Vida e obra de José Luis Calderón

Com a volta olímpica do último domingo, além da celebração do título do Argentinos Juniors – festejado cada centímetro, nunca se sabe quando outra taça acabará em La Paternal – outro fechamento se deu com o fim da tarde. Depois de vinte e um anos de carreira, títulos por quatro times diferentes, joelhos arrebentados e não operados, José Luis Calderón encerrou o seu romance – sem se arrepender de ter reescrito o último capítulo de última hora.

Se um dia o futebol argentino acabar e o último aficionado vivo eleger os times dos sonhos de cada quadro do país, José Luis Calderón certamente vestirá a camiseta nove do Estudiantes – mas poderia aparecer no plantel de mais três: no Defensores de Cambaceres, da terceira divisão, em que iniciou a saga e meteu intermináveis tentos nas canchas de periferia, no Arsenal de Sarandí, pelo impensável título da Copa Sul-Americana, e, pelo último semestre, no Argentinos Juniors. No entanto, a vida de Calderón precisa ser contada primeiramente pelo Ascenso.

Tudo porque nasceu em uma localidade chamada de “Favela”, nos arrabaldes de La Plata, e se tornou famoso por roubar britas nas ruas da região para tapar os buracos do teto da casa. Filho de um fanático do Gimnasia, foi dispensado das categorias de base do Estudiantes e acabou no Defensores, de Cambaceres, tradicional clube das mais recônditas divisões platinas. Em Cambaceres, Calderón se fez profissional e, no primeiro ano de carreira, rompeu tudo o que existe em um joelho. A descrição sensacional é do próprio Caldera: “el central de Dock Sud se me tiró con todo y me hizo distensión de ligamento externo, desplazamiento de ligamento cruzado, rotura de meniscos y esguince de tobillo, todo en uno.”

Mais absurdo do que o lance foi a decisão de não fazer qualquer cirurgia – depois de passar um mês sem encostar o pé no chão e de vagar de bicicleta pelas redondezas por outros três, Calderón se viu apto a voltar aos gramados. No primeiro lance, dominou mal a bola e teve de ir para a dividida – o joelho não estalou e o medo se foi ali mesmo. Em 1991, o Defensores deixa a terceira divisão e Calderón, enfim aceito, vai para o Estudiantes. Ocorre que as primeiras temporadas não indicavam uma trajetória de glória em domínio pincharrata – depois de jornadas algo capengas, o Estudiantes é rebaixado em 1994 com Calderón no plantel.

O dia do rebaixamento do Estudiantes é tratado pelo centroavante como o mais triste da sua vida. Chega, então, uma proposta do Argentinos Juniors. Para se livrar da mancha da queda, no entanto, Calderón e os principais jogadores daquela equipe ficam em La Plata e sobem com o time no ano seguinte – período em que surge Juan Sebastián Verón. Mantida a honra e já feita nítida a identificação com o clube, Calderón embarca para uma década nômade vivendo de gols, tanto no continente (Independiente, Arsenal, América, Atlas), como no além-mar (Nápoli).

Retorna às ruas vermelhas de La Plata em 2005, para ser protagonista na reinvenção do Estudiantes – desde então, o clube se engrandece em nível nacional, conquista de forma impressionante o Apertura de 2006 e volta a se meter nos entreveros sul-americanos. Se Giuliano avacalhou com o projeto há uns dias atrás, não importa. José Luís seguiu erguendo copas: a Sul-Americana de 2007 no intervalo que passou em Sarandí e a Libertadores de 2009 na sua última passagem pelo Estudiantes. Quando se aproximava o Mundial de Clubes, Caldera releu tudo e teve a impressão de estar escrevendo algo complexo demais para os nossos tempos.

A sua história tinha idas e vindas em excesso, mesmo, mas desde o início o personagem não se mostrava adepto de grandes transformações – ostentava gols de centroavante, simplicidade nas frases (“um gol não é muito mais do que um passe para a rede”) e jamais foi tido como deslumbrado. Poderia encerrar com detalhes épicos, quiçá um tento em posição de impedimento, contra o Barcelona, nos Emirados Árabes – destruindo com a sua honra de arrabalde o imperialismo do futebol moderno. Preferiu a renúncia: encerrou a carreira antes do Mundial e assim parecia ser o fim. Até que, no início de 2010, surge como contratação do então último colocado do campeonato argentino.

Quando Calderón posou com uma camiseta de número 14 do Argentinos Juniors, ao lado de Claudio Borghi, o treinador da equipe, o pensamento comum só poderia ser: “y entonces Calderón se quedó viejo y loco”. Na verdade, mesmo após sabermos do desfecho que apenas José Luis conhecia nas suas entranhas, o episódio carece de lógica. Conversei com o jornalista Martín Postiglione, setorista do Estudiantes da rádio Província de Buenos Aires, sobre o confronto do time contra o Inter. Aproveitei para questioná-lo sobre a saída do goleador. Para Martín, é uma questão que nunca terá uma verdade, apesar de rumores sobre peleias com Verón e Alejandro Sabella ainda ventarem por La Plata.

