Um dos tantos arcos da Segundona, essas edificações de três traços que surgem aos montes pelo Rio Grande do Sul, é defendido por um goleiro que tem algo mais a dizer. Jair, ao contar vinte e quatro anos, pode bradar que, além de ser o arqueiro menos vazado da atual competição, esteve no plantel do Defensor Sporting que disputou uma Copa Sul-Americana e vestiu o verde e o negro do folclórico El Tanque Sisley, um dos mais instigantes clubes pequenos do Uruguai.
Nasceu em Santana do Livramento e foi registrado doble chapa, o Jair, que durante a adolescência muito defendeu pelo campeonato amador da cidade de Rivera – “bem mais organizado e competitivo do que costumam ser os daqui”. Sem maiores esperanças de emprego nos empoeirados Grêmio Santanense e 14 de Julho, Jair teve no Inter de Santa Maria a primeira experiência da sua trajetória – em 2006, atuou por um semestre na Baixada Melancólica em tempos de Segundona. Como não houve continuidade no colorado, o fim santa-mariense do goleiro de Santana foi o Riograndense, em 2007. No Periquito de então, cujo arco hoje transformou em território inviolável, só foi titular em uma partida. De volta ao amadorismo de Livramento, Jair Lemos – nome que carregaria em solo oriental – ouviu um conselho de um ex-técnico da várzea. Havia a possibilidade de fazer um teste no Defensor de Montevideo, e ele decidiu tentar a sorte.
No mês em que foi avaliado na cancha do Luis Franzini, estádio que se ergue dentro do Parque Rodó, Jair pôde conquistar os uruguaios. Aprovou e passou diretamente ao plantel principal que, no período em que o santanense esteve no clube, participou de copas internacionais – como a Sul-Americana de 2008, na qual foi inscrito. Só que, de inscrito a titular, havia uma barreira das mais complicadas: o também goleiro Martín Silva, ídolo da torcida, um dos grandes salários do elenco e cujo currículo já foi recheado com convocações para La Celeste. Jair chegou a viajar para o Paraguai, na primeira fase daquela Copa – na ocasião, um 3-3 diante do Libertad classificou os uruguaios. A Sul-Americana do quadro violeta se encerraria na fase seguinte, na qual foi eliminado pelo River argentino. Também significou, para o goleiro, o término do vínculo com o Defensor.
Apesar de receber um soldo relativamente bom e “de se preocupar apenas em jogar futebol em um time pequeno que pensa e se organiza como grande”, o Defensor só destinava a Jair a sua camiseta titular quando a partida em questão não passava de um jogo amistoso. Como não havia enfileirado partidas como titular desde que se profissionalizou e precisava de uma sequência para que atentassem para o seu nome, Jair quis deixar o Defensor – daí a mudança para o Central Español, do bairro Palermo. Na equipe palermitana, Jair dividiu o posto com Sebastián Sosa, hoje titular e destaque do Peñarol. Se nos violetas a concorrência liquidou com as chances de Jair, no Central o azar que surgiu logo no dia mais importante da sua carreira impediu que a sua temporada fosse algo mais do que razoável.
Corria a última rodada do Apertura de 2009, e o sorteio havia reservado para o desfecho o mais complicado dos confrontos: o embate contra o Nacional, que se postulava a campeão – e realmente seria. Naquelas alturas, era boa a briga para decidir quem seria o número 1 da equipe do Parque Palermo no próximo torneio. O clássico coube a Jair – e ele sabia que em um jogo daqueles o seu destino futebolístico estaria invariavelmente oscilando. Se agarrasse tudo contra o time grande que brigava para ser campeão, o vento do sul trataria de espelhar o seu nome por toda a Banda Oriental. Só que as possibilidades de desastre são, também, maiores – o que ocorreu, porém, foi mais complexo que o júbilo ou o fracasso.
Ainda no primeiro tempo, quando tudo estava igualado em zero, Jair se enroscou com o centroavante Medina, dos tricolores, no limite da grande área – no vídeo, fica claro que não houve falta do goleiro, e inclusive o comentarista acusa a falha do árbitro. No entanto, o pênalti foi assinalado e Jair expulso no mesmo lance. A grande chance do fronteiriço havia sido abruptamente dizimada por Cardellino, o juiz do encontro. O início nervoso e o penal (mal marcado) serviram para que o técnico Luis Garisto desistisse de ver Jair como uma das opções para a meta do Central. Assaltado por árbitros que tremem as pernas frente aos grandes quadros e desprestigiado por treinadores de segunda linha, Jair partiu para a segunda divisão uruguaia, a parte mais bem sucedida da sua expedição – e também o último capítulo nas cercanias do Rio da Prata.
