Grandes descensos – o Racing Club de 1983

Não havia como ser mais feliz naquele 22 de dezembro de 1983. Em um único dia, conquistar um título na última rodada, mandar o maior rival para a segunda divisão e retornar à Libertadores – mais tarde, em retrospectiva, aquele momento ainda seria lembrado como o início da caminhada de novas conquistas, do continente e do mundo. Tudo isso enquanto o adversário de sempre se arrastaria no escalão inferior sem forças para sair de lá. Não havia mesmo como ser mais feliz do que um torcedor do Independiente de Avellaneda no 22 de dezembro em que tudo começou, em meio ao clima já natural de euforia e esperança por que passava a Argentina – apenas doze dias antes, o presidente eleito Raúl Alfonsín havia tomado posse, encerrando o brutal regime militar que começara em 1976. Mas esta não é a história dos que sorriram vestindo vermelho.

O Rojo entrou na rodada final seguido de perto por Ferro Carril Oeste e San Lorenzo, a sensação da temporada, que voltava da segunda divisão. O Racing chegou àquele dia devastado pelo rebaixamento confirmado quatro dias antes e saiu de campo como uma massa indefinida feita da lágrima dos seus torcedores e do pó a que estavam reduzidos seus onze representantes. A soma mais improvável de acontecimentos ruins se concretizara na Doble Visera, e enquanto os torcedores do Independiente ocupavam a grama com a alegria lhes incendiando a pele sob a camiseta, os blanquicelestes saíam silenciosos para o vestiário, já sem vestígio de seus apoiadores nas arquibancadas. O dois a zero do 13º título rubro poderia ter sido goleada. Pararam ao garantir a vantagem porque na altura do segundo gol os dois times só queriam o fim da partida. Um pela taça. O outro acreditando ingenuamente que o apito estridente poderia acordá-lo do pesadelo.

Sim, os torcedores da Academia desejavam que tudo não passasse de uma noite de sono ruim, de voltas na cama, daquelas em que tu tentas assumir o mando do teu subconsciente e afirma que aquilo não é real, mas procura abrir os olhos desesperadamente e se dá conta de que não consegue, não consegue de forma alguma, e passa a suspeitar que talvez o absurdo exista mesmo. Até que desperta, confuso e aliviado. O Racing estava na fase de tentar acordar. Percebia como séries de situações anormais se sucediam e as negava como verdadeiras. O 1983 seria o ano em que o torcedor racinguista Roberto Basile acabaria morto por um sinalizador atirado por boquenses na Bombonera, o plantel apanharia de barras-bravas nas cercanias do Estadio Presidente Perón e, após um treino, o atacante Félix Orte chegaria a ficar na mira da pistola de um aficionado enraivecido, que se contentou em roubar os cobres que o jogador trazia na carteira.

Desde a abertura da temporada se suspeitava que uma lição de sofrimento seria aprendida para sempre. Recém-empossado para um mandato até 1985, o presidente Enrique Taddeo assumiu o clube com um discurso de sacrifício – deixar de lado os resultados por uns tempos para salvar o Racing da ruína financeira. Taddeo se converteria numa espécie de capitão de navio afundado, apertado ao leme de suas convicções mesmo na iminência de encostar o casco rachado no fundo do Rio da Prata. Conforme a situação se complicava na tabela, o presidente recebia em sua sala mais ex-jogadores do clube, que chegavam lamentando a situação, dizendo que passavam por dificuldades e oferecendo um acordo supostamente bom para ambos – por algum favor em troca, facilitariam diante do Racing. Em cada jogo que o presidente pôde mudar a sorte de seu time desonestamente e disse “no”, a Academia foi derrotada.

A situação se apresentava mais hostil porque em 1983 o sistema de promedios, a média de pontos para definir os rebaixados, voltou a ser usado depois de dezessete anos. No futuro se diria que a volta tinha por objetivo preservar o River Plate – que naquele ano finalizou a disputa em 18º lugar entre dezenove participantes e, pela fórmula antiga, cairia –, mas o regulamento havia sido aprovado inclusive pelo Racing, muito antes de a equipe de Núñez ser ameaçada de queda. Naquele tempo, o promedio considerava os pontos de apenas dois anos, não de três, e a divisão da pontuação era feita pelo número de temporadas disputadas ao invés do total de jogos. O Racing já havia evitado o descenso por pouco no ano anterior, e trazia dele apenas 28 pontos em 36 partidas para a média. Apesar disso, uma campanha de meio de tabela serviria para livrar seus torcedores da enxaqueca da B. A escassez de vitórias, porém, lembrou 1982.

