Evocações de um amistoso

Estávamos na barreira e o ponta de lanças deles foi à pista de atletismo, encheu a mão de carvão e nos jogou na cara. A falta foi batida e fizeram o gol.”

Ontem, o Peñarol visitou Madrid e o troféu Santiago Bernabéu, aquela taça que o Real expõe ao visitante e, depois de noventa minutos, guarda no seu memorial para sempre. A capital espanhola recebeu o choque entre o maior clube da Europa e o maior da América no século XX, com óbvias condições contrastantes. Enquanto o Real Madrid já havia se esquentado na pré-temporada, o Peñarol no máximo tinha esboçado uns coices no Racing uruguaio, em solitário amistoso. Já entrar no mérito do abismo futebolístico seria uma injustiça com Estoyanoff e uma evidente tentativa de louvar Cristiano Ronaldo – e não estamos aqui para isso.

O match entre Peñarol e Real Madrid talvez seja um daqueles clássicos quase incompreensíveis – não há fatores geográficos, econômicos ou políticos em jogo, apenas a memória embarrada dos anos sessenta. Recuperar um confronto destes em 2010 é perigoso – sempre pode surgir uma goleada enganosa que deprima gerações – mas, sem a preparação adequada, sentindo as baixas da última temporada e com um treinador que venceu tudo, mas na América Central, lá se foi o Peñarol para Madrid.

No final, invadiram o campo e foi uma briga tremenda. Saímos do estádio e fomos a um quartel, onde passamos a noite.”

Mais além das clássicas declarações de assombro por parte dos dirigentes – “o centro de treinamentos do Madrid parece algo da NASA” – não houve qualquer projeto de fiasco na estadia do carbonero na Espanha. Até a equipe em campo portou-se bem, com digna retranca e alguns ímpetos ofensivos que não vingaram por deslizes na criação do mundo. Como dignas também foram as desistências dos midiáticos Ozil (a maior das enganações forjadas em Sudafrica) e Ronaldo frente à equipe mirassol. No primeiro tempo, nem as mais explícitas deformações do Peñarol custaram um gol, e o empate no intervalo prontamente destinou a taça da Liga Espanhola ao Barcelona.

Mas faltavam quarenta e nove minutos, voltas de relógio suficientes para que Di María entortasse para todo o sempre a coluna de Rodríguez, o mais careca dos defensores uruguaios. Estava pronto o 1-0, placar sobre o qual o Peñarol pouco pôde protestar. Faltavam pernas e reservas decentes para balancear os cambios sorrateiros do Madrid, que, além de ter noventa e seis vezes mais dinheiro, fez nove substituições durante o encontro. Até aí, sem contestações – mas a avacalhação chegou nos instantes finais, quando foi inventado um pênalti qualquer para castigar os uruguaios. Rafael Van de Vaart, um daqueles holandeses de julho, bateu para que alguém virasse a plaqueta no placar do Bernabéu.

Em Montevidéu, perdemos o jogo e ainda por cima invadiram o campo para matar a gente. Tivemos muita dificuldade de sair dali.”

Finalizada estava a etapa mais delicada do amistoso. Agora, bastava provocar um pouco na entrevista coletiva ou armar uma pancadaria ao soar do último apito para deixar a Espanha com a satisfação bordando a boca. Entretanto, eis que o atual mandatário do Peñarol, Juan Pedro Damiani, acena com o desejo de levar o Real Madrid para Montevideo – sem prometer vingança ou bradar que “torneio que se preze é disputado em mata-mata”. Damiani elogiou a “fantástica opulência” do Madrid e, apesar da equipe cobrar um milhão de dólares por amistoso, afirma que buscará apoio no Uruguai para realizar tal espetáculo.

Restar saber o que o Real Madrid poderia transformar em Montevidéu, além de uma transmissão afrescalhada da Tenfield. Que disputar um torneio no Santiago Bernabéu não merece questionamentos, é certo, mesmo sem saber que nível de futebol aquele Peñarol poderia desempenhar. Mas trazer os galáticos madridistas ao Uruguai, sendo a única finalidade o marketing em cima do confronto, não faz sentido. Muito porque as lendas que dizem respeito aos duelos entre uruguaios e europeus na América do Sul são gloriosas demais para serem reinventadas de forma mercantil cinquenta anos depois.

