Que sina triste, meu deus , detestar os domingos. Se domingo é dia de
pernas pro ar e pequenos prazeres em qualquer lugar do mundo, aqui no
Nordeste some o fato de, em 90% das datas marcadas no
calendário, domingo ser dia de sol. O que só faz mais triste ainda
nossos domingos de boleiros torcedores do Santa Cruz e do Sergipe. Pra
que sol num dia assim?
Domingo é o dia em que as famílias menos remediadas ensinam a seus
filhos que o que é bom e doce não custa caro. Os meninos botam os
calções e as alpercatas, o pai cata o boné, a mãe enche as garrafas
pet de kissuco de uva, embala o biscoito Treloso na sacola e vão
todos à praia (que é de graça) de ônibus (que domingo é dia de meia
passagem).
É no domingo também que as famílias mais abastadas ensinam aos filhos
que o que é bom e doce não tem preço. Custa caro, mas vale a pena
pagar por isso. É o dia em que os avôs levam os netos cheios de
sobrenomes para o almoço no Leite, para comer camarão, lagosta e
bacalhau, aprender nome de vinho, adoçar a boca com toucinho do céu e
ouvir o piano de cauda. Na mesa de sempre, reservada todo o domingo
para a sua família.
E é no domingo – domingo de jogo – que a minha família acorda
macambúzia e amuada. Eu assisto o Globo Rural para refrigério da alma,
o marido dorme como se o dia não merecesse que ele acordasse. O almoço de
domingo, na casa do velho, a cada semana com uma receita nova para me
agradar, é inquieto em dia de jogo. Ele, que me conhece até pela
pisada, pergunta, infalível: “Hoje teu time joga, né?”.
E é na hora em que as famílias menos remediadas voltam no ônibus,
sentadas do lado do sol, com os meninos dormindo queimados e felizes,
na hora em que as famílias mais abastadas voltam em seus carros
refrigerados e as crianças dormem em suas cadeirinhas ergométricas
refesteladas, de bochechas cor de rosa e arrotando camarão, que nós
dois não conseguimos dormir. Os minutos antes do jogo são piores que
qualquer jogo.
No último domingo, com sol a pino e melancolia idem, não quis ligar o rádio. O Santa Cruz estreava na Copa Pernambuco, a Copinha, um campeonato
semi-amador, seja lá o que isso signifique. O adversário era a
Associação Desportiva Cabense, que no Pernambucano de 2007 já tinha
enfiado 5 no Santa, em pleno Gileno de Carli. A competição meia boca e
as más lembranças me impediam de sintonizar no jogo.
No outro canto da sala, cozinhando no mormaço, o marido se recusava a
ligar o computador em busca da transmissão, com delay e interferência,
de Alecrim X Sergipe, que rolava em Natal, sem pena dos corações
sofridos que só pedem um domingo de sossego. O temor não era sem
motivo. “O Sergipe entrega a rapadura. Faz o mais difícil e cai na
hora boa”, repetia.
Já tinha sido assim no Sergipano de 2009, o Ano do Centenário. O
Colorado de Aracaju tinha chegado ao segundo jogo da final diante do
maior rival, o Confiança, precisando só do empate. Perdeu de 2×1.
Entregou a rapadura. Seguiu para a Série D (a vaga sergipana da Série
C é do Confiança há anos). Foi comendo pelas beiradas e, diante de 40
mil tricolores incrédulos, selou a segunda vitória sobre o Santa Cruz
em uma semana, pavimentou o caminho para a segunda fase da competição
e jogou uma pá de cal no Terror do Nordeste, que já não assusta quase
ninguém.
Mais duas semanas para a escrita se confirmar e uma esposa praguejar
“agora suba com esse time. Tirou o Santa Cruz, agora suba com esse
time!”. Mas a mística do futebol é mais violenta do que a praga de
qualquer torcedora azeda. O Club Sportivo Sergipe podia perder de 1×0
que se classificava, mas a rapadura era pesada demais para Fábio
Cambalhota e sua trupe. Entregaram-na sem pestanejar, perdendo de 3×0
em Natal.
Ficamos sabendo dos resultados depois do fim do jogos, os dois juntos.
É melhor levar a lapada de uma vez do que sofrer aos pouquinhos. Ele
leu pra mim “Santa Cruz estreia com vitória de 2×0 sobre a Cabense”. E
tem quem comemore tão pouco. Eu li pra ele “Sergipe perde e dá adeus à
Série D”. E tem quem não canse da mesma dor, sempre voltando.
Repeti o silêncio respeitoso que ele tinha me oferecido quando a
desclassificação teve três cores. A tapioca da janta ajuda a levantar
o moral, o filme velho na TV espanta a maldição do Fantástico. Domingo
é dia de jogo e nesta casa ninguém sorri. Só deitamos as cabeças
unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
deixa de ser cobrado.
Texto enviado pela leitora Catarina Cristo, que dias atrás já havia nos brindado com sua irrefutável categoria.

AGUANTE ALECRIM
Maurício Pantera melhor centroavante do Brasil
Pelo regulamento, que é confuso, o Sergipe se classificou. Fez três pontos enquanto o Tupy (MG), com dois empates, fez apenas dois. Eles já entraram na Justiça Desportiva, a Série D foi para o tapetão.
Catarina, você abriu meus olhos.