Para começo de conversa, soube escolher o clube certo na Série B: não há instituição que detenha mais glória do que o El Tanque Sisley – o que mais se aproxima é o Progreso, furioso e anarquista. No clube da maior sigla do mundo (CCyDETS – Centro Cultural y Deportivo El Tanque Sisley), Jair foi titular no Apertura que se desencadeou no segundo semestre de 2009. O torneio levou, em forma de homenagem, o nome do escritor Mario Benedetti, autor de “A Trégua” (buenísimo), “Gracias por el fuego” (idem) e “Andamios” (ainda melhor), que morreu no ano passado. Inspirado pela literatura de Don Mario, o Tanque de Jair finalizou o torneio na zona de classificação para a divisão principal, em terceiro lugar, com 20 pontos somados em 11 partidas. Jair foi o terceiro goleiro menos vazado. As impressões sobre o estimado clube verdinegro, entretanto, podem ser chocantes.
Na boa campanha, por exemplo, o time praticamente não atuou em casa – o Parque Víctor Della Valle se encontra em péssimas condições. A solução era atuar em estádios neutros de Montevideo, como o Charrúa, que é público. Distante do seu palco tradicional, a torcida pouco comparecia – aliás, Jair conta que, surpreendentemente, a torcida do El Tanque é uma das mais elitizadas do Uruguai, o que pode ser explicado – de forma rasa – pela localização da sede, no bairro Carrasco, área em que o custo de vida é um dos mais altos de toda a capital. Sobre o nível da segunda divisão uruguaia, Jair diz ser muito semelhante ao da gaúcha, em que atua agora. Os artifícios de jogo também coincidiriam – principalmente “jogar a bola para a área o tempo todo para aproveitar o tamanho pequeno do campo”.
A última partida d’El Tanque ocorreu no dia cinco de dezembro, e Jair já se preparava para o Clausura quando, desde Santa Maria, alguém pedia pelo seu retorno ao Brasil. Eram dirigentes do Riograndense, que perdera o goleiro Douglas, destaque da última temporada, e que iniciava os preparativos para a Segundona Gaúcha sem garantias para o gol. Jair acreditou na promessa de que o Periquito não era o mesmo de 2007 (uma verdade) e acordou provisoriamente do sonho oriental. Diz ter aprendido horrores com a crueza dos duelos montevideanos e confessou que, nos dois anos em que viveu na Avenida Dieciocho de Julio, alimentou o sonho de vestir a camiseta alva do Nacional. “Apesar do Peñarol ter a maior torcida, o que dá pra ver nos clássicos”. Agora, Jair pôs de lado os recuerdos de Montevideo, as andanças pela Ciudad Vieja e os domingos de futebol em espanhol – mas deve ter sorrido quando soube que o El Tanque iniciou o Clausura com outra vitória.
Saludos,
Iuri Müller




AGUANTE EL TANQUE SISLEY
[beleza de PERFIL, como sempre. parabéns, iuri]
muita sorte ao Jair e ao RioGrandense
edinho fez um gol de voleio ontem? MESMO?
2012
Esse Iuri sabe muito.
Beleza de história. Meu pai é meio torcedor do Riograndense. Ano passado ele foi conferir um jogo da segundona e voltou impressionado com o zagueirão aquele que vocês volta e meia falavam.
Sobre esses jogadores do interior gaúcho que tentam a sorte na Argentina e no Uruguai, acho até que caberia um ESTUDO. Naquela gurizada do Esp. Clube 2014, uns três tinham jogado no Newell’s, Nacional…
pior que os coitados tomaram uma SONORA lavada da portuguesa, uma pena
espero que tenha servido pra algum deles pelo menos aparecer no cenário nacional e conseguir sorte melhor no futebol (a.k.a. Lúcio, quando enfrentou o Inter pelo Esportivo Guará)
Tenho um parceiro que foi atacante do LA PALOMA, no Paraguay.
Baita texto!
Apesar do 7 a 0, dizem que o destaque foi o GOLEIRO, que evitou goleada ainda maior.
algo parecido aconteceu com o cerâmica, tomou 6×1 do paraná, mas virou o intervalo com 1×0 e com o goleiro pegando tudo
reparem na sincronia da pose de jair com a pose do “professor” que está no ouvido da história…
MARAVILHA DE HISTÓRIA!!!
AGUANTE IURI “EL FENOMENO” MULLER!!
AGUANTE EL TANQUE SISLEY
VICE-CAMPEÃO DA IMPEDCOPA!
Demais. Baita história.
9. uisahgiuahiug
Boas tardes. Eu sou uruguaio, falo mal o portugues, e adoro a Mano Menezes:
“Racing Club e la melhor defensinha du mondo”.
http://fanaticosdelmate.blogspot.com/2010/02/la-mejor-defensa-del-mundo-por-mano.html
Muito bom teu blog, Centrojá!
Rapaz, tomamos uma hoje, eu e UM LIVRO (sobre futbol, é claro). Recomendo.
#14
Ixi, começou mal…
çalskdçsakldskçaldkçasdkçsakçld
“sejes” bem vindo, hermano.
Mto massa esse texto
Aguante EL TANQUE SISLEY!!!!!!
Ainda veremos uma final da “Liber” entre EL TANQUE e o glorioso ATLÉTICO RAFAELA!!!
finalmente lembraram dos arqueiros nessa porra