Deixa o menino jogar

Jobson é mais um menino negro, brincalhão e sorridente como milhares de meninos baianos. Jobson poderia ter nascido na Boca do Rio, no Candeal ou em qualquer bairro de São Salvador. Mas Jobson nasceu distante. Nasceu lá no norte, na cidade de Conceição do Araguaia, no Pará. Andou muito chão até chegar ao nordeste. E, olha, nessa trilha reuniu muitas histórias.

Em 2009, Jobson foi flagrado com a presença de cocaína no organismo em dois jogos diferentes do Campeonato Brasileiro da série A, quando atuava pelo Botafogo. Em julgamento do STJD, o garoto foi punido com dois anos de afastamento do futebol e depois teve a sua pena reduzida para seis meses.

Na sessão do STJD, ele assumiu ser usuário de crack, um derivado da cocaína, desde o ano de 2008. Cumpriu a sua pena, mas a Agência Mundial Antidoping apresentou recurso perante o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), e o julgamento aconteceu no dia 21 de junho de 2011, na cidade suíça de Lausanne. Jobson poderá ter sua pena agravada ou até ser banido do futebol. A decisão deve sair em até 60 dias.

De acordo com o site da Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas, “o Pulmão é o principal órgão exposto aos produtos da queima do crack”. E o pulmão do menino Jobson está a todo vapor com uma velocidade incrível. Já é o maior driblador da série A, com média de 6,6 dribles por jogo.

Jobson não fez uso de uma substância para obter vantagem no esporte. Seu problema está relacionado a uma droga de uso recreativo e que gera grave problema social. Poderia ter acabado com a sua carreira, mas não acabou. A Justiça Desportiva poderá cumprir um papel que até o crack não conseguiu: destruir os sonhos de um menino.

Nenhuma decisão arbitral ou judicial tem o direito de acabar com a carreira de alguém sem justificativa. Com o uso de drogas, o jogador só fez mal a ele mesmo. Nenhum juiz está acima da esperança que todos os seres humanos têm em ver um menino com problemas dar a volta por cima e se recuperar. Esse, sim, é um exemplo muito maior que um agravamento da pena. Isso é uma verdadeira lição de superação.

Jobson precisa continuar jogando não apenas para a torcida do Bahia ou para o deleite dos amantes de futebol. O momento vai muito além do esporte. Jobson necessita continuar trabalhando para ser lembrado como alguém que teve uma segunda chance e conquistou o seu espaço.

O menino Jobson não nasceu na Bahia. Ele “renasceu” na Bahia. Chegou na hora certa. Abriu a porta como quem é de casa e já tomou lugar no coração dos baianos. E, pelo seu encanto, hoje somos todos uma única torcida. Cantamos a mesma música para ser ouvida bem distante pelos julgadores desse garoto: “Deixe o menino jogar, ô iaiá! Deixe o menino aprender, ô iaiá”. Que ele aprenda com a vida e nos ensine a acreditar no homem, na força da arte e na transformação pelo futebol.

Texto enviado por Rodrigo Machado.

Publicado em Colunas, Pela América com as tags , . ligação permanente.

29 Respostas a Deixa o menino jogar

  1. Free! Free! Mike Tyson Free!
    http://youtu.be/lAd9S-srwr0
    Free! Free! JOBSON free!

  2. Murilo diz:

    Mudaste minha opinião sobre a situação como um todo, rapaz.

    Mas não se iluda meu caro: ao final do ano, após marcar 15 gols no Brasileirão, ajudando o Baêa a escapar do rebaixamento e o premiando com a última vaga para a Sul-americana, menino Jóbson pegará suas malinhas e partirá para um time do segundo escalão ucraniano sem nenhum peso na consciência, esquecendo-se do tricolor de aço dois minutos após embarcar.

    Abs!

  3. Cícero diz:

    o Mutu brasileiro.
    Fiorentina tem que contratar ele. o Mutu tá ficando véio. Abraço.

