Tributo al gran fumador

Em meio à discussão do casal para decidir entre o bife de chorizo e o filé de peixe à romana, o garçom, um pouco gordacho e de feições indígenas, bonachão e alegre, interrompe: “No es ‘PIGÍ, nada de ‘PIGÍ’. El correcto es ‘vamos a pedir’ “, acentuando o “e” espaçado e interminável e aquele “i” tísico e elegante que escapa a nós brasileiros. E emenda a descompostura linguística com um sorriso que é assinado pela sentença: “Demoraram tanto pra escolher que se acabaram os bifes”.

O lugar é o London City, café da velha guarda de Buenos Aires, apontado pela MUNICIPALIDAD como um dos cafés notables da capital porteña. Assim como boa parte dos bares e restaurantes bonaerenses, ainda reserva um ambiente para os fumadores se esbaldarem entre vasos imperiales e a nuvem de nicotina, enquanto observam a gente apressada que cruza a Avenida Perú ou sobe da estação do Subte pela escada que fica em frente à janela.

Entornada a primeira metade do copo e tragada com ardor o primeiro terço do cigarro, enquanto o pessoal da cozinha se esmera na CONFECÇÃO do almuerzo, reparo, exatamente atrás de mim, uma mesa com uns folhetos e um cinzeiro. O cigarro está preso por uma fita adesiva, popularmente c0nhecida como DUREX.

Observando melhor, a mesa é isolada por grossos cordões, que a concedem um ar solene. Na borda de um dos lados do quadrado perfeito, uma placa de metal, que diz:

Julio Cortazar (1914 – 1984) – Homenage y reconocimento de London City al gran escritor que dejo inmortalizado el nombre de nuestra confitería en una de sus memorables obras. “LOS PREMIOS” (1960)

O texto no folheto afirma que nos anos 60 “aquel joven delgado, introvertido, de mirada melancólica, gran fumador” sentava-se diariamente para escrever uma novela  em uma das mesas do ESTABELECIMENTO , “tal vez en la misma mesa que está Ud. en este momento”. A obra foi publicada com o nome de Los Premios (pra quem quiser baixar, aqui) e é uma das menos conhecidas de Cortázar, um trabalho no qual o hincha de Banfield tenta desvincular-se do estilo narrativo pelo qual já era conhecido na época.

Eis um dos trechos que motivaram a homenagem e que foi transcrito no folheto: “Prensada entre López y Raúl, Paula preguntó adónde iban. López calló esperando, pero Raúl tampoco decía nada, mirándolos entre burlón y divertido. Como primeira medida podríamos tomarnos un copetín – dijo López. – Sana idea – dijo Paula, que tenía sed. El chofer, un muchacho sonriente, se volvió a la espera de la orden. Y bueno – dijo López, Vamos al London, che. Perú y Avenida“. E não foi uma citação assim de passagem, daquelas que parecem quase um DESATINO. Ao longo da obra, surge diversas vezes o nome do café que parece estar sempre lotado de gente que busca um desafogo na rotina.

Não preciso dizer pra vocês que fui obrigado a fumar aquele cigarro do cinzeiro e substitui-lo por outro, tamanha comoção por ter caído para matar a fome e todas as sedes, após duas horas na fila do Banco de la Nación, justamente naquele lugar “donde ronda además el fantasma literario de Julio Cortazar“, que apesar de ter nascido em Bruxelas e morrido na França, onde viveu grande parte da sua vida esfumaçada y escrivinhadora, é um dos maiores ENGANCHES da literatura de Sudamerica.

Saudações,
Douglas Ceconello.


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20 Respostas a Tributo al gran fumador

  1. Carla diz:

    OBRIGADA pelo post literário. Cortázar é muito digno do Impedimento.

  2. Junior diz:

    O Cortazar é GÊNIO, sem mais. É um escritor que não segue aquele padrão formal, mas consegue ser perfeitamente entendível. Atualmente, há vários “pseudo-escritores” cheios de marra que dizem: “a minha escrita rompe com as formas pré-estabelecidas, é uma literatura difícil de rotular.” VPQP! E o pior é que boa parte da crítica adora esses babacas que não sabem escrever e se escondem atrás de um suposto vanguardismo.

  3. Atilio diz:

    Lugar simpático. Em Porto Alegre tem uns cafés onde a gente vê escritores na lida. Seria legal que um deles nos desminta e venha a ser um puta dum escritor. Daí o café vai decorar uma mesa com um laptopzinho, um livro do Bolaño e vai escrever uma plaquinha bastante cínica, já que ninguém mais se importará com cinismo: “Você não é o único bunda mole a ocupar estas mesas. No seu tempo, o escritor Fulano de Tal costumava sentar numa delas. Mais fazia pose do que escrevia, mas o importante é que estamos lucrando alguma coisa com o fato”.

