Mareados pelo sacolejo do Prata

Foram mais de mil, os argentinos que investiram em lugares nos imponentes barcos da Buquebus para atravessar o Rio da Prata. Ainda houve os que se utilizaram da ponte aérea do sul e os que, por contar menos pesos nos bolsos, chegaram a Montevideo por terra. Mas o maior aglomerado dos fortineros veio pelo “Mar Dulce”, definição dada pelo navegador espanhol Juan Díaz de Solís, que passou por essas águas n’outras épocas. O perigo de conflitos com a polícia, contra certos aurinegros mais exaltados ou entre os próprios torcedores do Vélez foi dissipado na chegada: caminhavam devagar pela doca montevideana, como que enjoados pela travessia da fronteira natural entre porteños e orientales. 

Não foi com casualidade, sorte ou heroísmo que o Vélez chegou às semifinais – nem com dificuldades, inclusive. Ao menos não no mata-mata. Sobrou futebol e frieza para o sucesso copero dos moradores do bairro de Liniers, território charmoso pelas luminárias que contornam as calçadas pelas quais os torcedores do Vélez andam a procura de um lugar entre os grandes do país. Foi com um 5-0 e com um 7-2 (contra LDU e Libertad, no placar agregado) que a equipe se perfilou definitivamente para a conquista do título. E foi pela necessidade de levantar um troféu pesado, dos que forçam os tendões do punho do capitão, que mais de mil argentinos atravessaram o Rio. Para deixar de ser o maior pontuador das últimas temporadas na Argentina e se transformar em um quadro temido pelo que pôde conquistar de verdade no continente.

A Montevideo onde os torcedores do Fortín pisaram atrasados, quando o Prata apenas refletia o último sol da quinta-feira, já vivia esse jogo. Não desde a segunda-feira, quando quarenta mil ingressos sumiram dos pontos de venda em menos de uma hora. Tampouco desde a semana passada, no instante digno de receber dez livros apenas para contá-lo, o do gol de Estoyanoff em San Carlos de Apoquindo. É um jogo mistificado, imaginado, planejado e recriado nas mentes carboneras ao longo dos últimos vinte e quatro anos, as quase duas décadas e meia em silêncio por no llegar tan lejos en la Copa. Esperado desde outro momento merecedor da escrita de repetidos romances, aquele do gol de Diego Aguirre aos quinze minutos do segundo tempo da prorrogação do terceiro jogo (!) da final de 1987 contra o América de Cali, quando o empate valia aos adversários. O Peñarol quis aquilo de novo. E em muitos momentos foi só querer. Mas as bandeiras do Manya penduradas nos carros da capital uruguaia confirmam que algo vem mudando no futebol uruguaio.

O Nacional das semis de 2009 e a Celeste do Mundial 2010 foram precursores da maior bandeira do mundo e do Centenario lotado por mais de sessenta mil almas envoltas em amarelo e negro. É possível que os sonhos não fossem tão belos. E é possível que a consciência de que a história era feita nas noites congelantes do outono montevideano tenha impedido muitos torcedores de estarem nas bandejas do Estadio hoje. As jornadas de Libertadores foram se sucedendo em uma quantidade desconhecida até então por duas gerações de carboneros. Muitos, que iam para a cancha com a família, sentem o peso das partidas nas finanças. Outros simplesmente não conseguiram mensurar a velocidade que o delírio feito real era capaz de gerar nas buscas por bilhetes. É um estádio colossal no menor país da América do Sul, mas não hoje. Não porque os degraus inteiros de hinchas passem uma atmosfera de pequenez – e sim pelos infinitos bares e televisores acesos nas casas dos que não podem estar.

Em Florida, a cem quilômetros do epicentro de toda a fábula, o advogado Alejandro deve estar novamente frente à tevê da cozinha de casa, acompanhado pela esposa e a filha. Com a mesma aflição de sete dias atrás, diante da Católica. As mulheres do lar torcem pelo Nacional. Ferrenhamente. Naquela noite que começou inquietante e logo se pôs verdadeiramente desesperadora, Alejandro se apartou das provocações debochadas quando Roberto Gutiérrez venceu Sosa para meter o 2 a 0. Isolou-se em seu escritório, náufrago em uma ilha cercada de pensamentos sombrios por todos os lados e, sem uma tela para mirar, tentou afastar o frio do pessimismo com o calor irradiado por um rádio próximo ao ouvido. Escutando a Carve de Montevideo, abandonou sua ínsula aos 39 do segundo tempo. Trocou o nado por berros redentores. Alejandro é um par de olhos entre os milhões, aurinegros ou tricolores, voltados à partida de hoje. Contra um Vélez Sarsfield que passou goleando nas duas fases eliminatórias anteriores, mas para o qual o Estadio tem um canto ensaiado: “Vélez, ¿cuántas Copas tenés?”.

