A dimensão espiritual do futebol

Conta  a lenda que Deus, entediado dos seus afazeres cósmicos e pressionado pelo departamento de marketing – que exigia a criação de algo novo a cada 15 bilhões de anos – saiu para dar uma banda no Jardim do Éden. Buscava inspiração para novos projetos e precisava mesmo se distrair.

Pousando serenamente sobre etéreos gramados verdes o Altíssimo avistou uma esfera de luz, do tamanho de uma bola de couro número cinco. Nosso criador não hesitou: tomado por um ímpeto juvenil que os homens conhecem muito bem, correu em direção à esfera e desferiu um poderoso chute, um tirambaço mais potente do que milhões de cobranças de faltas do Roberto Carlos (segundo medições da radiação de fundo captada pela sonda Gabiru Dream, da NASA). A bola de luz ganhou imensa energia, alcançou velocidades inimagináveis e  explodiu, de súbito, vomitando o tempo e o espaço na existência. Era o Big-Bang, o petardo primordial que originou o Universo. Corta-se a cena e agora aí está você, muito tempo depois, esbravejando palavrões na arquibancada, só porque o atacante do seu time perdeu um gol inadmissível. Daqueles que até a mãe da gente faz, com duas sacolas de compras na mão. E falando ao telefone.

O futebol nasceu junto com o Cosmo. Antigo pra caral, digo, muito antigo. Talvez esse fato explique sua conexão com as iras e ironias, as paixões, os amores e os dissabores da condição humana. E muito mais. No futebol –  como na vida –  os mais fracos têm sempre a chance concreta, factível, de superar relações pré estabelecidas. Há quem prefira a metáfora de que somos apenas jogadores escalados por Deus, o grande Treinador, para as duras partidas do campeonato da existência. Para vencer, o conceito de coletividade e a crença na união dos semelhantes é fundamental (taticamente falando) embora alguns sejam sempre mais individualistas. E os adversários? São os transtornos, os problemas, os revezes diários e as chatices de toda ordem que insistem em marcar duro, em nos enervar, em fazer catimba.

Para superar estas agruras do oponente o homem inventou o drible. Esse mirabolante subterfúgio espaço-temporal do futebol – que teve em Garrincha um de seus exímios executores, para citarmos apenas ele – é também uma metáfora para a superação das dificuldades mundanas.

Daí a tese de que o  futebol é uma chave de leitura para o mundo. Um modelo teórico-prático para a existência. Quem nunca ouviu as expressões “ficar em cima do lance“,  “passar a bola pra frente” ou “matar o problema no peito” e ainda  “o cara fez um gol de placa com aquela atitude”? Ruim mesmo é quando alguém “leva uma bola nas costas” ou é “jogado para escanteio”.

Para quem pratica ou apenas assiste, o futebol também reserva momentos de superior iluminação. De êxtase, físico e espiritual. (Com o avanço da idade mais físico do que espiritual). A alegria única de acertar um passe de calcanhar. A comoção de um chute no travessão que arranca aquele “uuuuuuhhhhhhhhhh” gostoso da torcida. O gol que a gente faz sem querer na pelada com os amigos, mas que juramos ter mirado no cantinho mesmo.

Perdoem-me as mães dos juízes, mas xingar este profissional, quando vamos ao estádio, pode funcionar como uma válvula excretora do stress acumulado na semana. Mais uma das benesses do futebol, agora atuando como ferramente salutar e psicoterapêutica.

Na eterna relação dialética com o sexo oposto, então, o repertório amplia-se: ao termos certeza que em determinado encontro ”vai dar jogo”, nosso ímpeto cresce. Falo do sentimento, não de nenhum músculo. Ficar com aquela deusa do 602, então,  é “marcar um golaço”, depois de ter driblado toda a zaga adversária.

E quando nos referimos ao gol  transportamo-nos ao clímax, ao orgasmo coletivo, aos momentos de glória… Nosso primeiro emprego. O nome na lista do vestibular. Aquele delicioso banho de mar no verão escaldante. Um beijo inesquecível, obtido depois de quase todo o jogo pressionando o “adversário”. Empate, nesse caso, é lucrativo para as duas equipes. O sexo apoteótico com a guria mais gata da festa, logo depois da festa. E se for gol contra? Aí é o purgatório, o inferno existencial, o dissabor afetivo, um daqueles contratempos que surgem repentinamente do nada.

Porém, mesmo se aceitarmos a hipótese do Big-Bang ludopédico – formulada talvez por um físico amante do esporte  – muitas outras perguntas permanecem sem resposta. E se o nosso Universo for apenas um gramado, dentre inúmeros outros espalhados pelas sesmarias do infinito? O que acontecerá quando o árbitro der o apito final? E se o nosso planeta for apenas uma bola de futebol em repouso, esperando o tiro de meta sideral? E se existir algum Ricardo Teixeira na organização cósmica?  A centelha divina, materializada no tiro de pé direito do Todo-Poderoso, foi apenas o início dessa  partida que inaugurou todos os seres e todas as coisas – incluía-se aí até as mulheres! –  e que ainda promete muitas emoções.

Aliás, o futebol e as mulheres são duas entidades muito parecidas.

Os dois, às vezes, não têm lógica nenhuma.

Tiago Marcon

Publicado em Literatura. ligação permanente.

11 Respostas a A dimensão espiritual do futebol

  1. Lubeck, o zagueiro bandido diz:

    Antes que alguém pergunte, as fotos são do clássico natalino Seplam X Loretto, regado a cerveja e churrasco. Diga-se de passagem, este ano vou ter o prazer de arrancar as canelas do autor do texto em agradecimento às piadinhas oportunistas dos últimos dias.

  2. Felipe - FINET diz:

    genial hein!
    Venho desde a copa acompanhando este excelente blog.
    Pra ficar perfeito, só tendo um Legítimo ALVINEGRO DO ESTREITO colaborando.
    Abraço

  3. fabio diz:

    Marcon, para de ler

  4. fabio diz:

    marcon, para de ler DAVID COIMBRA, URGENTE. Sexo apoteótico é afrescalhado demais – no Impedimento, o pessoal quer sexo, suor, barro e bunda (abraço Cunegundes)

  5. gilson diz:

    DAS IST!

  6. Tiago Marcon diz:

    ahahahahhaa
    ooôoo André, fica feliz, hoje o Grêmio EMPATOU!!!

  7. Felipe (o catarina) diz:

    porra, já tem Felipe catarina, Felipe canoense, Luís Felipe e agora me vem um outro Felipe e ainda torcedor do Figueirense… não dá velho, esse blog é pequeno demais para tantos Felipes… hahaha

  8. Tiago Marcon diz:

    #1
    Ainda bem que vamos jogar no mesmo time no clássico natalino!!!
    Espero…
    huauhahauhauuaa

  9. ricardo diz:

    2010 nao vai ter gremio na libertadores

    aposta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  10. Felipe Z. diz:

    Tem o Felipe Z. também. Joinville na área.

  11. Olga diz:

    Muito bom! E tudo a ver mesmo, mulher e futebol!

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