O espantoso campeonato do Argentinos foi o desfecho fantástico do enredo de Calderón – atuando longe da área, quase como enganche, o veterano foi dos atletas mais assíduos do torneio. Preencheu com seus largos causos o vazio de experiência dos companheiros e superou os seus ex-clubes Independiente e Estudiantes que também combateram pelo título. Apesar da insanidade goleadora, outra surpresa não deve trazer novamente Calderón para dentro de uma cancha. A última tarde de domingo futeboleiro, no Tomás A. Ducó, foi definitiva. “Ya no puedo pedir más”, admitiu José Luis.

Saludos,
Iuri Müller.

Publicado em Colunas, Pela América. ligação permanente.

54 Respostas a Vida e obra de José Luis Calderón

  1. Sensacional, Iuri. Calderón foi um grande atacante, e esse título do Argentinos foi do grande caralho.

  2. Cunegundes, o mulato frajola diz:

    esse Caldeirão é um estocador, lembro dele com a camisa do Volta Redonda na Taça Guanabara de 1989, fez muito sucesso naquele ano, ele e a banda Yahoo, quack

  3. Diogo diz:

    Bah, é muita licença poética ROUBAR britas na rua.

    Baita texto.

  4. Junior diz:

    Ótimo texto, Iuri.

  5. sensacional, Iuri. Parabéns. Que história!

  6. rômulo diz:

    bá, grande texto, grande história.

  7. Maurinho Catalunya diz:

    Enorme, fenomeno!
    texto de cronica de nelson, mas que isso do OLÉ.

    A frase sobre o passe para a rede eu mesmo fiz, com MILES de outros peladeiros, mas ele imortalizou.

    Só uma pergunta, eram os prodigios naquele time do Indepiendiente? ele e outro (creio que foi para o River ou a Europa, lembra quem era?????)

    Saludos!

  8. Prestes diz:

    Nos próximos textos do Iuri só vou copiar e colar:

    ESSE IURI É DIMOOOOOOOOOOOOIS

  9. Vitor VEC diz:

    Aconteceu com Caldera o mesmo que me passou na minha curta carreira de amador semi-profissional. Os médicos recomedaram-me NÃO OPERAR E MANTER OS JOELHOS BEM AQUECIDOS DURANTE TODOS OS JOGOS O TEMPO TODO. Malditos…

  10. Serramalte Extra diz:

    bah mas acho que o Maradona tem que voltar a cheirar… como é que deixa o Milito na reserva do Higuain??

  11. Felipe (o catarina) diz:

    Calderón mito, gênio das canchas. E baita texto.

    comentário off: futebol europeu é lixo, mas tem algumas coisas divertidas. Onde mais veríamos FINO (http://www.ebafutebol.com.br/wp-content/uploads/2010/04/sneijder-inter.jpg) tabelando com ROCKY BALBOA? (http://spd.fotolog.com/photo/45/14/50/sosya_hunter/1248858077239_f.jpg)

  12. Serramalte Extra diz:

    porra, um pênalti não marcado e um gol impedido… roubalheira master

  13. Carlos diz:

    O penalti nem conto…mas o impedimento no gol foi piada.

    E q merda de meio campo. Ninguem marca, porra

  14. Serramalte Extra diz:

    15 ah, é… esqueci que pênalti pro Grêmio é só de tentativa de homicídio pra cima, tapa na bola vale…

  15. Vitor Hugo diz:

    “Time de boneca, não dá pra tocar nos caras, parece o Santos!”
    Ponto pro Douglas.

  16. Carlos diz:

    Serramalte…dou a presunção da duvida pro juiz pq era dificil ver sem TV….
    Sou gremista tb, cara…

    E esse juiz eh ridiculo…essa expulsão foi demais…

    Não apaga o fato do time ser uma bagunça tatica.

    Aguante Guilherme!!!!

  17. Frank diz:

    Bagunça tática é pouco… tá parecendo mesmo um CAOS completo…

    Todo jogo do Grêmio agora tem placar de futsal… quê que é isso meu…

  18. Serramalte Extra diz:

    bah… CORTA FORA os braços do Mario pra parar de incomodar e bota ele pra jogar

  19. Felipe (o catarina) diz:

    caras, o que o Grêmio quer com OZÉIA na zaga?

  20. Carlos diz:

    Eh esse FDP do Silas e os “bruxinhos” dele.

    PQP

  21. Diogo diz:

    Guilherme para treinador…

    VOLTA GUILHERME!

  22. Serramalte Extra diz:

    Também não é pra tanto… o Grêmio só ganhou duas vezes do Palmeiras lá no parque antartica…

    jogando sem CINCO titulares (Edilson, Mario, Fabio Santos, Magrão, Borges) e sendo roubado, tem que dar um desconto

  23. Carlos diz:

    Fabio santos e Edilson…nao da pra considerar TITULAR…são uns bostas.