  4. Prestes diz:

    FREE JOBSON

  5. Prestes diz:

    ou: LIBERDADE PARA O FILHO DO TRABALHO

  6. Samuel diz:

    Trabalho há algum tempo com o direito penal e sonho em ver o dia em que as penas parem de ser “lições de moral” traduzidas em prisão e a retribuição – para não dizer VINGANÇA – que todo juiz, que quase nunca sai de seu gabinete, diz ter ouvido “toda sociedade pedir”. Espero que os magistrados do STJD sejam diferentes da grande (imensa) maioria de juízes que encontro por aí e façam o que devem: preservem (e valorizem) o que resta da dignidade do réu (de um crime cuja única vítima é ele próprio), ao invés de aniquilá-la para todo o sempre!

  7. Guilherme diz:

    Espero realmente que não façam a barbaridade de banir esse guri do futebol. Ele é meio destrambelhado mas joga muita bola. Já é um dos melhores atacantes do brasileirão, e o Bahia tá com um time razoável até.

  8. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    “ou: LIBERDADE PARA O FILHO DO TRABALHO”

    HAHAHAHHAHAHAAHA

  9. Volkart diz:

    Excelente texto. Bom mesmo.
    Pergunta: alguém aí tem algum exemplo positivo do judiciário?
    “SINHÁ ME DIZ POR QUE É QUE O MENINO CHOROU? OIAIÁ!!!”

  10. Limão diz:

    Com todo respeito discordo do texto e dos comentários
    Nós brasileiros sempre queremos dar um jeitinho na lei, sempre querendo a impunidade, a discussão aqui deveria em ser excluir o crack como dopping , pois não dá vantagem ao atleta.
    Mas não, queremos que o atleta seja um ser em que as leis não se aplicam, depois não adianta ficarmos reclamando da impunidade.
    Se existe a lei ela tem que ser cumprida, o que deveria haver é a discussão sobre a lei estar incorreta

  11. Ramon Dongo diz:

    Aposto que vão saltar hipócritas dizendo que ele deve ser punido para dar exemplo, pois é um atleta e influencia as demais pessoas. Todos com quem eu converso sobre esse assunto e querem que o atleta seja banido usam esse argumento esdrúxulo.

    O Jóbson errou, assumiu o erro e acho que já pagou o que devia pra sociedade.

  12. Limão diz:

    #12
    Pelo que tenho lido a questão não é banir o jogar , e sim que se cumpra a lei:

    “Quando deu positivo no exame, Jobson admitiu o uso de crack e foi condenado a dois anos de suspensão pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). No entanto, em um recurso, o jogador conseguiu reduzir a sua pena para seis meses. ”
    “A Wada defende que o Brasil não cumpriu as regras antidoping e pede uma punição mínima de dois anos para Jobson. “

  13. rafael botafoguense diz:

    ele sonha todo dia em voltar pro seu time do pulmão.

  14. Guilherme diz:

    .11

    Tu tá com a visão um pouco antiquada do conceito de “justiça”. As ideias mais atualizadas levam em conta o indivíduo, e ao invés de “dar exemplo” ou “não deixar impune”, eles tendem a aplicar uma sentença que possa ensinar uma lição e restabelecer a pessoa de volta à vida em sociedade.

    Uma sentença ao pé da letra faria justamente o contrário disso.

  15. Limão diz:

    #15
    Posso estar sim, mas tenho certeza se o jogador em questão fosse do são luis, teria sido 2 anos de condenação e não teria stjd para diminuir a pena… Como eu disse antes a questão que me incomoda é a nossa cultural do jeitinho, que o brasil decidiu contrariando a wada.

  16. Godo diz:

    “LIBERDADE PARA O FILHO DO TRABALHO” [2]

    Uma decisão positiva para Jobson seria exemplar para a sociedade refletir a respeito do tratamento que se dá a usuários de drogas. É uma questão de saúde que o esporte pode tratar – o futebol socializa, realiza e motiva Jobson a largar o crack/cocaína. Tratá-lo feito pária e excluí-lo do esporte (como se ele fosse um bandido) vai apenas dar a justificativa necessária para que Jobson PRECISE de drogas pra aliviar a angústia de morrer em vida.

