Batoumambé, amor impossível na sexta-feira

Tem uma rachadura na calçada em frente ao meu prédio. Foi o sofá. Um sofá velho, verde, nem sei mais se de mofo ou da cor original dele, que um amigo nos deu quando viemos para cá. Tínhamos acabado de chegar a Paris, não devia fazer duas semanas. Arranjamos um apartamentozinho de subsolo na Goutte d’Or, que literalmente significa gota de ouro, mas na verdade é um bairro de imigrantes africanos sem prata, legais ou não – e você sabe o que isso quer dizer em termos de desprezo num país europeu. Eu? Eu estou legalizado. Juro. Tanto que consegui esse trabalho aqui, no aeroporto. Limpo o chão e converso com os viajantes, mas quase ninguém quer conversar com um negro de vassoura na mão. Devem pensar que não tenho nada de útil a falar.

E talvez não tenha mesmo, você vê como desviei o assunto. Mas a rachadura lá na minha calçada, como eu ia dizendo, surgiu no dia em que ganhamos aquele sofá verde para botar na sala. Nunca parei pra medir, mas não deve chegar a quatro metros por três. É um quadrado apertado em que mal cabemos eu e a minha esposa. Tínhamos acabado de chegar, eu achei que seria provisório, que logo encontraríamos mais espaço. Eu estava errado. E o sofá só nos tirou ainda mais o pouco espaço que conseguimos. Agora nos desfizemos dele, aquele monstro de mofo que mal me deixava respirar. Acho que isso ajudou a desenvolver o meu problema. Você deve ter notado minha voz meio anasalada. Começou quando vim para cá e só piorou. Trabalhar de faxineiro é venenoso, a poeira sobe em vendaval a cada passo, acredita que o meu nariz é um lugar bom e fica por ali. Às vezes sinto tudo se fechar, parece que sufoco. Vou pro banheiro molhar um lenço na pia e seguro diante do nariz. Alivia.

É difícil ser africano em Paris. Nem digo ser negro, que se tu és magrebino eles te deixam de lado igual. Coisa de tu te esforçares para falar em francês com alguém daqui e fazerem de conta que não te entendem. Ou, o que é pior, muito pior, comentarem que o francês é uma bela língua: fale francês, e te darem as costas, porque o teu francês não é o francês que eles querem e isso eles têm que deixar claro. Mas tente falar com eles em inglês ou alguma outra língua: não sabem. Ou falam pior o meu inglês que eu o francês deles. Quando um de nós, imigrantes, é útil para os times deles, ou vence um jogo de tênis, ou resolve correr uma Olimpíada com a bandeira deles e tem chance de terminar no pódio ouvindo a Marselhesa, nessa hora ele vira francês. Eu não sou francês.

Lá na Goutte d’Or, a nossa Little África, muitos não são franceses. E isso que nós estamos numa parte nobre da cidade, quase no centro, ao menos perto do centro que nos permitem. Quando eu saio na rua não é difícil ver a cúpula da basílica de Sacré-Coeur no horizonte. É muito mais perto da França real do que estavam aqueles jovens de Clichy. Você deve ter ouvido a respeito. Isso em 2005, uns dois anos antes de eu chegar aqui. Aqueles carros incendiados, as barricadas nos subúrbios, os conflitos com a polícia. Existe um muro invisível que divide essas duas Franças, e nós estamos do lado que grafita desaforos por não conseguir derrubá-lo nem pular por cima dele. E se pulássemos alguém ia descobrir e bater em nós. Moramos a um ou dois quilômetros dos franceses, às vezes mais, mas às vezes nem isso, e não somos parte da sociedade deles.

Acho que no resto da Europa deve ser parecido, mas só sei do que ouço aqui pelo aeroporto. Um dia eu tive uma das minhas crises respiratórias quando estava andando pela rua e precisei usar o lenço. Sentei na escadinha em frente à porta de um dos edifícios da vizinhança, tentando recuperar o fôlego. Os policiais estavam passando por ali na mesma hora, me olharam desconfiados, fizeram um monte de perguntas. Tinham certeza que eu estava me drogando de alguma forma. Mostrei a garrafa de água que eu tinha comigo e expliquei o problema. Estar regular no país me fez escapar dessa, mas mesmo assim foi custoso acreditar quando eles compreenderam e me deixaram em paz. Não costuma ser assim, ainda mais numa cercania com fama de ser um antro de tráfico e de dopados, que as pessoas evitam em horas avançadas.