  4. Diogo Beagá diz:

    Bateu Diego! MATEEEEEEEEEEUS!
    Bateu César! MATEEEEEEEEEEUS!

  5. Diogo Terra diz:

    O pessoal vive falando mal da Argentina, mas não perde uma chance de ir para lá nem de vestir a camisa da seleção deles, pra cada camisa canarinho eu vejo umas três ou quatro albicelestes… Vivem reclamando da violência extracampo, que os caras são porradeiros, mas imitam quase literalmente os cantos e faixas das torcidas de lá – e veneram o jogador argentino que milita em seu time. Em contrapartida, muitos argentinos esbanjam sua debilidade mental fazendo aquelas piadinhas simiescas, mas o que toca de música brasileira nas rádios de lá é uma enormidade. Alguém ainda vai conseguir me explicar essa relação, sem recorrer a chavões e frases feitas.

    PS: Estou lendo “Papéis inesperados”. É caro, mas recomendo a leitura para quem curte o escritor destacado neste post.

  6. marlon diz:

    “…é um dos maiores ENGANCHES da literatura de Sudamerica.”

    bá, de putamadre. fechou o texto con LLAVE de oro.

    e BsAs é muito massa. se as chicas fossem mais guarras seria uma cidade praticamente perfeita.
    por algum motivo desconhecido, todos os barbeiros masculinos em BsAs sofrem de Parkinson.

  7. Anônimo diz:

    taladro copero

  8. emedinapf diz:

    #5
    Quem fala mau da Argentina é o Galvão Bueno. Logo, surgiu este
    troço “odeio os argentinos”…

    Aliás, o narrador-mor deve ter sido currado por um bando de argentinos…

  9. Diogo Terra diz:

    #8
    Dá pra desconfiar mesmo…

  10. Guilherme diz:

    hahahaha! E eu achei que tinha ouvido de tudo. Quer dizer que a rivalidade Brasil-Argentina foi idealizada pelo Galvão Bueno??

    asjdhaksafhaksdlansdfaofna

  11. Norteña diz:

    Muita legal este post, impedimento é, e cada vez mais, cultura…

  12. boy george diz:

    cum-a-cum-a-cum-a-cum-a-cum-a-chameleon

    it comes and goes
    it comes and gooooes 8====D~~~~

  13. George Michael diz:

    wake me up before you go-go

  14. diz:

    #10 Ele não idealizou – mas elevou-a a níveis xenofóbicos. A nível de clubes também (em 2003 e 2007, recusou-se a narrar a volta da final da Libertadores, dada a iminência da vitória do Boca; em 2009, achou que o Cruzeiro ia se dar bem…). Mais ou menos na linha “Brasil ame-o ou deixe-o” de tão tristes memórias. Seleção, então, é aquilo que a gente sabe.

  15. douglasceconello diz:

    Massa que vocês curtiram. E o lugar é muito bom pra almoçar e gastar umas horas, ainda por cima.

    Eu gosto muito dos argentinos e do seu futebol. Não é questão de IDEALIZAR. Só acho a cultura do país muito interessante, assim como outras tantas da América do Sul.

  16. col diz:

    sexta-feira….

    http://www.youtube.com
    /watch?v=Dwimc4cvUmQ#t=01m20s

  17. col diz:

    Eu gosto muito das argentinas.

  18. marlon diz:

    bueno, tem aquela coisa: os Porteños são uma cultura distinta. quase todos os argentinos que conheci em San Martin de los Andes (cordobeses, etc.) não gostavam dos portenhos, por aquelas razões meio clichê que já sabemos: são convencidos, os homens atacam as mulheres etc. mas claro que há muito mais em BsAs do que só esses clichês: o lunfardo é ducaralho, a cultura do malandro, do tango, da Boca, os velhinhos, e mesmo os lugares trendy. além disso, vislumbrei muitas semelhanças com nossa cultura gaÓcha (como diz o Walterva) que eu, burro, nunca havia notado.

  19. marlon diz:

    sem falar que bife de chorizo mariposa, papas bravas e vinho branco por 15 pila já torna a boludolandia um paraíso, che.

  20. Godo diz:

    Grande dica cultural, Ceconello.

    Irei certo. Ou morrerei tentando (ns).

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