Como los tientos de un lazo / se entrevera nuestra historia / esa historia de a caballo / que huele a sangre y a gloria.
Nos mapas, nos livros, nas bandeiras – em realidade por toda parte – há Uruguai e Argentina. Há uma delimitação de fronteiras, uma diferenciação de moedas e evidentemente de gentílicos. No entanto, a um primeiro olhar já surgem certas semelhanças gritantes. O bandoneón soa nos dois territórios, assim como a milonga. Nas capitais, a arquitetura se repete, consequência de imigrantes que vieram do mesmo ponto de partida – assim como uma infinidade de costumes que, em constante transformação, seguem em paralelo. Talvez porque, na verdade, só exista um rio e as suas duas margens.
No futebol, reflexo de todo o resto, argentinos e uruguaios diferenciaram-se desde sempre. Há mais de cem anos suas seleções nacionais se enfrentam, por duelos em competições continentais e internacionais; também seus clubes disputam os títulos da Copa Libertadores com uma rivalidade que desafia a memória. Ainda que se possa dizer que, mais do que um estilo uruguaio ou argentino de jogar futebol, o que existe é o estilo do Rio da Prata, cuja descrição se encontra no mítico “Fútbol a sol y sombra”, de Eduardo Galeano: “en las canchas de Buenos Aires y de Montevideo, nacía un estilo. Una manera própia de jugar al fútbol iba abriéndose paso, mientras una manera própia de bailar se afirmaba en los patios milongueros. Los bailarines dibujaban filigranas, floreándose en una sola baldoza, y los futbolistas inventaban su lenguaje en el minúsculo espacio donde la pelota no era pateada sino retenida y poseída, como si los pies fueran manos trenzando el cuero. Y en los pies de los primeros virtuosos criollos, nació el toque: la pelota tocada como si fuera guitarra, fuente de música.”
Estilo que talvez tenha começado a fundir-se (ou talvez não tenha um início e seja um resultado natural daquelas terras, sem data de partida e término possível) em maio de 1901, há mais de 110 anos, quando, em Montevidéu, duelaram aparentemente pela primeira vez os selecionados dos dois países. Aparentemente porque há um conflito de informações sobre o match disputado na cancha do Albion, no bairro montevideano de Paso del Molino. Que os argentinos atravessaram o rio com a sua seleção, não há dúvida. Julga-se, no entanto, que aquilo foi mais um amistoso internacional do próprio Albion – com reforços pontuais do Nacional – do que o primeiro enfrentamento entre os países do Rio da Prata.

Na Argentina, a inauguração do clássico é documentada como ocorrida um ano depois, em julho de 1902, no mesmo pequeno estádio de um ano atrás. Segundo o relato do já extinto jornal argentino El País, “el ataque de los nuestros no se hizo esperar, y en una buena corrida de Dickinson, de Belgrano Atlhetic Club, hizo el primer goal para el bando argentino.” Os portenhos, a maior parte jogadores do velho Alumni, fariam ainda outros cinco gols. Mas foi em 1928, nos Jogos Olímpicos de Amsterdã, que se deu a primeira grande final entre os dois países – ou a primeira que, em razão do evento e do cenário de disputa, seria recordada sem prazo de validade.
Para chegar à decisão, o selecionado uruguaio eliminou a Holanda, a Alemanha e a Itália; o argentino, os Estados Unidos, a Bélgica e o Egito. No verão holandês, empate na primeira partida final em 1-1 e vitória dos uruguaios por 2-1 no jogo decisivo que viveu o Estádio Olímpico de Amsterdã. Héctor Scarone, homem do Club Nacional de Football por duas décadas completas, marcou o gol da vitória, assim narrado por Galeano: “Uruguay y Argentina iban empatados, cuando Píriz peló la pelota a Tarasconi y avanzó hacia el área. Borjas la recibió de espaldas al arco y se la cabeceó a Scarone, al grito de tuya, Héctor, y Scarone la pateó al pique y de voleo. El arquero argentino, Bossio, se tiró en paloma, cuando ya la pelota se había estrellado contra la red. La pelota rebotó en la red y volvió, picando, a la cancha. El puntero uruguyao Figueroa volvió a meterla, castigándola de una patada, porque eso de salirse era mala educación.”