Na hora da loucura das vendas fulminantes de ingressos, o advogado de Florida estava a trabalho em Rivera, longe demais para cogitar uma entrada. Voltava para casa na véspera do jogo. Era acompanhado, na rodoviária, por Francisco, um policial conterrâneo seu. Outro torcedor do Peñarol. Outro que volta a provar agora os sabores de antigas noches coperas. E que, na menor menção à partida desta noite, pediu caneta e papel para rabiscar o cântico que lhe viera à mente de imediato, o mesmo que antes da partida já se pode ouvir neste círculo de concreto ao sul do sul. “Siete letras tu nombre formó / que mi mano de niño escribió / siete letras que el alma guardó / Peñarol, Peñarol, Peñarol / Dulce recuerdo que jamás olvido / oh, nombre querido que a mi corazón / trae el latido con el que palpita / cuando el pueblo grita, viva Peñarol”.

Direto do Centenario,

Iuri Müller e Maurício Brum

Publicado em Libertadores, Pela América, Reportagens. ligação permanente.

40 Respostas a Mareados pelo sacolejo do Prata

  1. Sancho diz:

    Bela preliminar para o jogo de futebol que me aguarda!

  2. Sancho diz:

    Me aguarda, o cacete. Que eu aguardo. Esse ÉPICO acontecerá comigo ou SEMIGO!

  3. Felipe (o catarina) diz:

    cadê a gurizada em chamas comentando aqui? Jogo tá muito bom.

  4. Gustavo Santista diz:

    Amigos, eu quero um texto sobre o Santos com essa pegada que vocês escrevem para os time uruguaios e argentinos, não que o texto sobre a peleja de ontem tenha ficado ruim, mas faltou passar essa sensação de loucura que nós torcedores vivemos.

    Eu não consigo mais fazer nada direito até o final da competição….

    abs

  5. AGUANTE PEÑAROL CARAJO GOLO

  6. Neco Müller diz:

    GOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

  7. rafael botafoguense diz:

    golo do OBDULIO VARELA. esse peñarol e sua manya de gols ACIDENTAIS.

  8. col diz:

    Melhor jogo da Liber ateh o momento.

  9. Kadu diz:

    Brilhante texto. E jogaço!

  10. Neco Müller diz:

    O problema é aguentar esta transmissão da globo. Parece que estão narrando e comentando o estadual da Jamaica. Vou procurar uma rádio Castelhana.

  11. Eduardo diz:

    jogaço. não vi quem foi (pois estava com a fox sports no mute) mas o chute de direita seguido do rebote de canhota aos 5 minutos já mostrava o quão emocionante seria essa partida.

    agora, texto do Mauricio e Iuri JUNTOS é covardia!!!

  12. gilson diz:

    total off, na hora mais inapropriada, mas muito engraçado http://www.youtube.com/watch?v=olUkjcwsCs8&feature=youtu.be

  13. Neco Müller diz:

    CARBONERO

  14. douglasceconello diz:

    Caras, sou muito Peñarol até o fina da Libertadores.

    Uma final contra o Cerro seria uma HECATOMBE de emoções.

  15. Prestes diz:

    Qualquer final seria do caralho, menos Cerro x Velez.

    Santos x Penarol iria relembrar o duelo mais foderoso (BOTAFOGUENSE, Rafael) dos anos 60 na Libertadores.

  16. douglasceconello diz:

    Se o Santos ganhar, confesso que ficarei meio DECEPCIONADO.

    adasudhas

    Mas CONCORDO que teria valor histórico.

    (e tornaria o Neymar mais milionário e insuportável)

  17. Ladislau diz:

    O Boca já vingou a derrota pro Santos em 1963, seria a vez do Peñarol vingar a derrota de 1962?

    De qualquer modo, o Santos passando a finalíssima será no Morumbi.

  18. Eduardo diz:

    interessante que ninguém falou nada dos ESCUDOS apresentados na segunda foto… com marcas do passado!!! heheh

  19. Gustavo Santista diz:

    PUTAQUEOPARIU… segue breve prece, que está em caixa alta pois deve ser urrada no melhor estilo pastor de igreja evangélica….

    ENTIDADES SUPREMAS, CELESTIAIS E UMBRAIS QUE CONTROLAM O FUTEBOL, POR FAVOR, PERMITAM A ESTE HUMILDE SERVO O PRAZER DE VER IN LOCO UMA FINAL DE LIBERTADORES ENTRE SANTOS E PENHAROL! E SEM QUERER ABUSAR, MAS JÁ O FAZENDO, PERMITAM QUE O RESULTADO SEJA O MESMO DE OUTRORA.

    Impedimento, obrigado por alegrar essa madrugada de trabalho insuportável.

  20. Vitor VEC diz:

    A nossa rádio – Cadena ECO Argentina 1220kHz – me disse que pelo menos 4mil representaram o oeste bairense no Centenario. Ademais, FOX Sports é um bom canal, mas as vezes, como hj, nao faz uma transmissao digna do jogo que vemos na tv.

    Os 4400 ingressos ja estao esgotados pra gente manya no Amalfitani jueves proximo.