Agora quase não tenho tempo de andar lá. Praticamente só vou para casa dormir e estar com minha mulher. O aeroporto é longe. E é isso ou vender miniaturas de Torre Eiffel embaixo da própria Torre, ou algum emprego pior, muitas horas por dia. De qualquer forma, mesmo quando termino o serviço fico mais um tempo aqui. Já me perguntaram se eu gostava dos aviões. Não é isso. Eu não vejo eles. Mas aqui, quando não é mais hora do serviço, eu me sinto minimamente livre. Talvez seja o único lugar do país em que não estão tão preocupados com o jeito que você fala, e mais com aquilo que tu carregas contigo. E eu não carrego nada – eu não tenho nada. Então não se importam. Pego um hambúrguer e fico vendo o movimento, refletindo sobre a vida. Antes de caminhar até o terminal do RER, o trem suburbano, que vai me levar para pegar um metrô, que vai me deixar a algumas quadras de casa, é isso que eu faço.

Olho e penso. E não posso dizer que tenho saudades de Gana. Se lá estivesse bom, eu não teria vindo para cá. Eu sabia o que me esperava aqui. Amigos vieram antes, e escreviam que o sonho europeu era mentiroso. Mas no meu país eu passava fome. Vou lhe dizer: o que me faz mais falta é jogar futebol. Aqui nem temos onde. O mais próximo disso é jogar contra uns marroquinos num playstation velho, em uma loja perto de casa. Pego o Manchester United, por causa das cores. Em Gana eu torcia pelo Asante Kotoko. Quando menino, só queria uma camisa vermelha para ser outro porco-espinho, que é esse o apelido que ganha quem joga na equipe. Já ouviu falar de um time com um porco-espinho no escudo? Minha ilusão era ganhar a Copa da África. Eu estava no estádio com meu pai na final de 1993, que perdemos.

Nunca mais tive notícias do clube desde que vim para a França. Torço para as equipes que tenham algum ganês. Ou para a seleção. Sim, sim, os Black Stars. Teve uma noite em que não fomos só nós que torcemos por eles. Demos um jeito de fechar a nossa rua e, por milagre, nenhum policial apareceu para nos interrogar. Noite de sexta-feira, quartas-de-final de Copa do Mundo na tevê, devia ser por isso. Muita gente ali perto não tem televisão em casa. Eu, por exemplo. Até poderia comprar uma velha, mas simplesmente não tenho lugar para deixá-la. Meu primo pegou a dele e botou na calçada, para reunirmos mais facilmente os ganeses do bairro. Ainda não havia escurecido. No verão, o sol só se vai depois das dez, em Paris. Estávamos preocupados em conseguir uma maneira de fazer o fio da tomada chegar do corredor do prédio até a rua, e ainda não tínhamos resolvido isso quando vimos que outras pessoas desciam trazendo cadeiras e se juntavam a nós.

Foi um egípcio que instalou a extensão. Sim, egípcio. Os marroquinos foram também. Sul-africanos, argelinos, chadianos… Percebi o que significava vencer aquele jogo. Contra o Uruguai, nós éramos a África inteira tentando pela primeira vez jogar a semifinal da Copa do Mundo. E Gana estava tão linda de vermelho, uma cor que chama para a guerra sempre. Mas o jogo não se resolvia. Anoiteceu de verdade em Paris, e por um instante de distração eu desviei o olhar e vi o céu já tomado de negro, acima das luzes amarelentas que se derramavam sobre as fachadas encardidas da nossa rua. Alto, num canto, o exterior branco da abóbada da igreja. O encerramento do dia em que fugimos dos hábitos. As mercearias fecharam mais cedo, os jantares foram antecipados, pais deixaram os filhos faltarem à aula do sábado de manhã, muçulmanos capitularam em seu dia da semana mais sagrado. E eu troquei meu turno de folga só para poder ver a partida.