  24. Serramalte Extra diz:

    pra torcida do grêmio todos os jogadores do grêmio são uns bostas, menos o patrício e o sandro goiano… logo não temos nenhum titular…

  25. Segundona diz:

    Oi, gremistas. Sei que é cedo, mas tô aí, né? A gente se conhece bem e quem me quis duas vezes pode querer três. Tô esperando, vocês sabem o caminho.

  26. Silas diz:

    27.

    Oi, td bem?

  27. Bah, que arbitragem horrorosa. Vem cá, Catarina, por que TODO juiz catarinense é uma ABOMINAÇÃO?

    E bah, eu li aqui no Impedimento um dia que o Milito NÃO JOGAVA NADA. Ok, então.

  28. Silas diz:

    29.

    Bom mesmo é o Batoré.

  29. Sancho diz:

    Re 26

    COCITO Rei!

  30. Sancho diz:

    Segue relato de um amigo palmeirense (diretor do clube!), sem qualquer edição, como recebi:

    um jogo que honrou as tradições destes dois times.
    a cena final do marcos (que jogou sua ultima partida oficial no palestra,, ja que daqui 2 anos e meio dificilmente continuará com, a carreira) abraçado ao Vitor do Gremio e depois descendo as escadas acenando, marcou muito.
    aconteceu tudo
    erros de arbitragem, (levamso alguma vantagem nisso) dois penais nao marcados, um para cada lado, e um gol impedido de nossa parte, dois lances de cara a cara a nosso favor impedidos erradamente pelo bandeirinha que presisonado pelos dois erros seguidos, acabou não marcando o impedimento em nosso segundo gol., enfim aqueles jogos que marcam
    o Gremio esta melhor que o Palmeiras, valemo-nos de garra incomum , mas o vitor falou no primeiro gol e o Jonas é um cracaço.
    mas o Leandro não o ajudou em nada, esse Adilson numero 11 é um craque..
    do nosso lado Clayton Xavier, Danilo e principalmente Edinho cumpriram sua parte
    o Palmeiras superou-se, 18 mil pagantes, torcida gremista aplaudindo o time,
    enfim ‘foi um jogo!’

  31. Atilio diz:

    Parabéns Iuri. Texto excelente.

  32. Racing campeão da Europa.

    Sem mais, subscrevo-me

  33. bah, mas o que tá acontecendo com o Victor?

    as falhas são para esquecerem dele na janela de transferências?

  34. Caco diz:

    A nova música da alma castilhana é: LÊLÊÔÔÔ…… GRÊMIO FACÊROOOO

  35. rafael botafoguense diz:

    olha esses caras…torcem pro time e até hj num sabem que ele é um estrume leitoso fora de casa….

    paguem pau pro meu fogão arrasador aew !!!!

  36. Serramalte Extra diz:

    macacada mordidinha com o fernandão hoje hein…

  37. Frank diz:

    Esse jogo de hoje foi um BOM PRESSÁGIO…

    Fernandão COPARÁ novamente…

  38. Carlos diz:

    Péssimo resultado.

    Nada pior do q “alertar os ganso”

    Preferia q o inter ganhasse de barbada…

  39. Gabriel R. diz:

    ano passado o inter ganhou do corinthians no pacaembu com time titular e o timao poupando meio time… depois perdemos a copa do Brasil.

    Hoje é um bom dia pro fossati pedir pra embora e o alecsandro abraçar a causa e ir junto…

  40. Macacada tem outras preocupações, acho.

  41. Prestes diz:

    Fossati é muito mestre!

    Resultado perfeito hoje!

  42. André diz:

    Tá tranquilo, Libertadores é outra história. Com Tinga mais um centroavante dá pra fazer estrago nessa última parte da Liber.

  43. Sancho diz:

    O Central caiu na Argentina. Tomou 3-0 (4-1 no agregado) do All Boys em pleno Gigante, à beira-rio, e foi para a banha…

  44. Sancho diz:

    O que se diz em Rosario é que agora os dois grandes são o “NOB” e o “SÍB“.

    Epidemia de Lepra em Santa Fé!

  45. Ernesto diz:

    Duas bolas no gol, dois gols.

    Walter novamente sendo sacado do time. Bah, e de novo 3 zagueiros, mais uma derrota.

    Fossati maestro, se for pra continuar nessa retranca, que se vá.

  46. zobaran diz:

    Muito bom o texto, Iuri… Parabéns!

  47. rafael botafoguense diz:

    “NOB” e o “SÍB“. UAUAUHAUHAUHAUHAUHAUHAU…

    GIMNASIA DE PRIMERA CARAJOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!

  48. FERN diz:

    sancho… Newells All Boys!!! uhushushuhsuashuashauhs

  49. Sancho diz:

    Boa, FERN!

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