A Libertadores ou a liberdade

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Há dez anos, na noite de 26 de março, o Olimpia perdia em casa para o Corinthians em jogo válido pela fase de grupos da Libertadores de 1999. Mas nem de longe esta data no Paraguai é marcada por um jogo de futebol: naquela noite boa parte dos seguidores mais fiéis do Olimpia estavam nas ruas lutando por algo mais que uma vaga na Copa.

O Paraguai vivia recém o seu décimo ano após a queda do ditador Alfredo Strossner. E dez anos não é nada na história de um país, a lembrança de um tempo de medo e repressão não precisa de muito para ser evocada.

No cenário político aparecia cada vez mais forte o general Lino César Oviedo. Até que em 23 de março o vice-presidente Luís Maria Argaña, do mesmo Partido Colorado que Oviedo, é assassinado na esquina da diagonal Molas com Venezeula. Todos os indícios apontam a Oviedo e a população se dá conta de que é preciso ir à praça, dizer ditadura, nunca mais.

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Marcelinho Carioca na vitória do Corinthians.

Foram quatro dias de luta pelo controle territorial das praças em frente ao Congresso Nacional, onde se decidia o impedimento do presidente Raúl Cubas Grau, marionete de Oviedo que possivelmente renunciaria caso seu padrinho assumisse a vice-presidência no lugar do falecido Argaña. Enquanto a população civil defendia a renúncia de Cubas, simpatizantes de oviedo e a Polícia Nacional tratavam de tocar o terror.

Nestes dias de luta, foi importante a participação da Federação Nacional Camponesa (FNC), que estava em Asunción com milhares de agricultores em manifestação que acontecia havia alguns anos. Foram importantes os Jovens pela Democracia, os estudantes da Faculdade de Filosofia da Universidad Nacional de Asunción e os agentes de pastoral da Igreja Católica. Mas ninguém nega o valor da presença maciça da Máfia Negra, a barra brava do Olimpia.

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Multidão, com ajuda de olimpistas, toma conta da praça.

Não tive condições de conversar com nenhum integrante desta torcida que teve papel fundamental no Março Paraguaio, como ficou conhecido o episódio de resistência em que oito jovens morreram e mais de 90 pessoas ficaram feridas por arma de fogo. Mas conversei com três paraguaios, perguntando sempre se a torcida olimpista havia ido à praça por farra, não organizadamente, ao que todos me responderam: não, a Máfia Negra foi pra cima e foi decisiva.

Foi, segundo este site, “una organización cuya ayuda fue clave: La barra brava del club de fútbol Olimpia, me refiero a los ‘Mafia Negra’, que sufrieron la pérdida de un activo miembro, Henry Díaz Bernal”.

Bernal, prestes a completar 21 anos, era fanático do Olimpia. Morreu vítima de balaços disparados por homens que estavam em edifícios próximos da praça. Diz o jornal Última Hora: “Era fanático de Olimpia, miembro de la barra “Mafia Negra”, pero esa noche no fue a ver jugar a su club contra Corinthians. Su otro gran amor, el Paraguay, le reclamaba en la plaza”.

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Dueña Gladys Bernal, mãe de Henry.

Com o massacre de sete jovens (um oitavo morreria meses depois), Raúl Cubas Grau se viu obrigado a renunciar. No seu lugar assumiu o senador Luís González Macchi, de grande frustração para os paraguaios, que dez anos depois elegeriam o primeiro presidente não colorado desde seis décadas.

Muitas versões diferentes surgiram, entre elas, a de que Argaña já estava morto e seu magnicídio fora forjado. “Nenhum acontecimento foi tão manipulado”, me disse nestes dias o médico Alfredo Boccia, que é articulista de política do jornal Última Hora.

Anos depois, a barra do Cerro participaria de outro protesto social – que conto outro dia. E até hoje às torcidas de Cerro e Olimpia discutem qual delas foi mais de luta.

Um abraço,
Daniel Cassol
Fotos: Última Hora, internet, Última Hora e eu.

Publicado em Clubes, Pela América. ligação permanente.

0 Respostas a A Libertadores ou a liberdade

  1. Álisson diz:

    Muito legal o post.

    é interessante ver como o amor a um clube pode unir pessoas em nome de uma causa ainda maior!

    Parabéns a torcida do Olímpia. Se fosse a torcida do meu time, com certeza me encheria de orgulho um feito como esse. Mais até do que um grande título nos gramados.