Hombro a hombro o pecho a pecho / cuántas veces combatimos / ¡Cuántas veces nos corrieron /cuántas veces los corrimos!
Da final das Olímpiadas de 1928 à final da Copa do Mundo de 1930, houve oito jogos entre Argentina e Uruguai – e só em um deles a Celeste, a grande seleção do globo naqueles tempos, saiu vitoriosa. A superioridade foi retomada na decisão daquele mundial, cujo palco, pela primeira vez na história, foi o imponente Estádio Centenário; cenário erguido em menos de um ano (foram 362 dias) por mais de mil operários que se revezavam em três turnos ininterruptos de trabalho. Diferentemente do que ocorreu nos Jogos Olímpicos, em Montevidéu o Uruguai agarrou a taça com um placar menos sofrido (4-2), que, no entanto, talvez não tenha definido com realismo o que foi o jogo. Depois do gol de abertura do uruguaio Dorado, a Argentina virou a partida e só sofreu os três gols no segundo tempo.
As décadas seguintes não reservaram mais nenhuma final mundialista e tampouco olímpica entre os países do Mar Dulce. Não faltaram, é certo, glórias, desastres e festejos para ambos. Pode-se dizer, também, que com o passar dos anos foi possível notar um distanciamento futebolístico entre argentinos e uruguaios; diferença que se mantém até hoje no imaginário do futebol sul-americano. Talvez a partir do heroísmo de 1950, e de certa forma com a confirmação dos caudillos de Peñarol e Nacional a cada conquista da Copa Libertadores, o futebol oriental se relacionou mais à coragem, à bravura e às causas impossíveis do que com o talento e o toque de bola, qualidades tidas ainda como argentinas – tudo, evidentemente, dentro dos conceitos abstratos de sempre.
Um fenômeno histórico, entretanto, é a presença e o sucesso de argentinos no Uruguai e de uruguaios na Argentina. Desde os primórdios (desde aquele primeiro contato, ainda em Paso del Molino?) aos dias de hoje. Foi assim com o lendário Atílio García, atacante nascido em Junín, na Província de Buenos Aires, que se tornou o maior artilheiro do Nacional de Montevidéu. Mesmo aposentado, Atílio não deixou a capital uruguaia, onde faleceu em 1973 – hoje, uma das tribunas do Parque Central leva o seu nome.
Em contrapartida, um dos maiores ídolos modernos do River Plate é um montevideano que iniciou a carreira no Prado, vestindo a jaqueta listrada do Wanderers. Enzo “El Príncipe” Francescoli, que somou quase dez anos em Núñez, levantou a Libertadores de 1996 e teve, possivelmente, a despedida mais pomposa que um jogador já recebeu no Monumental. A lista segue, é infinita e independe da década; nela se inclui a passagem do uruguaio Severino Varela pelo Boca dos anos 1940, tempo em que foi o grande carrasco do River. E de Raúl Castronovo, um argentino de Rosário que foi artilheiro da Libertadores de 1971 pelo Peñarol.

Milonga para que el tiempo / vaya borrando fronteras; / por algo tienen los mismos / colores las dos banderas (versos de Jorge Luis Borges)
A atualidade dá o exemplo mais concreto do intercâmbio: no primeiro semestre, o grande atacante do futebol uruguaio foi um argentino (Alejandro Martinuccio, a quem os carboneros chamavam de por-te-ño a cada entrada em campo) e o maior centroavante do futebol argentino foi justamente um oriental (Santiago Silva, a quem se cogitou inclusive a nacionalização e uma vaga no selecionado vizinho). No âmbito das seleções, houve ao menos dois grandes jogos na última década. Em 2005, na última possibilidade de ir ao Mundial da Alemanha, um agônico gol de Álvaro Recoba deu a esperança – que terminaria sendo inútil – ao Uruguai. Nas Eliminatórias passadas, também em Montevidéu, o agora colorado Mario Bolatti fez o gol da vitória argentina e mandou a Celeste para outra repescagem.