    Grande reflexão, Rodrigo!

  17. FERN diz:

    ñ vejo nenhum tribunal pra o blater e seus camaradas??? pq será, hein???
    e outra desde de quando droga social ehh doping, favorece a quem??? o adversário… aliás outra falacia eh ERVA ser crime… pelo amor de deus e do diabo!!! deixo o povo tomar o CHÁ que lhes agrada…

    jobson tinha que ser tratado, se ja foi ñ sei, ñ ser punido!!!

    alias esse crack e agora o ox? está e vão acabar com tudo…

    ehh tudo uma LINHA BRANCA muito tênue a ser VENCIDA!!!…

  18. gilson diz:

    #18 [2]

  19. Volkart diz:

    Dar EXEMPLO, nesse caso, seria usar a imagem de Jobson e sua superação através do esporte para encorajar outros a buscar mecanismos motivadores para se livrarem da PEDRA.

  20. Frank diz:

    Bah, em um depoimento desses o Filho do Trabalho falou que cheirou umas carreiras com uma atriz global…

    Ele tá lá sendo julgado, mas ela, como é bonitinha e da elite carioca, não pega nada né…

    Muita HIPOCRISIA nessa história toda…

  21. Anônimo diz:

    “Pergunta: alguém aí tem algum exemplo positivo do judiciário?”

    Eu tenho. Hoje, a maioria dos juizes do trabalho IMPEDE que um funcionário seja demitido por ser alcoólatra. O que eles argumentam (e com razão) é que alcoolismo é doença.

  22. Junior diz:

    Esqueci de assinar o post acima.

  23. c arbo nero diz:

    belo texto. apoio total.

  24. El Torero diz:

    Belíssimo texto e aplaudo também o Vitor Biner que está martelando nesta tecla. Ontem no Cartão Verde o assunto veio a baila e foi tratado de maneira clara e decente. Por sinal pago um pau danado pr’aquele programa.
    O Dr. Sócrates ontem indagando os dois guris do São Paulo que lá estavam tratou do assunto educação com eles, da importancia de continuar estudando e tals. Por coincidencia, imagino um acaso formidável na verdade, os dois caras chegaram a começar o ensino superior, educação física e administração, mas pararam, deram um tempo segundo eles, por conta dos treinos e tal.

  25. Rudi diz:

    uma coisa que acho que ninguém falou
    não teve “burlar a lei”, o RECURSO é um direito assistido a todo cidadão em qualquer esfera jurídica, inclusive a desportiva, teve uma punição, ele recorreu, O QUE ERA UM DIREITO DELE, e uma nova avaliação do julgamento, com uma punição menor, nada de ilegal

  26. rafael corinthiano diz:

    #11

    não acho que haja erro na lei, penso que existe um excesso de rigor da agência antidoping. um exemplo disso foi a punição sofrida pela daiane dos santos, por usar um medicamento quando fazia um tratamento médico, mesmo ela tendo se afastado do esporte para tal tratamento.

  27. Jóbson errou e está pagando o preço todo dia, com a exposição imensa que seu caso (seu erro) teve e com discriminação que certamente sofre diariamente. Porém, como lembrou o Rudi, o recurso é um instrumento legal e o moralismo hipócrita nesse caso está se travestindo de legalismo.
    Ótimo e tocante texto, Rodrigo. Bela imagem também escolhida pela edição.

  28. Só uma coisa: essa história de crack é estranha como um todo. A primeira versão dele é que ele dava umas nari\_________gadas durante a naite carioca (junto com “atrizes da Globo”, segundo o próprio). Para mim, apelar para o uso de crack (droga muito mais destrutiva) foi uma estratégia da defesa para “sensibilizar” o júri. Estratégia que não deu muito certo. Enfim: minha opinião não muda. Jogador que usa cocaína e congêneres não é dopado. É burro mesmo. Tem que ficar suspenso por um tempo para aprender e tal. Encerrar a carreira do rapaz só irá ajudá-lo a regressar ao mundo dos Zé Droguitas.

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