Apreensão no estádio da Montanha. Tinha início o ano de 1960 e nenhum jogador queria ficar de fora da segunda grande excursão do Sport Club Cruzeiro à Europa, que teria início no mês de março.
- O senhor vai levar o Tonico? – pergunta um repórter.
- Claro, o Tonico já está garantido. É meu substituto para todas as posições – responde o grande treinador Carlos Froner.
Antonio João Bernardo, o Tonico, nascido em 1935, fez história com a camisa do Cruzeiro nas décadas de 50 e 60. História que guarda em uma salinha anexa à garagem de sua casa, na Zona Norte de Porto Alegre. As estantes cheias de cópias de fotos e matérias, cuidadosamente guardadas em plásticos e pastas, formam um verdadeiro dossiê sobre a carreira de jogador e a história do clube onde jogou a maior parte da carreira.
Tudo começou nos campos da Vila Floresta, na mesma Zona Norte da capital gaúcha, jogando de pés descalços. Gostava de assistir aos jogos do São José, no Passo D’Areia. “Era o mais perto de casa, então era o time que eu acompanhava. O São José teve dois grandes times nos anos 40, um deles venceu o Internacional do Rolo Compressor”, diz, citando de cor a escalação.
Foi o irmão mais velho, gremista fanático, que o levou para treinar nos juvenis do Grêmio, ainda na Baixada, em 1952 – na época a categoria juvenil se equivalia aos atuais juniores. No ano seguinte, foi campeão gaúcho da categoria, feito destacado pela imprensa à época porque o clube penava nos profissionais.

Time do Grêmio campeão gaúcho de juvenis em 53, no Estádio
Olímpico em vias de ser inaugurado. Tonico é o quarto
agachado seja de que lado for
Após ser bicampeão gaúcho de aspirantes, em 54 e 55, e atuar um bom número de partidas no time principal, foi emprestado ao Sá Viana, de Uruguaiana, time em que jogou até o fim deste ano. Voltando ao Tricolor e percebendo que a perspectiva de ser aproveitado não era grande, pensava em largar o futebol, quando um amigo, também jogador, lhe convidou para treinar no Cruzeiro.

Tonico ao lado de cracaços como Sérgio Moacir, Noronha, Tesourinha (ele mesmo) e Delém, não se intimidou e fez o gol do Grêmio contra o Flamengo (atual Caxias), no antigo estádio do clube serrano: 1 a 1, em 53
“Ele queria ir lá pedir para treinar, mas não queria ir sozinho, aí me chamou”. O clube estava desmobilizado após as férias de verão. Com um plantel carente, prontamente acolheu os dois novos jogadores. Era março de 56, Cruzeiro e Tonico iniciavam um longo casamento.
Mas foi ainda nos juvenis do Grêmio que começou a se tornar o jogador polivalente que seria ao longo da carreira. “Eu jogava de centroavante e o Delém de meia-esquerda. Às vezes ele pedia pra descansar um pouquinho no ataque e eu jogava no meio-campo”.
Também gostava de jogar de ponteiro-direito, daí para jogar de lateral por aquele lado foi um pulo, “mas já era daqueles laterais que subiam, quase um ponteiro”. Jogava também, sempre que preciso, de centro-médio.
Na verdade, atuava mesmo era em todas as partes do campo. “Eu era louco, fazia uma correria. Isso que o Taison faz hoje era pinto pra mim”. Sem a bola, ia pra cima, pressionava a defesa adversária. “Como ponta-direita, eu gostava de receber a bola nas costas do zagueiro e ia pra rasgada mesmo, dividia com o goleiro. E tinha sorte pra gol também.”
O faro de gol lhe rendeu um dos tentos mais rápidos do futebol gaúcho. Aconteceu numa partida contra o Aimoré, em 1958, assim descrito pelo Correio do Povo: “Um goal relâmpago – desses que só raramente sucedem – deu margem a que os estrelados pisassem na frente: dada a saída, a bola a Tesourinha (não é aquele Tesourinha) , que centrou, falhando Afonso, para Tonico emendar inapelavelmente para as redes do Aimoré. A estupefação foi geral, porquanto o feito cruzeirista se verificou precisamente quando decorriam tão somente 9 segundos de ações!”
O velho jogador conta que a correria que fazia em campo não era muito bem vista na época. “Os jogadores guardavam mais posição, não eram todos que agüentavam correr muito. Quem gostava de jogar como eu dava a desculpa de que estava apenas se deslocando. Hoje, o futebol tá um angu, todo mundo sai de posição”, opina.