  2. Matias Pinto diz:

    Cassol, matou a pau! Mais um belo relato guaranístico…

  3. OLIMPERO diz:

    AGUANTE OLIMPIA LOCO!!…EL DECANO..LA BARRA MAS GRANDE DEL PARAGUAY…PASE LO QUE PASE NUNCA TE VOY A DEJAR DE ALENTAR!!…

  4. OLIMPERO diz:

    FALTABA ALGO DE OLIMPIA…POR FIINNNN!..PONEN TANTO FUTBOL PARAGUAYO Y FALTABA PONER ALGO DEL MAS GRANDE!!!…CERRO AMARGO, NO EXISTIS!!

  5. Zobaran diz:

    Parabéns. Ótimo texto.

  6. Gustavo diz:

    Fantástico relato. Legal ver a gurizada torcedora de um clube brigando por algo realmente importante.

  7. dante diz:

    olimpero amargo.

    asdçlsaçda

    muito boa essa história, também ficaria com muito orgulho, principalmente SE LÁ ESTIVESSE.

  8. Sensacional matéria do Cassol, como de hábito. Puta história legal, igualzinho às torcidas daqui…

  9. arbo diz:

    boa, cassol. não conhecia esse março.

  10. fino diz:

    bah gurizada, vamo bater bumbo no piratini e derrubar a véia loca….

  11. fino diz:

    arbo, separa os times aí da impednua

  12. arbo diz:

    tá, vou colocar o douglas de fotógrafo

  13. eu vi esse jogo. Galvão Bueno completamente apavorado no Defensores del Chaco (era esse o estádio?) esvaziado, e um espoucar constante de tiros ao fundo.

  14. col diz:

    Eu também Luís Felipe. No “pré-jornada” o Galvão falou da situação toda em volta do estádio…tanques na rua etc.

  15. Tim Maia da Coréia diz:

    Afudê.

  16. Junior diz:

    Ótimo texto, Cassol. Desconhecia essa participação da torcida do Olimpia.

  17. Flávio diz:

    E pensar que a Gaviões da Fiel nos anos 70 era identificada com a luta pela redemocratização…

  18. Jader Anderson diz:

    Cassol visivelmente incitando a Geral a tirar a Yeda do poder… bem que sempre notei um pequeno logo da ImpedCorp naqueles outdoors bisonhos!

    uhauhauhauhauhauhauhauhauh

    Falando sério me arrepiei com a seguinte sentença

    “perguntando sempre se a torcida olimpista havia ido à praça por farra, não organizadamente, ao que todos me responderam: não, a Máfia Negra foi pra cima e foi decisiva.”

    Depois vm argentino querendo esculachar os paraguaios…

  19. OLIMPERO diz:

    http://www.youtube.com./watch?v=ijqY7dgA5Fw

    aqui tienen un poco del marzo paraguayo loco!!!

    AGUANTE EL REY DE COPAS!!

  20. Legal, assino embaixo de todos os elogios.

    Dia primeiro haverá post pra lembrar do golpe dado no Brasil em 1964?

    Abraços.

  21. Felipe catarina diz:

    sensacional isso aí, igualzinho às torcidas brasileiras… Bela história, Cassol.

  22. Prestes diz:

    Muito afudê!

  23. Daniel Cassol diz:

    Valeu, gurizada.

    Bah, esta semana toda procurei se achava vídeos da partida e não encontrei nada. Seria massa dar uma olhada.

  24. Guilherme diz:

    Sensacional Cassol.

    Alienado que era, também só fiquei sabendo da situação paraguaia na época porque tinha jogo da Libertadores.

  25. gilson diz:

    Passei a ser simpatizante do Olímpia no exato momento em que li o texto. Do caralho, Cassol.

  26. mateus diz:

    sensacional.

  27. Diogo diz:

    Pois é, mas isso nunca vai rolar no Brasil.

    Quem iria fazer o papel da Máfia Negra em Brasília, a torcida do Brasiliense?

  28. douglasceconello diz:

    Bah, que coisa espetacular.

    Cassol fora de controle. Me permitam o elogio, que nada tem de CORPORATIVO, mas é um dos maiores jornalistas que conheço.

  29. Renato K. diz:

    Suellen, qual é a ALTURA do Cassol?
    dfsgsdgsdfgs

  30. Diogo diz:

    30.

    Não fala isso, Douglas [porque não grafa teu nome com maíscula?], que dá azar.

    Ele pode acabar virando apresentador de reality show.

  31. Ernesto diz:

    Se forem bater bumbo no piratini, to dentro

  32. Rogério Tomaz Jr. diz:

    definitivamente, o futebol é uma das melhores metáforas da vida…
    parabéns, cassol!

  33. douglasceconello diz:

    “porque não grafa teu nome com maíscula?”

    Bah, sei sá o que acontece. Algum cadastro maroto que eu fiz com essa ASSINATURA e depois fiquei com preguiça de mudar.

  34. muito foda a história. obrigado, impedimento, por nos permitir chegar a conhecer tais fatos.

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