A tela da tevê era um bruxuleio no canto do meu olho, que notava a maravilha de tantas cabeças de tantos países reunidas ali, uma assembleia emocionada ao redor de uma vinte polegadas chuviscante, e eu senti que nós merecíamos aquilo tudo, uma vez na vida. Meu primo me agarrou gritando louco e eu direcionei a visão para a tela novamente. O uruguaio resolveu jogar futebol com a mão. Agora, com tudo terminado, eu sinto mais raiva dele do que do Gyan, que parecia estar preocupado em aumentar sua própria contagem de gols e não em perceber se tinha condições de chutar o pênalti de todos nós. Raiva pode não ser a palavra mais certa. É mais um tipo de incompreensão: por quê? Será que ele não entende o que nós sentimos?

No intervalo antes da série de pênaltis, um malinês começou a cantarolar uma música de seu país. Era num idioma local que eu não conhecia, um ritmo bonito, e repetia sempre uma palavra que eu conseguia diferenciar das outras – Batoumambé. Quis saber o que significava e ele explicou que era o nome de uma moça nascida numa aldeia de pescadores, e que a canção falava da paixão de um homem de uma tribo rival por ela. Duas tribos que viviam em guerra, se odiavam. O amor entre eles era impossível. No Mali eles têm um provérbio, dizem que nascido da letra dessa música: nem todo amor acaba em casamento. Questionei por que lhe ocorriam os versos num momento daqueles, mas ele me fitou surpreso, como se a resposta fosse óbvia. E não disse nada.

Meia hora mais tarde, eu mesmo me sentiria estúpido por ter perguntado. Depois do jogo, a rachadura da calçada dobrou de tamanho. Foi de quando meus sonhos terminaram de se arrebentar no chão.

Maurício Brum

 

 

* Baseado no relato de um ganês que conheci em Paris. Há quase um ano, em 2 de julho de 2010, Uruguai e Gana criavam e destruíam sonhos em uma das jornadas mais inacreditáveis das Copas do Mundo.

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34 Respostas a Batoumambé, amor impossível na sexta-feira

  1. J Petry diz:

    Uau!

  2. LUCAS diz:

    Nossa… é impressionante como um relato como esse, de algo vivo a milhares de quilômetros de onde nos encontramos, faz despertar a consiência sobre algo que é uma verdade óbvia e absoluta: o mundo não se resume ao bairro onde moramos, onde trabalhamos, a cidade em que vivemos, para onde vamos nas nossas férias, as pessoas que conhecemos… fico pensando o que faz e onde pode estar esse ganês neste exato momento…. pelo texto, Maurício, parabéns.

  3. SaPo diz:

    malinês secador

  4. FERN diz:

    ótimo relato como sempre do brum…
    boa reflexão lucas, pena que muitas pessoas ainda fiquem presas aos riachos que passam no fundo de seus quintais…

    e como se trata de FOOTBALL:

    “é que vcs (Gyan, ganés e seus vizinhos) não entendem o que nós CELESTES sentimos!”

  5. Anônimo diz:

    Perfeito o texto. E imagino que exista esse preconceito em toda a Europa mesmo, principalmente agora com o desemprego rondando.

  6. André diz:

    Que texto!

    Fez o meu dia!

  7. col diz:

    A regra eh clara: solamente assuntos sulamericanos aqui.

    hauhauahauha

    Ps: interessante o relato.

  8. Grande texto, chê.
    Ao menos alguma historia que preste nesse dia fudido…

  9. mardruck diz:

    Que texto maravilhoso.

  10. Proibam esses moleques de escrever antes que eu resolva jogar o meu diploma pela janela e virar VENDEDOR DE HOT DOG.
    Puta texto.

  11. Thúlio diz:

    Interessante o fato que ele relatou ali. Os africanos só são franceses quando convêm. Quando tem um negão bom no esporte eles cantam exaltadamente o hino francês. Quando acontece algo de ruim é culpa “deles”. Infelizmente no mundo inteiro é assim.

    E é impressionante como o futebol mexe com o mundo inteiro. Não tem esporte como esse.

