O frágil sonho da engrenagem oscilante

Ser Caxias é ser desportista, reza o hino grená, mas é também ser um forte. Quando Miracema empatou para o São José no segundo tempo, em jogo válido pelas semifinais da taça Piratini, um imenso coro de tristeza, raiva e elogios à família do treinador LISCA (o Roth do Caxias) ecoou sobre o estádio Centenário. Lembranças de recentes epopeias frustadas, como no ano passado, quando o time da serra foi eliminado pelo Ypiranga, ressurgiram como cadáveres insepultos nas mentes dos mais incrédulos torcedores.

Podia ter sido mais tranquilo. É que o jogo deste domingo esteve nas mãos do Caxias, ainda no tempo normal, que terminaria em um a um. E a classificação veio literalmente pelas mãos, é verdade, pois o arqueiro André Sangalli foi o personagem da noite ao defender QUATRO cobranças de pênalti do Zequinha, uma espécie de Juventude que veste azul (ao menos o cara que desenhou os escudos foi o mesmo). “Se não é sofrido, não é o Caxias”, confidenciava o torcedor ao fim do jogo, adaptando a suas cores uma clássica sentença do universo futebolístico. “A bola pune”, outro aforismo ludopédico, também foi ouvido a exaustão nas arquibancadas serranas.

Porque tudo havia começado muito bem, bem até demais, por tratar-se do Caxias. Aos seis minutos Lima, um ótimo centroavante ruim (Ceconello,2010), recebeu belo passe de Edenílson, que havia batido a carteira no meio-campo do pequeno Zeca, e tocou com maestria na saída do goleiro Tiago. Uma formosa bucha, desenhada com precisão e insistência, para o delírio das engrenagens grenás. Caxias um a zero, antes da metade do primeiro tempo.

O exército cor de vinho marcava sob pressão e induzia o time da MultiSom a constantes erros de passe. Edenílson perdeu chance de ampliar. Lima, nove gols na temporada, hesitava em aumentar o escore e somar uma dezena em seus números pessoais. Everton, aquele que foi fazer um workshop no Beira-Rio e viu uma Libertadores cair no seu colo, costurava boas tramas pelo ataque. O Zequinha ameaçava em esparsos contra ataques. Mas a rede do time da capital não balançou novamente. Terminava assim o primeiro tempo.

O desenrolar da etapa final acabaria por macular o sonho grená da ampliação tranquila do escore. E como quem tem dois tem um, e quem tem um não tem nenhum, o time do Caxias viu escorrer, também pelas mãos, sua escassa vantagem. Em um cruzamento para a área e na cabeçada certeira de MIRACEMA, a organizada esquadra do Noveletto empatava o jogo. Saudades do Felipão ali na zaga, sonhavam os tiozinhos grenás das antigas.

Então o drama: tiros livres da marca penal. Evocando o eterno BAGATINI, o arqueiro André Sangalli defendeu três cobranças do Zequinha em sequência. Nos pés de Lima a chance do final feliz. Mas o nove grená atrasou para Tiago. A glória suprema estaria reservada para a quinta penalidade do São José, quando André Sangalli voou certeiro para o resplendor debaixo das traves.

Lisca, me belisca para ver se não estou sonhando. Trôpego, penoso, mas com muita GARRA e vontade o Caxias decide a taça Piratini com o Grêmio, depois do Carnaval. E o sonho de ser novamente campeão gaúcho ainda brilha, mesmo que tênue, na engrenagem oscilante do universo grená.

Tiago Sozo Marcon

Publicado em Clubes, Gauchão. ligação permanente.

23 Respostas a O frágil sonho da engrenagem oscilante

  1. Xavante diz:

    Sequei muito a Solange Grená. Tanto quanto sequei o “O Quatrilho” no Oscar.

    Perderá.

  2. Categoria demais na terceira foto.

  3. Sancho diz:

    Re 1

    Caxias e Brasil é uma das MELHORES rivalidades do mundo…

  4. Sancho diz:

    Gauchão visto da Geral:

    Geral do Grêmio/
    é alegria/
    canta mais alto/
    que todas torcidas/

    Que corre os macacos/
    que corre os caxias/
    que corre os xavantes/
    que corre a polícia/

    É tricolor, tricolor/
    tricolor, tircolor/
    tricolor, tricolor

  5. Sancho diz:

    Por fim, de se agradecer ser decisão em jogo único e no Olímpico. Grêmio e Centenário não combinam…

  6. Tiago Marcon diz:

    #5
    Não tem jogo jogado, mas acho que o Caxias teria alguma chance se fosse no Centenário, assim poderia evocar algum fantasma de 2000…
    Grêmio tá com uma mão na taça.