Encurralado, o presidente Taddeo tentou impor o choque anímico que só um mito provoca e contratou o técnico Juan José Pizzuti, comandante do Racing campeão do mundo de 1967. O artifício de recolocar na casamata um treinador histórico para fugir da segunda divisão já havia sido tentado – sem sucesso – pelo San Lorenzo, dois anos antes. Na jornada fatídica do descenso, quem escalou o Ciclón foi o mesmo Juan Carlos Lorenzo responsável por montar a equipe que vencera os dois campeonatos argentinos disputados em 1972. No Racing, sem o timaço dos anos sessenta nas mãos, que por sua causa ficara conhecido como “El Equipo de José”, Pizzuti não conseguiu mais que atuações medíocres. Caso os promedios não tivessem voltado, seu time teria se encaminhado para um fim de campeonato igualmente perverso – na tabela regular, acabou em 17º, somente um ponto e uma posição acima da antiga zona de queda. Na tabela de médias, foi lanterna. Caiu junto com o Nueva Chicago.

Mas em 15 de dezembro, uma semana antes do inesquecível jogo para se esquecer, pareceu possível ao Racing crer em noites mais tranquilas para ressonar. Contra o Unión de Santa Fé em Avellaneda, Carlos Alberto Caldeiro marcou o gol da vitória parcial racinguista aos quarenta do segundo tempo. O Cilindro contemplava a viabilidade de todos os milagres da vida e girava pañuelos aos cantos de “Racing no se va”. Aí Brindisi apareceu desmarcado e empatou para os santafesinos no último lance. Três dias mais tarde, no surrealismo do pesadelo, o Racing que tanto tivera que lutar contra si mesmo durante o ano encarou de fato outro Racing, dentro de casa. O de Córdoba. Perdeu por 4 a 3, depois de estar levando 4 a 1, com uma violenta briga entre torcedores e policiais talvez saudosos da ditadura recém-findada, derramando sangue e interditando o estádio para o início da segunda divisão de 84. Este, na penúltima rodada, foi o verdadeiro jogo do rebaixamento. O destino de enfrentar o Independiente na partida seguinte, já morto e quando o rival podia campeonar, era capricho de um diabólico roteirista entorpecido.

O sonho ruim do qual o Racing não conseguia acordar prosseguiu no ano seguinte. O mesmo dezembro de 1984 que consagrou o Independiente bicampeão do mundo viu a Academia perder os dois playoffs finais da segunda divisão diante do Gimnasia de La Plata e ficar mais um ano apartada. Apenas em 1985, duas temporadas e intermináveis noventa e seis jogos na B depois, o time recuperou a categoria. Contra o Atlanta, em dois jogos no Monumental e com um agregado de cinco a um, os blanquicelestes enfim abriram os olhos. Os que permaneceram com eles escancarados naquele tempo haviam comprovado o quanto um grande podia sofrer mesmo sendo grande – uma impressão que o San Lorenzo, com um acesso rápido seguido de vice-campeonato, não havia causado. Com o susto, nunca mais algum dos cinco maiores foi rebaixado. Ninguém, desde então, esteve tão perto disso quanto o River Plate de 2011.

Hay que llenar el corazón,
Maurício Brum

 

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29 Respostas a Grandes descensos – o Racing Club de 1983

  1. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    Bah che, qué puedo decir? Tempos negros…
    Na real Racing é sofrimento.

  2. Leonardo Fleck diz:

    GENIAL

  3. arbo diz:

    é o q resta aos cordobenses?

  4. Gralha diz:

    fantástico post. parabéns

  5. Chico Luz diz:

    Maurício, o Racing mesmo foi rebaixado nos anos 90, não?

  6. Vinicius diz:

    Racing é o atlético mineiro da argentina com 1 libertadores apenas.
    de resto, tudo igual.

  7. #5 o Racing viveu algumas temporadas tenebrosas mas não chegou a ser rebaixado outra vez, Chico. No fim dos anos 90 teve a famosa quebra do clube, quando eles decretaram falência e os tribunais disseram que o Racing não existia mais como associação civil – mas eles seguiram disputando os campeonatos normalmente, sustentados pela história. Isto sim, em 2008 o Racing teve que passar por uma Promoción, mas escapou com relativa tranquilidade (justamente contra o Belgrano). Já o River de agora ainda nos oferece o drama da total incerteza quanto ao seu futuro.

