? O Cleston (goleiro reserva) é meu parceiro, tem experiência, não pode ser reserva desse time, entendeu? Acho que era uma boa pensar nisso…Tá bem, vou pensar. Enquanto isso, tu podia conversar direto com ele, e não comigo.
Filho da puta, esse Beto. Muito filho da puta. Como assim, o passe é dele e não quer prejudicar o clube? Um ano e meio parado por causa da porra do antidoping, o presidente deu a ele uma oportunidade de voltar, e ele acha que pode escalar a merda do time? Tô pensando em chamar aquele empresário pra conversar. Vou mandar esse cara embora daqui.


Roteiriza e filma. Kikito na certa.
mandando bem LF. não dá prá fazer 2 capítulos por semana?
Tá ficando cada vez melhor.
A série é ótima, mas vou pegar no pé como no capítulo anterior: põe o link das partes anteriores no começo ou no fim do texto! Fica mais fácil pra quem pegar o bonde andando ou quiser rever.
afudê.
é um CM escrito e dramatizado. quack.
Che, mto foda essa série aí pqp.
(pra nao deixar de cornetar, podia ter “travessoes” nas falas dos viventes)
Muito foda…
“Cleston (goleiro reserva)” hahaha… Tirando nomes do rockgol então!? hahaha
Fico pensando nas fontes do escritor. De onde tira o que vai escrever? Para esta serie tao interessante, precisa ter vivenciado de alguma maneira o dia a dia de um clube modesto de futebol. Imaginacao pura e simples acho que nao basta, acho.