Dono de todos os arquivos
Sua indisciplina tática gerava brigas com os treinadores, especialmente com o lendário Osvaldo Rolla. “Duas vezes eu saí do Cruzeiro bronqueado com o Foguinho. Ele era louco, saía de campo esbravejando contra juiz, jogadores, torcida e até mesmo contra a crônica esportiva. Mas nunca faltava com educação, e era um grande treinador.” O jogador comumente discordava de seus comandantes. Defende que o atleta tem que ter opinião. “Se a gente discorda e não fala, é pior. Eu era meio rebelde, sabe?”
Tonico também era alvo da crônica esportiva, que não entendia sua correria em campo. Curiosamente, quem o defendia era o próprio Rolla. “Ele dizia pra eu ficar tranqüilo que eles não entendiam nada”. Depois de um Inter-Cruz, Foguinho disse aos repórteres que se não elegessem Tonico como melhor jogador em campo era por que não sabiam nada mesmo. “Mas não me escolheram. Eles sempre diziam que eu era o pior jogador da partida”, brinca.
Em 1959, completou seu périplo por todas as partes do campo. No segundo tempo de um Gre-Cruz, o quarto-zagueiro Neno se machucou após dividida com o gremista Juarez. Tonico prontamente se ofereceu para ocupar a posição. E foi muito bem, apesar da baixa estatura.
O jogo seguinte era um clássico contra o Internacional. Anunciada a escalação de Tonico novamente como quarto-zagueiro, a crônica prontamente deu como entregue a partida para os colorados. Dessa vez, foi o melhor em campo. “Tinha um treinador meu que dizia que um cara baixo podia jogar de zagueiro. Desde que saltasse o dobro que os caras mais altos”.
Com essa moral, se credenciou para a excursão à Europa. E mereceu que, em um prognóstico sobre a viagem, o jornal Última Hora, na edição do dia 16 de março de 1960, assim o descrevesse: “Tonico é quase um pai na Montanha. É o dono de tôdas as posições”.
Reportagem Especial de Felipe Nascimento Prestes, exclusivo para o Impedimento.

Muito massa, parabéns cara!
Essas histórias são a coisa mais legal do futebol.
GENIAL!
tava demorando um texto do prestes.
muito bom.
Pessoal, DOUGLAS, CASSOL, etc, urge convidar este sujeito pra escrever aqui, reflexão mais pertinente sobre a Seleção nos últimos tempos: http://www.interney.net/blogs/deprimeira/2009/07/29/o_brasil_odeia_amadores/
Abr
Bah, Prestes é o CACO BARCELLOS do Impedimento.
Baita texto, cara. Excelente abertura, grande DEPOIMENTO e fotos geniais.
Muito bom.
Os personagens estão aí. Falta mais gente como o Prestes para escrever as histórias desses caras.
Tb achei exclente.
O Prestes tem que ter uma coluna no Impedimento.
Será a Coluna Prestes.
Rá!
Tonico também era alvo da crônica esportiva, que não entendia sua correria em campo. Curiosamente, quem o defendia era o próprio Rolla. “Ele dizia pra eu ficar tranqüilo que eles não entendiam nada”
Ainda bem que a coisa mudou com o passar do tempo.
eu fico pensando de onde o Prestes tira esses personagens.
sensacional, cara. Parabéns.
Genial, che. Belas histórias, ótimas fotos.
Muito bom, Prestes!
Curto muito essas histórias…e como disse o LF, de onde tu tira isso…?
Muito obrigado, gurizada!
Conheci o Tonico num jogo do Cruzeiro contra o Porto Alegre ano passado, no Estrelão.
Prestes para repórter djá.
faço minhas as palavras andrekanianas no #6.
Tonico foi o precursor de Tinga e Guiñazu.
Também acho que deveria rolar a COLUNA PRESTES.
E depois vamos todos fugir para a Bolívia (ns)
O melhor de tudo é que seria uma coluna prestes no WORDPRESTES.
Jamais poderia dizer que uma coluna escrita por ti não PRESTES.
bá, estou PRESTES a falecer com as piadas infâmes de vcs… (vcs?)
Por favor, alguém emPRESTES um desfribilador pro Arbo não falecer.
Por mim paramos por aqui.
Alguém me emPRESTES metade do talento desse guri.
Báh, não vi que já era infâmia repetida.
Perdi.
agora q reparei. haverá parte II. lesgal.
A segunda parte da reportagem está PRESTES a ficar pronta.
Por isso, Arbo, quero que tu PRESTES bem atenção nos próximos posts.
Eu estarei esperando com muita tranquilidade, e lerei a segunda parte desse post no pátio da minha casa, com a sombra de vários ciPRESTES.
PQP.
Felipe NASCIMENTO PRESTES.
Ou seja, o Felipe ainda não nasceu.
Está pra nascer um repórter como Nascimento Prestes.
muito massa o texto.
já os comentários, muita maconha. hfjks
ahauhauha o petry largou a única relevante
aliás, pra consternação do Cassol, SEMPRE se dá um jeito de direcionar os comentários pra outra coisa que não o texto.
i.e., o texto é só uma SCUSA pra galhofa comentarística.
GUIHOCH SPIRIT reina supremo [ns]
Grande Prestes. Maravilhosa matéria, parabéns rapaz!
Valeu demais!
Pelo depomento do Tonico, foi possível perceber que há muito tempo, a crônica esportiva é uma porcaria, rsrsdfggfd.
Grande reportagem, Prestes!
vou ler o texto só agora…
mas duvido que supere os trocadilhos infames com o nome do autor jkasfdhjasfdjhsfdaj
Lido e aprovado.
Se a lâmina não prestes, prestenção por um momento
me empresta o prestobarba, seu felipe nascimento!
mazáááá!!!!!
Chego atrasado, mas não deixarei de bestar também.
Até que enfim ocorreu o NASCIMENTO de um texto que PRESTEs
Na parte II, espero a saga de TINOCO.
fino venceu no 36
Como irmão mais novo sou suspeito de falar, era muito pequeno na época tinha 10 anos, gostava muito de ver tonico disputar a bola de cabeça, apesar de não ser muito alto, tinha muita impulsão mas ele sempre treinou muito este fundamento.
Abs, Prestes!