  21. Vitor VEC diz:

    “moradores do bairro de Liniers, território charmoso pelas luminárias que contornam as calçadas pelas quais os torcedores do Vélez andam a procura de um lugar entre os grandes do país”

    Injustiça dupla; Velez esta en Liniers y de Flores a Haedo, como minimo. Fora isso, como se o fulbo velezano fosse pouco, Velez é a maior instituiçao em termos de clube no pais.

    “se transformar em um quadro temido pelo que pôde conquistar de verdade no continente”

    Liber, Super e Recopa, Interamericana, Mundial e 7 nacionais (virá o 8º?)

  22. Vitor VEC diz:

    Maxi Moralez fez muita falta, Fernandez nao foi o VOLANTE SURPRESA que costuma aparecer na area, Ricky (nao o filho do Lela, o Alvarez) amarelou um pouco por ser muito guri e o TANQUE do Silva devia ta com o canhao entupido, so trombou mas nao atirou no gol.

    Fazendo um gol semana que vem, o PEÑAROL deve passar e o Fortin que nao deixe escapar o nacional.

    Depois de incontaveis eliminaçoes de primeira fase e de goleadas de clubes de pouca expressao continental (como era o Inter de 89 que meteu 6-1) é bom ver o C.U.R.C.C. aparecer bem de novo.

    Para dor de cabeça do representante da MAFIA CECCONELLIANA, deve ganhar o SAINTS F.C.. E ele tera de escrever um texto absurdo sobre a maquina que conquistou o TRI da AMERICA pelos pes de ZE LOVE (?).

    Na real, to meio puto com o destino do ONCE CALDAS nesta ediçao, Velez ou Peñarol so seriam campeoes LEGITIMOS se dobrassem Renteria & Cia CAFETERA.

    Saúdos,

  23. Flávio diz:

    R19.
    Já se vingou. Em 1965.

  24. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    Tenho verdadeiro asco pelo peñarol por diversos motivos, mas mesmo assim é muito bom ver eles voltando DE VERDADE à Copa. Alias, que festa linda que os carboneros fizeram ontem (posso ser bolso mas nao sou cego).

  25. Cícero diz:

    alguém me explica que mal sofre o ESTOYANOFF, que só entra no segundo tempo. É alcoolismo por acaso? Ou é o mesmo mal que sofre o Fino, que só entra nas partidas finais depois de estar bebaço?

  26. Cesar Cardoso diz:

    Tenho que fazer constar em ata que foi um GRANDE jogo. Uma autêntica lição a ser ministrada nas escolas sobre o que é a essência do futebol.

    E alguém seguiu o Cléber Machado no Sportv ou ficou todo mundo na Fox Sports mesmo?

  27. Eu assisti pelo Sportv e falo que o Cléber Machado é bem melhor do que os narradores que costumam fazer os jogos do Peñarol nesta Libertadores. Só o Milton Leite é melhor do que ele no “canal campeão”.

  28. Ladislau diz:

    #25

    eu me refiro a final, 1965 acho q foi Independiente e Peñarol, nao é isso?

    ————————————————–
    off topic

    O Impedimento podia ter um “top 10 – finais de libertadores” né, acho que seria legal, até pelo tema principal do site, acho que renderia boas “discussões”(no bom sentido) sobre o assunto.

  29. FERN diz:

    semana que vem, passaram os dois clubes LOCAIS um por PENAIS e o outro com GOL no COMA!!!

  30. Norteña diz:

    Baita jogo, percebam que o 1 a zero em casa é um baita resultado, qualquer derrota fora, mas com gols classifica o Peñarol, além do empate.

    Assim que se ganha copa.

  31. FERN diz:

    Gremio-penarol 83

    Nacional-internacil 80

    e mais oito!!!

  32. rafael botafoguense diz:

    simpatizo com a sofregüidão (volta,trema!). torcerei que nem um tarado pro cerro. os caras jogaram 380 libertas e não chegaram a nenhuma final, porra. nego vai surtar demais e a larissa riquelme correrá desnuda dando cambalhotas pela relva. foda foda foda

    e o Ladislau deu uma idéia legal ali no 30. OLHO NELE.

    (aquela disputa de penaltis ETERNA entre Atl. Nacional e Olimpia em 89 é fodona)

  33. Juan Carlos "Chango" Cardenas diz:

    Bah, a final mais foda foi aquela entre o Peñarol e o America de Cali (citada no texto).
    Até hoje nao me sai da cabeça o narrador colombiano falando “No lo voy a cantar! No lo voy a cantar! Dios mio, por que? por que siempre con nosotros?” devido ao terceiro vice da america seguido do diablo rojo (sendo o primeiro da racha, em ’85 contra o poderosissimo argentinos juniors nos penaltis)…

  34. rafael botafoguense diz:

    a do penarol de 66 também é doida.

  35. J Petry diz:

    #34: Mesmo no tempo do trema, “sofreguidão” não o possuía!

  36. rafael botafoguense diz:

    pois merecia. eles se combinam.

  37. Flávio diz:

    Cruzeiro x River em 76.

  38. Prestes diz:

    Para mim São Paulo 1 x 2 Inter é o maior jogo de Libertadores em todos os tempos, suhdsuhdaasduhasduhasduh

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