  7. Sancho diz:

    Re 6

    Uma mão é pouco. Então, antes de ter as duas, é melhor não cantar vitória. A eliminação para o Pelotas no ano passado não me deixa mentir.

    Marcon,

    Acho o Centenário um estádio excelente. Se fizerem a cobertura, ainda melhor. Contudo, duas coisas me incomodam: a altura do primeiro lance de arquibancada (muito acima do nível do campo) e a distância da torcida para o campo atrás dos gols. Tu sabes o porquê disso?

    Abraço.

  8. Tiago Marcon diz:

    #7
    Sancho,
    Vi uma entrevista do presidente Voges onde ele disse que toda semana um arquiteto mostra ao clube um projeto de cobertura do Centenário. Um mais massa que o outro. O problema é que não vem com o cheque junto.
    Então acho que a cobertura é pra + adiante.
    Sobre a altura do primeiro degrau e a distância das arquibancadas atrás do gol, não saberia dizer o porquê. Sei que o estádio foi erguido meio as pressas em 76 e de repente foi erro de projeto ou execução da obra (no caso da altura do degrau).
    A parte das cadeiras, acima das socias, são bem inclinadas, lembram um pouco a Bombonera.

  9. Junior diz:

    A torcida do Caxias levava (não sei se ainda leva) uma das melhores faixas já escritas sobre a paixão a um clube de futebol:

    Por amor às causas perdidas

  10. Anônimo diz:

    A propósito, Marcon, a cobrança do Éverton também encerraria a série se fosse convertida.

    Até parece que erraram de propósito para consagrar o Éverton.

    Abraço,
    Sancho

  11. Anônimo diz:

    Consagrar o goleiro!

  12. Felipe (o catarina) diz:

    #2

    somos dois.

    tô brincando, não seco mais o Cai-cai-xias. Nem sei quando joga e Série C não passa na TV.

    aliás, teve um ano que o Duque de Cai-cai-xias fez cai-cai num jogo da Série C. Não adianta, tá no nome.

  13. Tiago Marcon diz:

    é verdade Sancho…
    Agora, alguém pode ajudar aí…não lembro de uma goleiro pegar 4 penais numa decisão…Lembro do Tafa pegar um no tempo normal e dois numa decisão…mas 4 foi histórico

  14. Felipe (o catarina) diz:

    #13

    no Torneio de Carnaval do Distrito do Ribeirão Pequeno (Laguna) de 1999, o goleiro do time do Parobé pegou cinco pênaltis na decisão por penalidades e o time dele ainda perdeu. O goleiro do Morro Grande só pegou dois, mas outros quatro foram pelos ares. Esse eu vi ao vivo.

    Nesse torneio o time da minha família, da comunidade da Madre, jogou cinco jogos (era tudo mata-mata), empatou todos, não marcou nenhum gol, ganhou todos nos pênaltis e foi campeão.

  15. Tiago Marcon diz:

    #1
    fregues sempre tem razão…
    ADFASHDADS
    Tô brincando, nem sei qual a estatística Brasil X Caxias.
    Sei que o Caxias uma vez meteu 5

  16. Tiago Marcon diz:

    #14
    Pô, cinco…Patrão esse

  17. A defesa do 2o penalti é uma das coisas mais fodas que já vi em penais. QUE DEFESA, PQP!

    No más, belíssimo texto!

  18. Everton com a 10. Isso não pode passar impune.

  19. Plinio Lorenz diz:

    #14
    PQP. nem na ImpedCopa se consegue ver tal façanha.

  20. Felipe (o catarina) diz:

    #16 #19

    esqueci de dizer que Tio Célio, 40 anos e uns 100kg, foi o craque do campeonato. Jogava muito mesmo.

  21. Lucian diz:

    Com Adilson avaliable, o roth-argumento de que não tem ninguém para colocar no lugar cai por terra.

  22. Rudi diz:

    Lucian, quero Roth fora, mas não quero Adilson

    JR Carrasco Djá!

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