Quando o San Lorenzo se tornou o primeiro time a vencer dois campeonatos argentinos no mesmo ano, o Metropolitano e o Nacional de 1972, Francisco Xarau andou incógnito pelas ruas de Buenos Aires. No ufanismo azul e grená do dia da segunda conquista, ninguém importunou o velho que trazia no bolso de trás da calça um título vitalício de sócio do clube, uma medalha de ouro e duzentos pesos. Xarau pôde percorrer os caminhos da capital sem ser reconhecido. Sem ouvir um muchas gracias. Ao entardecer, com as rádios revisitando a jornada campeã do Ciclón, o antigo centroavante se recolheu à pobreza do seu quarto de pensão. Nos dias seguintes, repetiria um cotidiano de seis décadas – procurar o amigo Luis Giannella e conversar sobre o passado. Giannella, ex-ponteiro, estava imune ao mundo, cego e praticamente surdo. Os dois abandonados em suas cadeiras rangedoras eram os últimos remanescentes vivos da formação pioneira do San Lorenzo de Almagro.
Esses clubes de futebol nascidos no início do século vinte geralmente têm em comum o começo humilde de pretensões. Um grupo de jovens que se reúnem para praticar um esporte e, aos poucos, se organizam até ver se lhes escaparem dos dedos o controle do que criaram. Em Almagro, eles surgiram para ser os Forzosos de México – nome da rua que, naquele 1907, era uma vereda de terra cercada de casas baixas. Jogavam futebol porque era o mais barato que havia e, na falta de adversários, botavam os meninos mais novos da vizinhança a enfrentar os mais crescidos. Logo decidiram que o melhor seria somar o nome do bairro – não o da rua – ao do time. Estava acoplado o “de Almagro”. O San Lorenzo viria um pouco depois, na tarde em que um dos garotos que jogava bola pela México foi abalroado pelo bonde da linha 27 de Buenos Aires e escandalizou o padre do bairro, um certo Lorenzo Mazza.
Lorenzo lhes ofereceu um campo para treinarem, nos fundos da capela, e prometeu um par de arcos de madeira encomendados na carpintaria da igreja. Em homenagem, a equipe propôs mudar o nome do time para Club Atlético Lorenzo Mazza, mas o cura sequer cogitou. Entre os argumentos do padre para recusar a honra, estava o temor de que, no calor da cancha, os adversários acabassem chamando seus meninos de “cuervos” – alcunha que identificava pejorativamente os sacerdotes, pelo negro de suas vestes. O apelido acabaria pegando de qualquer forma, mas o pároco não se atentou a isso ao receber a nova sugestão de nome: San Lorenzo, que alegaram ser por conta da batalha homônima vencida pelo libertador José de San Martín em 1813, durante o processo de independência da Argentina. Curiosamente, era 1º de abril de 1908 quando o padre aceitou a mentirinha de que não tinha nada a ver com a denominação e declarou: “Si es por la batalla, está bien. Que se llame San Lorenzo de Almagro”.
Xarau, que tinha quinze anos na ocasião, cresceu junto com o clube, cujas proporções aumentavam de maneira impensada. Em 1914, os guris que havia pouco batiam pelota na rua já compunham uma formação capaz de representar o bairro inteiro e pelear pelo acesso à primeira divisão do ainda amador Campeonato Argentino. No primeiro dia de 1915, disputaram a vaga na elite contra o Honor y Patria e venceram por 3 a 0 no campo do Ferro Carril Oeste. Xarau marcou o primeiro. Seu fiel amigo Giannella, o último. O San Lorenzo subiu e parecia não cair mais. Esta condição garantiu que, em 1937, pouco depois da criação da AFA, ele estivesse entre os clubes tradicionais que demandaram um poder de voto maior nas reuniões da Associação. Os requisitos para obter o peso máximo nas decisões eram: possuir mais de quinze mil sócios, estar há vinte anos consecutivos na elite e ter celebrado ao menos dois títulos nacionais. Apenas cinco clubes preenchiam as exigências – Boca, Independiente, Racing, River e San Lorenzo, desde então tidos como los cinco grandes del fútbol argentino.
