
Ser membro da Academia Brasileira de Letras é, naturalmente, uma distinção, mas tem os seus inconvenientes, como descobri na semana passada: tendo ido ao Rio para a reunião da ABL, perdi um acontecimento histórico: ao derrotar o Brasil de Farroupilha, o Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre garantiu seu retorno à primeira divisão do futebol gaúcho, após 32 anos de ausência.
Lamento que meu falecido pai, José Scliar, cruzeirista fanático (e um dos 18 torcedores que, segundo o folclore porto-alegrense, o Cruzeiro tinha) não haja vivido esse momento glorioso. Foi meu pai quem me introduziu ao futebol: eu tinha a paixão pelo Cruzeiro no genoma.
E tinha de ser uma paixão mesmo. A trajetória do Cruzeiro era um tanto desconcertante. Terceira força do futebol gaúcho, o azar no entanto nos perseguia. Mas, e isso ajuda a entender o “pathos” cruzeirista, não era um azar constante. De vez em quando, e da forma mais inesperada, o time ganhava de goleada, renovando nossa fé. Chegamos ao auge quando o Cruzeiro tornou-se o primeiro time gaúcho a excursionar pelo Velho Mundo, o que aconteceu duas vezes, em 1953 e 1960. Na primeira excursão, o Cruzeiro conseguiu até empatar com o Real Madrid e voltou com o autoatribuído título de Leão da Europa.
E aí vinham as surpresas desagradáveis. A última partida a que assisti, sempre ao lado do meu pai, foi realizada no estádio do time da CEEE, o Força e Luz, na Rua Alcides Cruz. Quem perdesse ficaria em último lugar. Mas, para o Cruzeiro, bastava um empate, e, quando terminou o primeiro tempo, estávamos ganhando de 3 a 0. No fim, perdemos por 4 a 3. Ao Cruzeiro, devo a inspiração para A Colina dos Suspiros, livro destinado a jovens, que foi traduzido em vários países. O título nasceu da localização do estádio do clube, que ficava na Colina Melancólica, ali onde estão os cemitérios porto-alegrenses.
Convenhamos que não era um lugar muito alegre, e o estádio acabou sendo vendido para o Cemitério João XXIII. O clube recebeu parte do pagamento em jazigos perpétuos, que valiam uma soma apreciável e foram usados na compra dos passes de jogadores. Quando ouvi um desses jogadores dizendo, na Rádio Gaúcha, e com muito orgulho, que seu passe havia sido adquirido por seis túmulos, dei-me conta de que aquele era o time ideal para um ficcionista, e a partir daí nasceu a história.
Agora, o Cruzeiro mostra sua bravura, retornando à primeira divisão. Nas palavras de Jayme Sirotsky, presidente emérito da RBS, o time, como a mitológica fênix, renasceu das próprias cinzas. E tenho certeza de que, assim fazendo, inspirou nossa seleção na vitória sobre Costa do Marfim. “Se o Cruzeiro pode, nós também podemos”, deve ter dito Dunga. Viva o Cruzeiro.
Texto do escritor Moacyr Scliar publicado no jornal Zero Hora do dia 22 de junho de 2010, após o retorno do Esporte Clube Cruzeiro à primeira divisão do futebol gaúcho, de onde o clube esteve afastado por 32 anos. O escritor e médico estava internado desde janeiro no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e faleceu neste domingo, dia em que o seu Cruzeiro caiu de pé diante do Grêmio no estádio Olímpico, na semifinal do primeiro turno do Campeonato Gaúcho.

O Cruzeiro daria um ótimo texto na série “Los de Abajo” há uns 25, 30 anos atrás, porque não foi um time pequeno destruído por más administrações, foi um time MÉDIO. Imaginem o Juventude saindo da Série D, caindo pra Segundona Gaúcha e fechando. Foi pior que isso, o Cruzeiro tinha mais torcida.
pra quem nao se lembra, o chileno Prestes ja escreveu nesta mesma tribuna sobre os tempos gloriosos do Cruzeiro:
http://impedimento.wordpress.com/2009/07/29/o-dono-de-todas-as-posicoes-parte-i/
http://impedimento.wordpress.com/2009/08/06/o-dono-de-todas-as-posicoes-–-parte-ii/
Ontem, me senti torcendo para o time errado…