Do jeito que anda meu Regatas, vou começar a procurar alguém que torça pelo ÍBIS…
cara, que texto massa.
foda-se o comentário 2. Não quero o fato, quero a versão.
o Impedimento tem a sorte de contar com o que há de melhor nos textos nordestinos sobre futebol. Quase uma GERAÇÃO DE 22 nascida entre a Diamantina e Fernando de Noronha. É um baita privilégio, nossa senhora, ainda mais pra gente tosca como nós que gostamos de futebol uruguaio, segundona e Daison Pontes.
Só deitamos as cabeças
unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
deixa de ser cobrado.
me arrepiou esse final, sério.
imaginei a cena.
belíssimo, Catarina. Bonito ver um casal que sofre unido na Série D. Tá cheio de nego aí que diz que “eu não torço pra esses clubecos regionais!” e renega o time da terra.
Aqui em casa um é Avaí (eu), outra é Figueirense (Magda, minha esposa). A tristeza de um é a alegria do outro. Mas depois a gente se entende. rsrsrsrsrs
Re 2
Anônimo,
O que vale é a soma de pontos de todas as fases; não só da última.
As quartas-de-final, que valem vaga à Série C, são:
a) Chapecoense, SC x Araguaia, MT;
b) Tupi, MG x Macaé, RJ;
c) Cristal, AP x São Raimundo, PA;
d) Uberaba, MG x Alecrim, RN.
Foram eliminados, apenas, Londrina e Sergipe.
vai ARAGUAIA!!!
dá-lhe zé leôncio!!! (NS)
Claro,
Mais uma vez parabéns ao Impedimento por contar com colaboradora do naipe da Catarina.
ESPETACULAR, mais uma vez…
essa do sorte no amor foi mesmo sensacional.
e, como APONTOU o LF, o final foi de arrepiar.
parabéns, catarina, baita texto!
Muito bom, CC.
Compl 7:
Minha torcida vai para: Chapecoense, Tupi, Cristal e Alecrim.
Tá vendo aí, dante.
Agora, não posso mais praguejar apenas contra Thalles.
Como diria aquele que nunca teve o pé na cozinha: “assim nao dá”.
Catarina, este teu texto deve ter como trilha sonora Dama do Cassino, na voz suave da menina Jussara Silveira.
Valeu o dia, puta queo pariu.
pois é, franSSa.
mas este coro eu não vou engrossar. a menina leva jeito PRAS LETRA.
bem ao contrário de thalles gomes, aquele farsante filho de cupinzeiro.
#2 tupi é com i
AGUANTE CARIJÓ!
Já entra para galeria dos melhores do Impedimento.
Praticamente um clássico.
#5
“Só deitamos as cabeças
unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
deixa de ser cobrado.
me arrepiou esse final, sério.
imaginei a cena.”[2]
Luís felipe extraiu o comentário da minha mente, Genial o texto e o fechamento é demaaaaaais.
Franciel claramente sucumbindo a concorrência nordestina na Imped Corp.
Belíssimo texto.
“Pra que sol num dia assim?”
Usarei.
Muito bom!!!
Ainda tem um Colorado na disputa da série D, o UBERABA.
baita texto, heinhô? A disputa de correspondente nordeste da ImpeCorp está deveras acirrada…
Aguêeeeeenta coração!
bá, parabéns, catarina (e ao maridão). sensacional do início ao fim. ótimo texto.
5
“Só deitamos as cabeças
unidas no travesseiro, no fim da noite, certos de que, quando nos
juntamos, selamos o nosso destino e levamos junto duas torcidas. De
que casamos para não ganhar campeonato, nos gostamos em troca da
desclassificação. Certos de que sorte no amor tem preço, e ele não
deixa de ser cobrado.
me arrepiou esse final, sério.
imaginei a cena.” [3]
Luís felipe extraiu o comentário da minha mente, Genial o texto e o fechamento é demaaaaaais. (2)
Esse texto fica ainda melhor depois de se ler a coluna da Martha Medeiros (arghh) em que ela tenta escrever sobre esporte.
Aracaju é uma bela cidade. Só estranhei o fato que em 10 dias só vi uma pessoa usando a camiseta de um time local. E falando com o recepcionista do hotel, ele disse que é assim mesmo. A maioria da população local não se importa com Sergipe e/ou Confiança. Ele disse que quando o Flamengo é campeão estadual ouve-se muito mais foguetes e buzinas do que quando um time da capital vence o campeonato Sergipano.
os textos de catarina publicados são sempre privilégios para nós leitores do impedimento. belezura!
Realmente, deve ser horrível viver num lugar que sempre faz sol, ainda mais para mim, que odeio praia (há mais de TRÊS ANOS que não vou, graças a Deus).
Meus pêsames. Mais pelo sol e praia do que pelos clubes. Série D não é tão ruim assim.
Texto espetacular!
Luís Felipe no #4 falou tudo. Celebremos o Impedimento!
sensacional.
nada mais.
ah, catarina. q texto lindo da porra!!!
se tu não fulerasse tanto no butuca, podia dizer q eras perfeita.
abração pra vcs!
Nasci em Sergipe, mas a paixão é pelo Santinha.
Se bem que ia dar no mesmo, né?
hahahahahhahaha
Avante, tricolor!
Re 26
Yuri é heliofóbico! Achei que eu fora o único…
heliofóbico = preconceito com Hélio dos Anjos?
ushuaia
Eu vi uma das coisas mais afude num estádio num jogo do Confiança.
Era Confiança x Cruzeiro na primeira fase da copa do Brasil.
Tinha torcida do Confiança e torcida do Sergipe no estádio.
Sensacional.
Mas não conheço um sergipano torcedor do Sergipe ou do Confiança. Mas cheguei a conhecer um botafoguense (por sinal o único que conheci na minha vida).