Para os que fizeram o Ciclón, no entanto, o etéreo das denominações certamente valia menos que a concretude do patrimônio do clube. Antes de ser considerado um dos maiores do país, o San Lorenzo se sentiu grande por ter um estádio. Foi em 1916, logo depois de subir – e quase falir. Os entusiastas do time haviam acabado de investir tanto quanto podiam na construção de uma cancha modesta pelos lados de Liniers e, ao concluí-la, foram desalojados de surpresa pela prefeitura, que decidiu abrir uma rua onde cruzava a linha do meio de campo. Vendo a equipe obrigada a jogar de aluguel mesmo sendo da primeira divisão, o onipresente padre Lorenzo desfilou sua sotaina por Buenos Aires e, de tanto bater aldravas, foi parar no bairro de Boedo. Lá, arranjou um terreno nas proximidades da Avenida La Plata para os azulgranas recomeçarem. Os próprios jogadores, entre eles Xarau, trabalharam para nivelar o gramado e martelar a primeira arquibancada de madeira. O Viejo Gasómetro começou com capacidade para cinquenta torcedores sentados.
Ali o San Lorenzo se faria ainda maior, o goleador José Sanfilippo empilharia seus gols mais famosos nos anos 50 e a perfeição de uma temporada como 1972 seria realizada. Ali, também, o San Lorenzo os esqueceria. A solidão absoluta e pobre de Xarau e Giannella nos dias após o segundo título de 72 era a dor orgulhosa. Um orgulho talvez ressentido, mas orgulho. Ninguém poderia suspeitar o que seria a dor em sua plenitude, de quem não teria mais nada a que se agarrar. Dez anos depois daquele título duplo, um San Lorenzo endividado esqueceria toda a beleza do ontem. O clube que tinha um campo próprio e não caía desde aquela vitória de 1915 voltaria para a segunda divisão em 1982. Sem estádio. O Viejo Gasómetro, que tanto esforço custara, foi vendido em 1979. E o rebaixamento veio em agosto de 1981, numa derrota em confronto direto com o Argentinos Juniors pela última rodada do Metropolitano. Eduardo Delgado perdeu o pênalti da salvação enquanto o marcador era nulo. A História ironizou: o San Lorenzo mandou o jogo da queda em Caballito, no mesmo campo do Ferro Carril Oeste onde subira seis décadas e meia mais cedo.
O Cuervo foi o primeiro dos cinco grandes a cair na era profissional. A passagem pela segunda divisão foi redentora, com alguns dos episódios mais belos do futebol portenho. Coisa de lotar cada estádio onde esteve, vender mais ingressos sozinho que toda a primeira divisão em um final de semana e botar 75 mil pessoas no Monumental de Núñez contra o Tigre – o maior público em um jogo de campeonato nacional da Argentina, em todas as épocas e divisões. A duas rodadas do fim do campeonato, o retorno se confirmou num jogo que nunca acabou – aos trinta e cinco do segundo tempo no 1 a 0 sobre o El Porvenir, os torcedores invadiram o gramado do Fortín de Liniers para festejar. O resultado foi mantido pela AFA. O Ciclón voltou trazendo consigo o sistema de média de pontos para determinar os rebaixados. Em 1983, a fórmula que agora atormenta o River salvou exatamente os millonarios. No entanto, ao contrário do imaginado, não impediria totalmente o fracasso dos grandes – o promedio daquele ano derrubaria o Racing de Avellaneda, com o roteiro mais cruel já escrito.
Mas isso é assunto para outro texto.
Maurício Brum




Club Atletico Sin Libertadores de America fez e o Figuerense repetiu contra o Caxias em Floripa la por 2001 no nosso ascenso.
E isso tudo eh uma ACAO DE MARKETING do CARREFOUR, que comprou o terreno do Gasometro, montou um super ali (tem um Ugi’s bem na frente do otro lado da rua) e construiu ota loja ao lado do Amalfitani, la pelo 9200 da J.B.Justo.
Chorei.
http://www.schcasla.com.ar/
http://impedimento.org/2011/04/27/voltar-ao-santo-gasometro/
ñ eh maldição de colores pois ateh o Steaua tem uma COPA e o cerro/casla ainda lutam pela 1ª final…
Sensacional! É de se emocionar lendo isto. Simplesmente perfeito! Parabéns Maurício!