***

Sobre as recordações da época em que sul-americanos e europeus protagonizavam um encardido mata-mata, servem como exemplo as frases espalhadas pelo texto do lateral português Fernando Cruz, que defendeu o Benfica na taça de 1961 – ocasião em que o Peñarol logrou a Copa Intercontinental. Também foi assim em 60 e em 66, quando o adversário era o Madrid. São declarações coletadas pelo escritor Odir Cunha, que compôs um livro sobre o primeiro título mundial do Santos. Descontados os naturais exageros sangrentos, servem como um retrato do que o amistoso de hoje já representou. Peñarol e Real Madrid fizeram, desta forma, quatro dos melhores jogos daquele século.

Saludos,
Iuri Müller

Publicado em Mundial de Clubes, Pela América. ligação permanente.

18 Respostas a Evocações de um amistoso

  1. Lol diz:

    “o maior da América no século XX”:

    Gilmar; Lima, Mauro e Dalmo; Zito e Calvet; Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.
    Técnico : Luis Alonso Peres (Lula).

  2. grande relato, Iuri.

  3. Guilherme diz:

    .1

    Esse não é considerado o melhor time (clube) do século XX NO MUNDO?

    Sei que existem poucos que não consideram o time de 70 do Brasil como sendo o melhor da história do futebol…

  4. Grená diz:

    JuvenduD

  5. Grená diz:

    JuventuD

  6. vicente v. diz:

    Não sei se existe um ranking de times no sentido de esquadrões específicos, até procurei aqui mas não achei. Mas acho que o sentido de ‘maior da América’ no texto é esse.

  7. Flávio diz:

    Bah… Segundo a IFFHS, Puskas foi o maior artilheiro do Século XX…
    O melhor time sul-americano do século passado foi o Santos dos anos 60. Se o critério for puramente estatístico, foi o Independiente, que venceu mais Libertadores.

  8. dante diz:

    texto FENOMENAL do iuri e vocês aí, se atendo a DETALHES DE JULGAMENTO.

    morram.

  9. Flávio diz:

    Segundo a Fifa…

    # 1. Real Madrid (ESP) – 42,35%
    # 2. Manchester United (ING) – 9,69%
    # 3. Bayern Munique (ALE) – 9.18%
    # 4. Barcelona (ESP) – 5,61%
    # 5. Santos (BRA) – 5,60%
    # 6. Ajax (HOL) – 5,10%
    # 7. Juventus (ITA) – 2,55%
    # 8. Peñarol (URU) – 2,04%
    # 9. River Plate (ARG) – 1,53%
    # 9. Flamengo (BRA) – 1,53%
    # 9. Milan – 1,53%
    # 12. Botafogo (BRA) – 1,02%
    # 12. Liverpool (ING) – 1,02%
    # 12. Benfica (POR) – 1,02%
    # 12. Independiente (ARG) – 1,02%
    # 12. Boca Juniors (ARG) – 1,02%
    # 12. Internazionale (ITA) – 1,02%
    # 12. Arsenal (ING) – 1,02%

    Fonte: Wikipédia

  10. Genial e sensacional, Iuri.

    Uma pena que o caboclo que fez o gol do Peñarol no segundo tempo estava pouca coisa impedido, mesmo. Seria lindo ver o Carbonero derrotando Mourinho na sua estreia.

  11. gilson diz:

    pusta análise, sem mais.
    Confesso uma ponta de inveja do Peñarol, por achar que o Flusão reúne condições de se dar bem numa parada dessas.

  12. Álisson diz:

    Essa baleia de Capão parece o time do Grêmio. Chamam reforços de peso e aí, quando parece que a coisa vai funcionar, encalha novamente….

  13. rômulo arbo diz:

    impecável

  14. Leo Garcia diz:

    #3

    A pergunta é se estes poucos estão errados.

  15. rafael botafoguense diz:

    que eu saiba o peñarol foi o melhor CLUBE da américa no século passado no quesito títulos/participações, o que é indiscutível. assim como o madrid lá na europa.

    o santos foi o melhor esquadrão. mas um esquadrão num dura 100 anos.

  16. Prestes diz:

    “não há fatores geográficos, econômicos ou políticos em jogo, apenas a memória embarrada dos anos sessenta.”

    Queria ter estilo como esse moleque traquinas!

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