  12. matheus furtado diz:

    simplesmente um relato à altura daquela batalha, e, que ironia, uma ‘guerra’ destas faz as pessoas esquecerem por um momento dos seus preconceitos.Fubó salva. Grandíssimo texto

  13. Junior diz:

    Puta texto (2). Recomendo o filme “Entre os Muros da Escola”, trata sobre a situação dos filhos dos imigrantes árabes e africanos na França e as óbvias dificuldades de (sobre)viver nas periferias de Paris. Mas a pior dificuldade talvez nem seja a econômica, mas a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Eles não são africanos ou árabes como os seus pais, tampouco são aceitos como franceses, embora tenham nascido na França.

    Por razões óbvias, achei bela essa definição: “E Gana estava tão linda de vermelho, uma cor que chama para a guerra sempre.”

  14. gilson diz:

    obrigado

  15. dante diz:

    #2 e #4:

    TOLSTÓI discorda:

    “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.

    ***

    genial o texto. GENIAL.

  16. Chico Luz diz:

    Bah, Maurício, que absurdo de texto tão foda.

  17. arbo diz:

    bá, cara.
    fez jus à partida. uma das melhores q já assisti.
    eu já apertei a mão de maurício brum.

  18. arbo diz:

    e outra coisa. essas músicas tornam tudo ainda mais sensacional. noutra vez foi aquele texto do douglas, direto da áfrica, com aquela música de arrepiar qq vivente.

  19. beretta diz:

    Fico honrado de já ter acertado o tornozelo de Iuri Müller e ter trocado umas três palavras com Maurício Brum.

    Que texto [139020749834635], senhores.

  20. O texto é tão lindo quanto a coisa toda da mão na bola do Suarez.

  21. Baita texto.

    Muito bom mesmo.

    E Paris é exatamente assim como no texto mesmo.

  22. Leonardo Fleck diz:

    Que texto!

    Fez o meu dia! [2]

  23. I. diz:

    Belíssimo texto, pra não variar do que acontece por aqui.

    Sei que não é o ponto do texto mas está lá: acho que do mesmo jeito que aquele jogo épico pode ser visto pelo ponto de vista celeste ‘soy copeiro’ e pode ser visto tragicamente como o amor que não acaba em casamento, o drama africano na Europa também tem dois lados. Não necessariamente do mau contra o bom ou do bom contra o mau.

  24. Fagner diz:

    Belo texto. Quando ele relata sobre a cor vermelha intimar para a guerra, eu só consegui pensar no fato que o azul foi quem venceu. Mesmo assim, puta texto.

  25. Rudi diz:

    Texto genial

    tive a honra já de apertar a mão de Mauri Brum e dar uma GRAVATA num jogo de impedcopa no Iuri Muller

  26. izabel. diz:

    texto genial.

  27. Darcio diz:

    Fantástico.

  28. Eduardo diz:

    Elogiar textos do Mauricio Brum me torna reincidente!!
    espetáculo Mauricio.

    aliás, coloco esse outro link do Mauricio aqui. que vale muito para o dia de hoje de todos nós, azuis…
    http://ilusionando.wordpress.com/2010/07/22/quatro-mil-anos/

    lembro de ter comentado aqui, no mesmo dia, de que ele poderia fazer parte do quadro da ImpedCorp e o Ceconello respondeu que já estava em negociações para aquisição do passe…. hehehe

  29. Henrique diz:

    Só me reforça a certeza que esse jogo foi a Final da Copa 2010.

  30. Zobaran diz:

    Ótimo texto. Aposto que ele te falou isso enquanto vocês queimavam um marroquino.

  31. Milton diz:

    O texto pode ser correto sob o ponto de vista o imigrante. Agora quem nunca morou na França não sabe q o povo frances paga impostos para q o refugiado possa ter, pelo menos moradia, saude e educação. O cara vem e fica na França, fala mal do francês mas desfruta do seu otimo sistema social. Não aprende a lingua e fala seu dialeto a vida toda. Ai como a França é laica e ele no seu pais pode ser poligamo traz suas 3 esposas e 15 filhos pra França. E o frances pagando imposto para sustentar uma familia de 18. E o cara fala mal da França na França. No pais dele tem guerra, perseguição, chacina, ditador, fome e ele falando mal do frances na França. Não sei quem está certo agora só culpar o francês é conhecer pouco da geopolitica dos refugiados…

  32. Artie diz:

    I am forever indebted to you for this infroamiotn.

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