Mas bah, esse romantismo me mata.
E como é triste ver “los cinco grandes del fútbol argentino” de fora da copa enquanto alguns abortos como U de San Martin participam…
CLUB
ATLETICO
SIN
LIBERTADORES DE
AMERICA
essa é a melhor flauta da história do futebol
jesus, o q vem depois pode ser melhor q isso?
sensascional, maurício
impedimento no auge
sensacional
tenho q fazer uma peregrinação por esses clubes qdo for a bs as
Confesso que quando começa a Libertadores o San Lorenzo é sempre um dos meus PREDILETOS. É muito sofrimento para um clube condierado grande. E a história do time, como Maurício relatou com perfeição, é sensacional. Sem contar que CUERVO é a melhor alcunha possível.
SAN LORENZO EN LA B
de chorar mesmo….. chupa River!!!!
torci muito por eles na Libertadores de 2007 (ou 8?), quando com 9 em campo empataram um jogo que perdiam por 2×0 pro River no Monumental (o apelido de “gallinas” não é à toa) e passaram para semifinal. Acho que Bergessio foi o cara dos dois gols. D’Alessandro ainda era do SL. Foi um dos jogos mais foda que já vi. Depois do jogo, um torcedor do River em chamas na saída do estádios disse em entrevista pra TV que “no tenemos huevos como los bosteros”. hahaha, sensacional.
# 14
Fora o quebra-quebra no hall do Monumental…
Foi em 2008.
Emocionante! Parabéns pelo post e pelo site: isso é a prova de que ser grande não está condicionado a ganhar uma Libertadores da América, um resultado frio que não significa nada.
sábado numa churrascaria tinha um piá com a camisa do Grêmio [toda a família estava, iriam no jogo contra o Vasco], atrás lia-se DALE. diante da nossa estranheza, a mãe chamou o pai para q nos explicasse. Diz q o D’alessandro jogava na Espanha ainda, a dúvida era Dalessandro ou Riquelme, segundo o pai – explicando tudo com desânimo – escolheu-se o lango-lango por ter mais “gana”.
nada a ver com o post mas
QUE TREMENDO POST, HEIN.
Esses textos do Iuri são inimigos das obrigações cotidianas. Várias vezes já tive que trabalhar e/ou estudar, mas não resisti e li o texto até o final.
#17 : É verdade. A Copa Libertadores nasceu em 1960. A grandeza dos clubes 30 anos antes.
San Lorenzo é o terceiro clube que tem mais os bilhetes vendidos na história.
http://2.bp.blogspot.com/_IeUcFiVeLm0/RaphKD-VmmI/AAAAAAAAANw/wzhOesfU0To/s1600-h/1156626838_f%5B1%5D.jpg
#20 são tão bons qto os do iuri, mas é do amigo dele, o brum. q é FRANCÊS, mas não espalha [oi, facebooh]
Pingback: Grandes descensos – o Racing Club de 1983 | impedimento.org
cara, que texto simplesmente foda.
E a história do Racing em 1982, para quem não conhece, é deprimente – a não ser que tu seja torcedor do Independiente, hahaha.
Pois é, Arbo. Eu sabia quem escreveu o texto, mas me confundi na hora de postar. Desculpe a nossa falha, rssdfdf.
A grandeza dos clubes SE FAZ DIA-A-DIA.
Ou alguem ainda chamaria de GRANDE na italia o GENOA ou o BOLOGNA???
Vejam so como estas cores costumam estar relacionadas a clubes FRACASSADOS, a excecao de um Barcelona da vida.
#15
valeu, sou péssimo pra recordar datas. E procurar no Google dá preguiça e perde toda a naturalidade da conversa.
o genoa e o bologna não foram campeãos ainda em 2007.
o comparativo do san lorenzo seria o… o… o… CORINTHIANS
Perdoo o seu desconhecimento. Entre Genoa e Bologna temos uns 14 TÍTULOS da ITALIA.
NENHUM DESDE 1964.
o Vitor, tu tem algum problema pessoal com as cores azul e grená nao é? o San Lorenzo é um dos times mais grandes da Argentina. 75 mil pessoas na sexta rodada da segunda divisiao cara… e tu fala de operacao de marketing do carrefur. Cara tu é um resentido da vida!
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