Amanhã, uma vez mais, entram em campo os representantes do Prata. Mais de um século depois, o confronto deve ser visto como um reencontro. Distintos ou não, os dois países hoje se deparam com uma igualdade total na estatística do futebol – são dois Mundiais, duas Olimpíadas e quatorze torneios continentais para cada lado. Até mesmo o desempenho no duelo é idêntico pela Copa América – são treze vitórias para cada um e três empates. Será, portanto, uma oportunidade a mais para alguém sair na frente e criar certa vantagem; vantagem que um dia será igualada e posteriormente discutida de novo. Isso sobre o que chamamos de Uruguai e de Argentina. Mas un país es un invento, diz a mensagem de um muro na Ciudad Vieja, na capital da Banda Oriental. E talvez só exista mesmo um rio e as suas duas margens.
- Acompanhe Argentina vs. Uruguai no minuto a minuto do Impedimento a partir das 19h de sábado.
Iuri Müller



Só uma correção, a libertadores de 71 foi ganha pelo Nacional. ñ pelo Peñarol.
ótimo texto.
abs.
Alaputcha que é macanudo esse guri tchê.
Baita texto. Com a marca do Impedimento.
Outra correção… Francescoli ergueu a Liberta de 1996. Ele já estava no Racing Paris dez anos antes quando o River conseguiu sua primeira Copa.
De fato, há vários casos de uruguaios de sucesso na Argentina (como também Walter Gómez) e vice-versa… mas, até onde sei, apenas a seleção uruguaia aceitou reforços rivais: além do mencionado García, houve, pelo menos, também Hohberg… alguém sabe de mais casos?
Isso sim é um texto.
Um argentino que fez muito sucesso no Uruguai (e também no Brasil) foi Artime, goleador de River, Independiente, Palmeiras e Nacional.
Sobre Hector Scarone, herói do título olímpico de 28, ele até hoje é o maior artilheiro da Celeste. Jogou por muitos anos no Nacional, mas teve rápidas passagens por Barcelona e Internazionale.
Ótimo texto.
texto GIGANTE.
gracias, iuri.
***
um comentário curioso sobre “(Alejandro Martinuccio, a quem os carboneros chamavam de por-te-ño a cada entrada em campo)”:
alguns anos atrás, eu estava em um bar cujo proprietário/gerente é [era?] uruguaio. conversando AMENIDADES, lá pelas tantas fiz uma pergunta RETÓRICA, “então tu nasceu em montevideo?”, ao que ele prontamente respondeu “si, soy porteño”. ANTE meu ar de confusão pela resposta, já que relacionamos sempre o “porteño” a buenos aires, ele rapidamente completou “tu tambien, si nasciste en porto alegre”.
só daí me dei conta [idiota] que “porteño” é o cara que nasce onde há um porto. logo, nesse sentido, ambos nascidos em montevideo ou buenos aires [a cidade, mas não a província] são “porteños”. e também aqueles da capital do rio, ou de santos, ou de ITAJAÍ.
esse gentílico só ficou marcado para os de buenos aires porque o primeiro nome da cidade foi “ciudad de la santísima trinidad y puerto de santa maría del buen aire.”
e segue o baile.
GRANDE relato como siempre do Iuri, pero mas uma retificação; Club Nacional de Football, ñ fútbol…
e em verdade a característica que marcam os ideais de patria e nação do uruguay tem mas a ver com os de Artigas daí a bandeira tem mas uma cor, una banda roja e o interesse se amplia a outros portos e outros litorais fato e direito deles mesmo!!!
pero como bem diz o muro mentevideano… a relatividade de tudo é tão grande que nada teria saido do papel se não fosse a Inglaterra!!!
sério e lamentável…
ahh e iuri tu que eh mestre da arte, ñ misture 1924-1928 COM QUALQUER OLIMPIADA CONTEPORÂNEA!!!
ganharemos denovo la copa de visitante!!!
nunca perderemos la copa de local!!!
amanhã eh dia heineken e debut de minha retrô do maracanzo!!!