  8. San Lorenzo diz:

    Esto es Racing Club (Blanquiceleste S.A)

  9. San Lorenzo diz:

    Racing foi vendido a uma empresa em 2001 (Blanquiceleste S.A).

  10. Michel diz:

    Sensacional!

  11. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    #8 Racing tem uma libertadores. salu2

  12. rafael botafoguense diz:

    quem caiu nos 90 foi o edelp.

  13. Jorge Burruchaga, 1984 vive! diz:

    Aguante Independiente y Internacional! Un saludo a nuestros hijos, Rasinclub(o rasincopa? o rasinnada q se yo jajaja) y Gremio de la B Portoalegrense, el Burru les clavo en Porto Alegre, amargos! 1984 por siempre!! “perdoname dios por amar al diablo”

    la Recopa 2011, los mejores la juegan, los hijos la miran por la tele!

    se vá River a la B el domingo y quedamos nosotros y los bosteros como únicos 100% de primera! te amo Rojo! salu2

  14. Vitor VEC diz:

    Rà! Certo q ese Burruchaga nem tinha nascido em 84.
    Ademais deve ser colorado e esta tentando buscar apoio da parcialidade do Rojo.
    Quero ver se no confronto direto o pesoal de Avellaneda vai te dar algum alivio.
    Dentro de campo, da Inter; mas fora de campo nao deve ser amizade.
    Pra fechar, 1984 eh um baita livro e era iso. asdfghjhgfdsa

  15. Vitor VEC diz:

    Ah, e eh claro RACING NO EXISTE MAIS.
    hj existe um novo clube, um tal de BLANQUICELESTE que JOGA NO LUGAR DEIXADO pelo outro.
    Coisas OBSCURAS ocorreram la pela virada do miilenio pra favorecer a este clube BLANQUICELESTE.

  16. Chico Luz diz:

    Finalmente outro rojo/colorado por aqui. Aguante, Burru!

  17. Felipe (o catarina) diz:

    #7

    Racing x Belgrano foi 1×1 e 1×0, não? Acho que não foi tão tranquilo assim.

  18. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:
  19. Gralha diz:

    #8 e #11
    meses mais tarde tornou-se o primeiro clube argentino campeão do mundo.

    #17
    eu estava na argentina nessa época e lembro que apesar do placar magro, o racing foi bem superior

  20. mauribrum diz:

    #17 sim, mas os placares não dizem o que foi o confronto. O Racing dominou amplamente e nunca correu riscos sérios. Na ida, teve chances de golear e acabou levando o empate no fim, num erro defensivo. Na volta assegurou a vantagem em 10 minutos.

  21. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    Ja que o assunto é Racing e tal, a gurizada da ImperCorp bem que podia fazer um post sobre a Tita Mattiussi (se é que ja nao tem um), que é um dos símbolos da historia da academia , Tita viveu a vida inteira NO clube e PARA o clube, uma baita historia, enfim, só uma sujestão…

  22. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    PS.: Sugestão com Jota doeu

  23. Felipe (o catarina) diz:

    #19

    ok. Não vi os jogos, mas imaginava pelos placares que tinham sido dramáticos. Enganei-me, então.

  24. Cícero diz:

    o torcedor do Racing é mais sofredor que o do Vasco.
    Acho que não tem torcida mais sofrida nesse emisfério Sul, e olha que fui genro de um torcedor do Racing. COITADO DE MIM.

  25. San Lorenzo diz:

    Racing campeão 1966

    Blanquiceleste S.A campeão 2001

  26. San Lorenzo diz:

    San Lorenzo en la B:
    http://www.youtube.com/watch?v=2YONrp9ghpM

    Racing en la B:
    http://www.youtube.com/watch?v=3PShbep8b78

    ¿Onde estavam os torcedores do Racing na segunda divisão?

  27. FERN diz:

    che, vcs ja se ligaram que pode cair 4 metrpolitanos e subir 4 interioranos!!!… LÁSTIMA

    os clássicos do ano seriam, boca-sanL, union-colon, racing-indep.

  28. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    #28 Lanus – Banfield?

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