SERÁ UM GRANDE DIA!!!
merecemos…
sabemos cumplir!!!
Que grande texto. Pra mim dizer que a (pseudo)rivalidade brasil e argentina é a maior de sudamerica (ou simplesmente equipará-la a um Argentina X Uruguai) não passa de um atestado de ignorância sócio-futebolística. (salu2 Globo y Galvão “ganhar da argentina é melhor ainda” Bueno)
argentina
grande texto
e que foto del principe…
Obrigado pelas correções, Giuliano, Caio e FERN.
Cheguei a conferir mais de uma vez se o Francescoli havia ido para o Racing Paris antes da Libertadores. Assim mesmo, errei o ano na hora de escrever. E o Castronovo foi de fato artilheiro daquela Libertadores; o “campeão” talvez tenha saído pela empolgação (?). Tudo culpa do sono.
Sensacional.
Acho que, para os que têm uma certa familiaridade com a história latino-americana, é bem fácil de compreender a questão da “raça” uruguaia: entre os dois gigantes que eram Brasil e Argentina, lá estava a Banda Oriental (cuja população era meia dúzia) contra o Império tupiniquim e a república convulsante da convenção de Tucuman nas guerras platinas.
Os uruguaios expulsaram o Império e asseguraram sua independência diante da Argentina, sozinhos. Posso estar sendo dramático aqui, mas é com certeza um dos maiores feitos da história desse rincão do mundo – e como futebol é histórico, antropológico, sociológico e o escambau a quatro, como não carregar esse espírito pra dentro de campo?
massa, iuri.
Puta merda, o Iuri escreve muito.
Acompanharei o minuto a minuto.
Uma diferença que me parece salutar é a presença de negros desde sempre no futebol uruguaio, como aprendi aqui mesmo, num texto sobre Isabelino Gradín. Na outra banda do Rio, desconfio que não tenha acontecido o mesmo.
Baita texto…
To sentindo que o Forlan fará nesse jogo os gols que ainda não fez na competição…
Além do texto alucinógeno, as fotos antigas são muito fodas.
Parabéns.
#15 – Sim, Gilson. Muito legal mesmo. Sempre um Negro marcando presença.
Muito legal e surpreendente o texto, Parabéns ao autor (não conheço).
Lamento que qualquer um dos times que passar, será derrotado na semi-final.
Que grande sos, che.
Otra sobre 1928 é q a expressão ‘TUYA, HÉCTOR’ se mantem viva até os dias de hoje en Cordón, Aguada e barrios arrabaleros como uma espécie de ‘TE VIRA’.
Scarone recebeu a bola meio quadrada e mesmo assim… ADENTRO.
Grande lembrança do FERN; a bandeira do ARTIGAS. ENTRE RIOS te agradece. ashuashuashua.
Excelente, Iuri, como de praxe.
E o comentário do Dante, um primor.
Impedimento, como convém, praticando BULE no resto da imprensa deportiva nacional.
Lugano RACHANDO Messi.
Tenho sonhado com isso por uma eternidade.
Grandissimo texto,nao tem como nao elogiar.
E to na torcida pela Argentina,precisamos do Loquito de volta.FORA HERRERA!
Lugano rachando Messi…
Isto é algo que só no Choque Celeste, se pode ‘prenunciar’…
Lugano rachando Neymar.
A cicatriz merecida que o futebol ainda não IMPRIMIU no Guri..
Não. Não torço para isto acontecer.
Apenas não sei porque não ACONTECEU AINDA !!!
P.S. Lugano rachando Pato …? Talvez.
Mas Lugano, por algum motivo, NÃO (r)achou Sobis…
Copa America de verdade vai ser a Copa America Alternativa de 2012:
http://www.autonomosfc.com.br/caa2012